Um pouco de Clarice no frio outono do hemisfério norte
14 de novembro de 2011 2 Comentários
Como diria Kafka, tem dias em que tudo que não é literatura me aborrece. Hoje, me deleito com a releitura de Clarice:
“─ Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança, só agora viva, do que nós dois já vivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? (…) Não tenhas medo agora, está a salvo porque pelo menos já aconteceu, a menos que vejas perigo em saber o que aconteceu.
É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e, a esse não acontecer nada, chamávamos de intervalo. Mas como era esse intervalo?
Era a enorme flor se abrindo, tudo inchado de si mesmo, minha visão toda grande e trêmula. O que eu olhava, logo se coagulava ao meu olhar e se tornava meu ─ mas não um coágulo permanente: se eu o apertasse nas mãos, como a um pedaço de sangue coagulado, a solidificação se liquefazia de novo em sangue por entre os dedos.
E só não era o tempo todo líquido porque, para eu poder colher as coisas com as mãos, as coisas tinham que se coagular como frutas. Nos intervalos que nós chamávamos de vazios e tranqüilos, e quando pensávamos que o amor parara…
(…)
Nesses intervalos nós pensávamos que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois”.
Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH



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Beijos