Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Quando vocês estiveram lá, se tiverem a oportunidade de visitar um desses lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa de tomate.

Ele (6)

Nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias, entre as quais se destaca a intimidade com os números. Seu projeto de mestrado arrancou elogios de um renomado matemático búlgaro, o que me enche de orgulho, obviamente. Mas no dia a dia essa habilidade não me favorece. A mania de fazer comparações é, sem dúvida, a parte mais irritante. Uma vez, pedi sua opinião sobre um serviço de Internet móvel. Quando eu disse quanto custava por mês, ele, com aquela cara de quem recebe elogio de matemático búlgaro, me respondeu que a quantia equivalia à prestação de uma moto de 250 cilindradas. Tentei argumentar que eu não precisava de uma moto e sim de Internet – urgentemente! – mas nem assim ele me apoiou.

Outro dia, cansada, reclamei da minha viagem casa-trabalho-casa, que consome cerca de três horas do meu dia. Em vez de me consolar, me aninhar em seus braços e dizer que me ama apesar do meu rosto abatido e do meu mau-humor, ele, com ar de Rei da Bulgária, sugeriu que eu considerasse a possibilidade de morar na região dos lagos ou na região serrana, pois o tempo de deslocamento era o mesmo.

Mas o pior foi o dia em que vesti só pra ele o meu vestido novo. No lugar do elogio que eu tanto esperava, veio a pergunta: “quanto custou?”. Frustrada, e com vontade de torcer o pescoço do primeiro búlgaro que aparecesse na minha frente, ou até de um nepalês, desde que fosse matemático, me limitei a dizer que não havia sido caro. Ele insistiu para saber o preço; eu, por fim, respondi e ele concluiu: “realmente, o vestido não custou caro. As passagens de avião é que estão baratas”.

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Ele (4)

Gosto da linguagem corporal dele. Há elementos óbvios, o mais marcante é o peito sempre aberto, estufado, dando aquele ar de macho-alfa, cheio de atitude. Mas, o que amo mesmo são os detalhes… 

Ele tem um vício de postura, uma mania de se apoiar mais em uma perna que na outra. Gosto de reparar todas as vezes em que ele está assim porque a bunda, linda, ganha um contorno diferente. Quando ele está em pé, distraído, mexendo em peças, ajustando a câmera fotográfica, lavando a louça ou temperando o peixe, aproveito e fico uns bons minutos o observando de costas.

No mais, acho graça porque, com certa frequência, ele emenda dois movimentos: o de olhar no relógio de pulso e, em seguida, o de passar a mão na cabeça, começando pelas entradas. Como se o transcorrer das horas o lembrasse, a cada minuto, de que já não há mais muitos fios de cabelo a perder.

Ele (3)

Amo os detalhes. Um dos meus favoritos é o redemoinho no meio do peito. Exala um cheiro particular que me desperta todas as vezes em que ele aparece sem camisa na minha frente. Nunca resisto. Instintivamente… primitivamente… enlouquecidamente… quando dou por mim, estou com o nariz enfiado lá, fuçando feito bicho.

Ele (2)

Dos olhos eu sinto medo, porque dizem muito. Os olhos dele falam com tanta eloquência e clareza que, quando não quero ouvir certas verdades, fecho os meus.

Ele (1)

Gosto dos detalhes. Sou apaixonada pela pinta que ele tem do lado direito do rosto, perto da boca. Vivo um dilema por causa daquela pinta: a maior parte do tempo, ela fica encoberta pela barba que amo. Minha relação com a barba é quase um casamento. Mas todas as vezes que a barba sai e encontro a pinta, tenho vontade de beijá-la. E eu me sinto infiel por isso.

Ao urubu que pousou em minha janela

Há três dias um urubu pousou no parapeito da minha janela do trabalho. A janela estava fechada, eu não corria o risco de me ver, de repente, dividindo a sala com ele. Ainda assim, foi assustador observá-lo do outro lado do vidro, sobretudo no momento em que ele, brincando com a própria imagem refletida (e assim demonstrando que o universal mito de Narciso é extensivo ao mundo animal), abriu as asas e olhou fixamente para os próprios olhos, sem saber que eles encontravam os meus do outro lado. Ou talvez soubesse. 

Fiquei me perguntando se aquilo era um sinal. Concreta e racionalmente, não era. Mas insisti em acreditar que sim, que havia ali uma mensagem a ser interpretada. Inicialmente, só consegui pensar em uma única possibilidade: mau agouro. Não me condeno por essa visão negativa pois, se de fato somos o que comemos, eu tinha diante de mim um amontoado de carniça que veio voando se instalar ao lado da minha mesa de trabalho.

Como o bicho não dava sinais de que sairia dali tão cedo, confortável que estava no meu parapeito, e eu não podia simplesmente abandonar o posto, tentei pensar em algo que me acalmasse. Talvez o visitante estivesse em missão de paz, apesar de enlutado. De repente, entendi claramente o objetivo principal de sua presença: me fazer entender que tudo que devora coisas mortas, podres e carcomidas contribui de uma maneira muito contundente para a beleza da vida.

A constatação me fez sorrir. O urubu, que nada deixava escapar, resolveu me testar abrindo novamente suas enormes asas negras. Desta vez, não me apavorei. Entendi o gesto como um generoso convite para voar em suas asas. No entanto, para tornar a viagem possível, eu deveria abandonar meu excesso de peso e ele, se tornar mais forte. Assim, fizemos um pacto: eu lançaria ao meu amigo faminto o que de morto e podre houvesse em mim para que ele, gentilmente, a tudo devorasse.

O urubu então se empanturrou com um cardápio variado:  carnicentas mágoas, mal-cheirosos medos, putrefatas dores, podres preconceitos, estragados egoísmos e tantos ressentimentos em decomposição. Quanto mais eu alimentava o urubu, mais forte ele ficava e eu, mais leve. Assim, voávamos mais alto. Por fim, quando não restava em mim o que servisse de alimento para meu amigo, com receio de que perdêssemos altitude, comecei a desejar que outras mortes sustentassem nosso voo.

Então, desejei a morte de tudo que mata o sonho, entristece a existência, envenena a liberdade do espírito e impede o voo do pensamento. Roguei pela morte de tudo que impede a paz, o conhecimento, a arte, a beleza, a esperança, a fé na vida. Morte de tudo que destrói o afeto, morte da falta de cuidado e de respeito às diferenças, do que nos afasta da percepção da face divina do Outro. Desejei também a morte de tudo que nos desvia de nossa plenitude, do que nos faz embrenhar pelos descaminhos do conformismo e da mesmice. Morte!, gritei, aos sistemas injustos que matam pela falta de pão, de beleza e de oportunidade; que castigam a natureza e ofendem a dignidade humana.

Até que me dei conta de que não tivera tempo para despedidas e luto, nem me preparara para o mistério que agora se anunciava. O que havia restado de mim e do mundo que eu conheci um dia se, desde sempre, um e outro éramos feitos também daquilo que foi devorado pelo urubu? De repente, o desconhecido me pareceu infinitamente mais insuportável que a podridão, pois, de certa forma, havia me acostumado a ela.

E então, o sábio urubu, com jeito de profeta, me aconselhou: “filha, viva o novo e deixe que das coisas mortas cuidem os urubus”.

Em carne viva

Eu era uma ferida sempre aberta. Cicatrizar inchava e latejava tanto que por vezes me pareceu melhor permanecer em carne viva.

Quando o barro não se fez carne*

Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de trapo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.


* publicado aqui em 26/03/2009

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