Sobre saudades, arte, doçura e tempestades
19 19UTC dezembro 19UTC 2011 2 Comentários
No sábado, quando voltei pra casa, soube que Sérgio Britto e Joãosinho Trinta haviam morrido.
Engraçado que pensei no Joãosinho Trinta enquanto escrevia o post anterior. Ele, que foi o autor da máxima “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo”. Pensei que talvez a teoria dele explique a diferença de visão dos moçambicanos com quem conversei sobre a revolução. De um lado, os intelectuais, ex-revolucionários entusiastas. De outro, o povo que assistiu a tudo bestializado e avalia o que é bom ou mau governo a partir do acesso à comida. “Quem tem fome tem pressa”…
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Entrevistei o Sérgio Britto em 2002. Na época, ele encenava, ao lado da Cleide Yaconis, Uma longa jornada de um dia noite adentro, do Eugene O’Neill, o dramaturgo estadunidense fonte de inspiração para Nelson Rodrigues (tive o prazer de assistir à peça, logo depois da entrevista, e permanece como uma das mais marcantes da minha vida).
Em uma hora de conversa, ele não apenas falou do espetáculo em cartaz, mas também sobre o seu programa, o Arte com Sérgio Britto. Lembro que o comentário sobre o público telespectador foi contundente. Segundo ele, pessoas pobres, com o nível educacional baixo, o cumprimentavam na rua e elogiavam o programa. “Esses se emocionam de verdade com o que digo. O que mata no Brasil é essa burguesia burra e massificada”.
Tenho ressalvas em relação à tal mania de luxo dos desfavorecidos (apesar de que não vejo glamour na pobreza. Talvez me falte um mestrado e um doutorado para virar intelectual; talvez eu seja classe média demais e, por isso, afeita ao meio-termo). Mas confesso que acho interessante essa ideia de que é pobre quem se emociona de verdade com arte…
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Já era noite aqui quando recebi a notícia de que a cantora caboverdiana Cesária Évora completou a festa de sábado no céu. Deixo aqui a minha homenagem e aproveito para compartilhar esta linda interpretação de É doce morrer no mar.
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Em tempo: essa saudade que os três deixam é muito diferente da tristeza por conta da tragédia nas Filipinas. Definitivamente, não é doce morrer na tempestade.



Eu gostava muito do Arte com Sergio Britto. Lembro-me que foi assistindo o programa que tive minha melhor aula sobre expressionismo alemão. Não tive esse prazer de conhecer o Sergio pessoalmente, nem mesmo de vê-lo no palco, embora o tenha visto diversas vezes por aí, nos teatros e centros culturais do Rio. Lamento muito sua partida, mesmo sabendo que faz parte da vida o deixá-la. Acho que tinha uma simpatia especial por ele, por achá-lo fisicamente parecido com meu pai. Acho que isso me fazia sentir-me um pouco filho dele, rs. Beijo.
David, trabalhei na TVE e, por isso, nos esbarrávamos sempre. Algumas vezes trocamos algumas palavras sobre algo relacionado ao trabalho. Mas esse dia da peça foi o único em que conversamos de verdade. A impressão que eu tinha dele se confirmou: era mesmo alguém muito firme, cheio de personalidade, sem papas na língua e super apaixonado pelo teatro, pela arte, pelo que fazia. Um exemplo, certamente.