Pra mim, é tudo conversa (Moçambique, Diário de Bordo, parte 2)

Ontem fez três semanas que cheguei em Maputo. Há um aspecto que marca a diferença deste lugar em relação aos outros por onde andei este ano: aqui me dedico a conversar. Com os velhos conhecidos moçambicanos que me acolheram tão bem, com os amigos dos amigos, com seus familiares. Também com a amiga estrangeira de longa data que elegeu este país como lar, com os novos amigos brasileiros, com o empregado da casa onde vivo, com o taxista, com os vizinhos.

Cada um, um olhar, uma interpretação, uma experiência diferente. Os amigos sessentões, ex-revolucionários, me contam histórias daquela década de 1970, quando, aos vinte e poucos anos, sob a liderança de Samora Machel, tiveram a missão de construir um país. Eles dão números (que preciso confirmar no arquivo histórico nacional): em 1975, ano da Independência, numa população de 9 milhões de moçambicanos, apenas 34 tinham nível superior. Meus novos amigos estavam entre esses.

O meu conterrâneo, que conheci na semana passada, chegou em 1979. Economista, exilado da ditadura militar brasileira, veio realizar aqui o sonho que não foi possível na nossa terra de palmeiras e sabiás. Nunca mais voltou. Ele é um dos mais entusiasmados ao lembrar daqueles tempos difíceis: “vivemos durante vinte anos uma verdadeira economia de guerra, mas todo mundo se ajudava”.

A amiga moçambicana recebia leite em pó dos familiares exilados na Suíça para alimentar a filha, mas se refere àquele momento como “o paraíso”. Na mesa repleta de memórias, todos concordam que pertenceram a uma geração privilegiada, que pôde viver e construir tanto. Ali, lembram do comentário de um outro amigo brasileiro, também exilado, ex-prisioneiro político trocado por um daqueles embaixadores: “Não volto mais”, dizia ele. “Com praia, camarão, cerveja e revolução, de quê mais eu preciso?”. Curioso é que esse, sim, voltou. Hoje, faz parte do governo da Dilma.

O rumo da prosa muda totalmente quando converso com aquele senhor simples, pobre, que vive na periferia. Ele me diz que tempo bom era na época dos portugueses, quando todo mundo podia comprar e não precisava enfrentar as filas do abastecimento.  É super crítico em relação ao fato do Samora Machel ter morrido pobre. “Se todo mundo era pobre naquela época, o senhor gostaria que justo ele fosse rico?”, pergunto. “Ele era um guerrilheiro, matou pessoas. Deus não o aceitou no céu, lá é que ele não tem riqueza mesmo. Seria melhor que tivesse sido rico enquanto estava vivo”.

Há quem defenda o governo, há os que fazem questão de falar de sua indignação. Eu, confesso, por ora prefiro só escutar. Pra não ser leviana e não fazer o que critico na maioria dos viajantes que tenho conhecido: a facilidade para arrotar conceitos e verdades sobre a terra dos outros.

Por enquanto, vou aproveitando cada oportunidade de conversa. Cheguei à conclusão de que conversar é o que significa a minha vida. Viajo pra ouvir histórias diferentes. Faço amigos e namoro, no fim das contas, para conversar – a diferença entre uma relação e outra é o desejo. Quando casar, seguindo o conselho de Nietzsche, vai ser pelo mesmo motivo:

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Às vezes acho que acredito em Deus só pra ter com quem conversar mesmo quando estou sozinha em algum canto remoto do mundo e  sou ecumênica para poder dar papo não só pra Cristo, mas também pra Alá, pra Buda, pra Brama, Visnu e Shiva.

Enfim, vou parar com a conversa fiada agora que ainda tenho muitas histórias para ouvir.

Sobre Gisele Maia
Jornalista, blogueira desde 2002, atualmente viajando pelo mundo em seu ano sabático. Virginiana com ascendente em aquário. Ecumênica, meditativa; amante da palavra e também do silêncio. Apaixonada por cinema, literatura, viagens e fotografia. Ex-quase-bailarina e metida a yogui. Clássica e eletrônica, blues e jazz, bossa nova e rock and roll - yeah!

3 Respostas para Pra mim, é tudo conversa (Moçambique, Diário de Bordo, parte 2)

  1. Pingback: Sobre saudades, arte, doçura e tempestades « Digerindo

  2. David Sá disse:

    O gostoso de conversar é que a todo momento o que ouvimos pode ser, e geralmente é, uma completa surpresa. E Nietzsche, como sempre, lapidar. Adorei. Beijo.

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