Pessoa na alma, Pessoa na mala

“Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem ‘estado de alma’ nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim”

Alberto Caeiro

Preparando as malas para mais uma viagem. Na bagagem, poucos livros, porque a vida de caminhante exige desapegos. Que bom que a poesia de Fernando Pessoa me faz companhia…

Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Quando vocês estiveram lá, se tiverem a oportunidade de visitar um desses lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa de tomate.

Um pouco de Clarice no frio outono do hemisfério norte

Como diria Kafka, tem dias em que tudo que não é literatura me aborrece. Hoje, me deleito com a releitura de Clarice:

“─ Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança, só agora viva, do que nós dois já vivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? (…) Não tenhas medo agora, está a salvo porque pelo menos já aconteceu, a menos que vejas perigo em saber o que aconteceu.

É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e, a esse não acontecer nada, chamávamos de intervalo. Mas como era esse intervalo?
Era a enorme flor se abrindo, tudo inchado de si mesmo, minha visão toda grande e trêmula. O que eu olhava, logo se coagulava ao meu olhar e se tornava meu ─ mas não um coágulo permanente: se eu o apertasse nas mãos, como a um pedaço de sangue coagulado, a solidificação se liquefazia de novo em sangue por entre os dedos.
E só não era o tempo todo líquido porque, para eu poder colher as coisas com as mãos, as coisas tinham que se coagular como frutas. Nos intervalos que nós chamávamos de vazios e tranqüilos, e quando pensávamos que o amor parara…
(…)
Nesses intervalos nós pensávamos que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois”.

Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH

“Há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”

‎”Os fantasmas da minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender. (…) No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. – Mia Couto, para as Conferências de Estoril 2011.

Hoje, garimpando no Facebook, me deparei com este vídeo de um discurso do Mia Couto, nas Conferências de Estoril 2011, sobre segurança. Nele, o escritor moçambicano fala sobre o medo como construção social que cria fantasmas e inimigos onde não existem, ergue muros que inviabilizam o diálogo entre diferentes e rende trilhões de dólares à indústria de armamento.

Para exterminar os tantos fantasmas que aprendemos a temer desde crianças, Mia Couto aponta um caminho: o exercício de nos abrirmos para o diferente e a disposição de conhecer o outro.

As palavras do escritor me tocam muito, pois tenho podido experimentar a verdade que elas carregam. Há 7 meses estou viajando pelo mundo e, nesse tempo longe da minha zona de conforto, precisei contar com a ajuda de muita gente. Além de jamais ter me sentido ameaçada, gentileza e solidariedade nunca me faltaram.

Minha primeira viagem internacional foi aos 18 anos, para Israel. Na época, recebi muitas mensagens preocupadas. Mal sabiam os amigos que mesmo em Israel, naquele ano 2000, quando ainda havia esperança nas negociações entre israelenses e palestinos, antes da Nova Intifada, as pessoas eram menos agressivas que no Rio de Janeiro, onde também é comum desejar a morte do vizinho em nome da paz.

Recentemente estive na Caxemira e vivi sozinha, durante uma semana, em uma casa-barco. Numa região famosa pelos surtos de violência e onde predomina o islamismo, religião tão estigmatizada e que se tornou sinônimo de fundamentalismo, encontrei mais afetuosidade e disposição para o diálogo do que em muitos redutos ditos cristãos.

Nunca tivemos tanto acesso à informação; ainda assim, os estereótipos imperam e os fantasmas vagam soltos por aí, nos roubando o sono e impedindo utopias. Atormentados, deixamos de sentir e de pensar criticamente. Assustados, erguemos barreiras em vez de construirmos juntos um mundo mais justo. Cegos, estigmatizamos sociedades inteiras por conta dos erros cometidos por determinados grupos e nas restritas esferas de poder.

Claro, são poucos os que lucram com a manutenção do medo e tal percepção deveria nos revestir de coragem para dizer não a esse estado de coisas. Comecemos, pois, aprendendo a olhar nos olhos em vez de nos contentarmos em ver o mundo através de telas e janelas.

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