Alma imoral

Hoje pela manhã pensei no livro A Alma Imoral, do Nilton Bonder, e desejei tê-lo trazido comigo. Agora, perambulando pelo Facebook, pra minha satisfação, tropecei neste fragmento:

‎”A evolução da espécie está no silêncio do pai que ergue a faca para matar um filho por ordem divina e a detém. Um silêncio que cada homem e cada mulher conhece em sua vida pessoal e coletiva. Um silêncio desafiador, que responde a um impulso interno de sagrada desobediência, uma desobediência que o homem sonha em integrar à paz, à paz que não se fará no estabelecimento de um mundo ideal para um corpo imutável, não se fará através do clone, mas através do mutante, porque o nosso ser é um ser em transformação, tem alma e não é uma alma boazinha como nos fizeram acreditar, mas uma alma profundamente imoral e isso não tem nada de satânico. É que transformaram Satã num espantalho que nos afasta das mudanças. Satã é tudo aquilo que nos embota os sentidos e que nos embota a consciência – é que é mais fácil e conveniente apresentar Satã como um possível resultado do risco do que o apresentar também como o pesadelo da acomodação. Se os que mudam radicalmente de emprego, se os que refazem relações amorosas, se os que perdem medos, se os que rompem, se os que traem, se os que abandonam os vícios experimentam a solidão é possível que essa solidão seja quebrada no encontro com outros que conheçam essas experiências. Haverá pior solidão do que a ausência de si?”

Pra mim, é tudo conversa (Moçambique, Diário de Bordo, parte 2)

Ontem fez três semanas que cheguei em Maputo. Há um aspecto que marca a diferença deste lugar em relação aos outros por onde andei este ano: aqui me dedico a conversar. Com os velhos conhecidos moçambicanos que me acolheram tão bem, com os amigos dos amigos, com seus familiares. Também com a amiga estrangeira de longa data que elegeu este país como lar, com os novos amigos brasileiros, com o empregado da casa onde vivo, com o taxista, com os vizinhos.

Cada um, um olhar, uma interpretação, uma experiência diferente. Os amigos sessentões, ex-revolucionários, me contam histórias daquela década de 1970, quando, aos vinte e poucos anos, sob a liderança de Samora Machel, tiveram a missão de construir um país. Eles dão números (que preciso confirmar no arquivo histórico nacional): em 1975, ano da Independência, numa população de 9 milhões de moçambicanos, apenas 34 tinham nível superior. Meus novos amigos estavam entre esses.

O meu conterrâneo, que conheci na semana passada, chegou em 1979. Economista, exilado da ditadura militar brasileira, veio realizar aqui o sonho que não foi possível na nossa terra de palmeiras e sabiás. Nunca mais voltou. Ele é um dos mais entusiasmados ao lembrar daqueles tempos difíceis: “vivemos durante vinte anos uma verdadeira economia de guerra, mas todo mundo se ajudava”.

A amiga moçambicana recebia leite em pó dos familiares exilados na Suíça para alimentar a filha, mas se refere àquele momento como “o paraíso”. Na mesa repleta de memórias, todos concordam que pertenceram a uma geração privilegiada, que pôde viver e construir tanto. Ali, lembram do comentário de um outro amigo brasileiro, também exilado, ex-prisioneiro político trocado por um daqueles embaixadores: “Não volto mais”, dizia ele. “Com praia, camarão, cerveja e revolução, de quê mais eu preciso?”. Curioso é que esse, sim, voltou. Hoje, faz parte do governo da Dilma.

O rumo da prosa muda totalmente quando converso com aquele senhor simples, pobre, que vive na periferia. Ele me diz que tempo bom era na época dos portugueses, quando todo mundo podia comprar e não precisava enfrentar as filas do abastecimento.  É super crítico em relação ao fato do Samora Machel ter morrido pobre. “Se todo mundo era pobre naquela época, o senhor gostaria que justo ele fosse rico?”, pergunto. “Ele era um guerrilheiro, matou pessoas. Deus não o aceitou no céu, lá é que ele não tem riqueza mesmo. Seria melhor que tivesse sido rico enquanto estava vivo”.

Há quem defenda o governo, há os que fazem questão de falar de sua indignação. Eu, confesso, por ora prefiro só escutar. Pra não ser leviana e não fazer o que critico na maioria dos viajantes que tenho conhecido: a facilidade para arrotar conceitos e verdades sobre a terra dos outros.

Por enquanto, vou aproveitando cada oportunidade de conversa. Cheguei à conclusão de que conversar é o que significa a minha vida. Viajo pra ouvir histórias diferentes. Faço amigos e namoro, no fim das contas, para conversar – a diferença entre uma relação e outra é o desejo. Quando casar, seguindo o conselho de Nietzsche, vai ser pelo mesmo motivo:

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Às vezes acho que acredito em Deus só pra ter com quem conversar mesmo quando estou sozinha em algum canto remoto do mundo e  sou ecumênica para poder dar papo não só pra Cristo, mas também pra Alá, pra Buda, pra Brama, Visnu e Shiva.

Enfim, vou parar com a conversa fiada agora que ainda tenho muitas histórias para ouvir.

Diário de Bordo – Moçambique

Meio sonolenta ainda, vi que a Internet não estava funcionando. Fui para a cozinha fazer o café e a luz não acendia. Pensando que precisaria chamar o senhor Jaime pra consertar o defeito do interruptor, abri a torneira e, pra minha surpresa, não havia água. Primeira conclusão de quem ainda não acordou direito: estão me sacaneando. Segunda, mais sensata: problemas no fornecimento de energia. A vizinha confirma: “estamos sem luz desde às quatro da manhã, por isso também não tem água”.

Como aqui em Maputo falta de água, de luz ou as duas coisas não é exatamente uma novidade, a casa estava preparada: o empregado, senhor Zimba, havia deixado vários galões de água debaixo da pia do banheiro e no armário da cozinha. Preparei então meu banho de balde – frio, porque o meu fogão é elétrico e eu precisei pedir à vizinha para fazer o café lá.

Fiquei pensando que, neste ano, passei pelo menos quatro meses tomando banho frio ou de balde, ou os dois ao mesmo tempo. Quer saber? Faz tempo que não estranho mais.

***

Leitura durante o mata-bicho (ops! café-da-manhã): O outro pé da sereia, do Mia Couto.

“… esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós”.

***

Como a Lei de Murphy prevalece mesmo na África, a luz e, consequentemente, a água e a Internet voltaram logo depois do meu banho frio de balde. Agora, vou sair para fotografar. Faz um sol bonito nesta manhã de sábado e vou aproveitar para ir ao Mercado Municipal, depois almoçar na Costa do Sol e, por fim, dar um pulo no museu. Espero que o dia me renda alegrias e resultados visuais satisfatórios.

Pessoa na alma, Pessoa na mala

“Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem ‘estado de alma’ nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim”

Alberto Caeiro

Preparando as malas para mais uma viagem. Na bagagem, poucos livros, porque a vida de caminhante exige desapegos. Que bom que a poesia de Fernando Pessoa me faz companhia…

Um pouco de Clarice no frio outono do hemisfério norte

Como diria Kafka, tem dias em que tudo que não é literatura me aborrece. Hoje, me deleito com a releitura de Clarice:

“─ Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança, só agora viva, do que nós dois já vivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? (…) Não tenhas medo agora, está a salvo porque pelo menos já aconteceu, a menos que vejas perigo em saber o que aconteceu.

É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e, a esse não acontecer nada, chamávamos de intervalo. Mas como era esse intervalo?
Era a enorme flor se abrindo, tudo inchado de si mesmo, minha visão toda grande e trêmula. O que eu olhava, logo se coagulava ao meu olhar e se tornava meu ─ mas não um coágulo permanente: se eu o apertasse nas mãos, como a um pedaço de sangue coagulado, a solidificação se liquefazia de novo em sangue por entre os dedos.
E só não era o tempo todo líquido porque, para eu poder colher as coisas com as mãos, as coisas tinham que se coagular como frutas. Nos intervalos que nós chamávamos de vazios e tranqüilos, e quando pensávamos que o amor parara…
(…)
Nesses intervalos nós pensávamos que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois”.

Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH

Enjoy the silence

“Educar-se para o silêncio equivale a educar-se para o mistério. Há um silêncio de urgência, como quando dizem tranquilize-se, não fique nervoso, respire fundo; esse é um silêncio ingênuo, quase de brincadeira. Mas existe um silêncio substancial, de luxo, é o que nos permite regressar a casa. Fixemo-nos, sobretudo nesse último, silêncio interior, silêncio de qualidade que aparece como espaço não manipulado onde tudo volta a ser originário. O espaço no qual aparece o risco mais belo e temível, sentir-se diante do desconhecido, ficar desestruturado, pobre, sem as referências habituais. Vejamos seu processo: primeiro, silêncios menores.

Existem silêncios menores, são como exercícios de aquecimento antes da consecução do silêncio que buscamos; muitos não passam daqui, provocam uma espécie de silêncio pausa, evocam o descansar um pouco, a pausa interrompe a continuidade compulsiva com a qual vivemos e proporciona a oportunidade de uma mudança de direção. Há pausas no espaço: um lugar no bosque, um rochedo no mar, a cela de um mosteiro solitário. Existem pausas no tempo: quem procura viver num dado momento sem pressas ou urgências; esses silêncios menores no espaço ou no tempo já são de algum modo espaços desprogramados. Quem deseja adentrar na profundidade do silêncio a que falávamos antes, tem de embrenhar-se frequentemente nestes como quem treina seus olhos para ver a escuridão.

Esses silêncios menores já costumam começar a produzir sensações estranhas. É porque não estamos habituados à desprogramação. Ao olhar uma árvore sem interpretá-la, a beber a água sem julgá-la, não estamos acostumados a alguma coisa sem mais, simplesmente.

Não estamos acostumados às pausas e a esses pequenos preâmbulos e é tão importante deter-se sem fazer nada, mas muito atentos ao que ocorre quando nada ocorre.

[...]

O silêncio contemplativo é impensável, quando se é incapaz desses silêncios menores, carregados dessas contemplações menores, como olhar uma folha caída de uma árvore, uma formiga que trabalha, a longínqua linha de um caminho, o correr de um regato. Todos esses silêncios menores são parte de um necessário caminho para chegar um dia a ouvir a solidão sonora, a música silenciosa que vibra pura e forte dentro de cada um”…

Nicolas Cabalero, citado por Gilberto Safra em “Desvelando a memória do humano”.

Camus

“Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples demais. Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida”.

Albert Camus, O mito de Sísifo – Ensaio sobre o absurdo

Minha alma em flor

…”e vimos uma margarida e nem sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados.”

Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado

Frase do dia

“Eu estou impressionado com a urgência de fazer. Saber não é o suficiente, nós precisamos aplicar o que sabemos. Ter vontade não é o suficiente, nós precisamos fazer.”

Leonardo Da Vinci

Conversas de sábado à noite

Em homenagem ao papo nietzschiano…

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 68 other followers