Falamos a mesma língua pero no mucho (Diário de Bordo, Moçambique, parte 3)

“É preciso matar a tribo para nascer a nação”, dizia o Samora Machel. A Zita me conta que, na época em que ele governou Moçambique, ninguém falava línguas locais em repartições públicas, havia toda uma construção em torno da identidade nacional e da unidade linguística. Hoje, ela acha tudo muito mudado. Diz que é comum, mesmo nas instituições do governo em Maputo, os funcionários conversarem entre si em Ronga ou Changana, as línguas locais faladas aqui no sul do país. As crianças das zonas rurais, ela conta, onde vive a maioria da população, só falam o português (quando falam) na escola. Em casa, na rua, prevalecem as línguas locais. O Chico já não tem certeza se é bem assim, diz que é preciso pesquisar melhor e checar essas informações.

O Changana é mais falado em Maputo. Nem preciso dizer que não distingo uma coisa da outra, mas sei que, sim, é muito comum, mesmo aqui nas ruas da capital, as pessoas conversarem em outra língua que não o português. Parece que, desde aqueles já distantes anos de discursos do Samora Machel em praça pública, e depois de anos de guerra civil, a tribo reencarnou. Não tenho condições de avaliar qual o impacto disto na vida da nação…

***

No sábado à noite, marquei de sair com a Dorien, a holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa e há um ano e meio mora em Maputo. Ela havia combinado com uns amigos de sair pra dançar na Rua Darte, mas antes nos encontraríamos todos em seu apartamento, para bebermos algo e conversarmos um pouco.

Dorien divide um apartamento com duas amigas moçambicanas. Assim que cheguei, vi que falam em inglês entre si. A Dorien fala português bem. Também entende bem. Quando criança, viveu seis anos em Moçambique, depois morou no Brasil e, agora, está por aqui outra vez, trabalhando para uma ONG americana. Eu só converso com ela em inglês quando seus amigos holandeses ou seus pais, que conheci no Brasil e depois encontrei algumas vezes na Holanda, estão por perto. Ainda assim, achei que a escolha do idioma oficial da casa se devia ao fato de ali morar uma holandesa que, bem verdade, apesar do bom português, fala inglês muito melhor.

De repente, a Dorien saiu de perto e as duas moçambicanas continuavam a falar em inglês entre si. Passados uns instantes, comentei que poderíamos voltar a falar a NOSSA língua portuguesa (convinha lembrar, caso elas tivessem esquecido, que eu era brasileira). Foi então que percebi que esse papo de nossa língua não é bem assim… “Morei muitos anos em Nova York e depois em Londres, me sinto mais confortável falando em inglês”, comenta a filha de embaixador. A outra, metade moçambicana, metade belga-congolesa, concordou que também se sentia mais confortável com o inglês.

Logo, outros se juntaram à nós. A primeira a foi uma mocinha mulata que já chegou falando em inglês. Alguns minutos depois descobri que ela também era moçambicana. “E por que você está falando inglês?”, perguntei. “É que meu pai é italiano”, prontamente me respondeu. “E a sua mãe?”, quis saber mais. “É moçambicana, mas só falamos italiano em casa”. Ah… mas então o que o inglês tem a ver com isso?, era a minha questão. Então ela me explicou que também havia estudado em inglês.

Por fim chegaram mais três rapazes, falando em inglês, pra variar. Eu arrisquei palpites: “ok, o branco talvez seja italiano, os dois negros devem ser sulafricanos”. Que nada. Eram todos moçambicanos. As explicações eram sempre as mesmas. Todos haviam morado fora e estudado em inglês.

Eu já sabia que era comum jovens moçambicanos das classes mais favorecidas estudarem nos vizinhos África do Sul e Suazilândia. Mas essa de que não falavam português no próprio país era novidade.

Por fim, o Jorge, primo da Yara, minha amiga moçambicana que foi minha amiga de faculdade, me ligou e, por sugestão das próprias anfitriãs, pedi que ele me encontrasse lá antes de irmos para a Rua Darte. Ele chegou, cumprimentou a todos, se apresentou. Nós nos falamos rapidamente, eu deixei ele conversando com o pessoal e fui para a cozinha buscar um copo d’água. Quando voltei, ele estava fazendo para todos os presentes a mesma pergunta que eu havia feito pouco antes. “Afinal, por que vocês falam em inglês entre si?”. Adiantei a resposta: “é que eles moraram fora e estudaram em inglês”. E o Jorge: “e daí? Eu também! Estudei a vida inteira na África do Sul e fiz faculdade lá, mas no meu país eu falo português!”

“Qual é a explicação, então”, perguntei. O Jorge, que tem 36 anos, não teve dúvida: “é essa geração antes da minha, que anda na casa dos 26, 27″. De fato, era a média de idade ali.

Pra mim, aquela era uma verdadeira tribo. E dessas que eu nunca vou entender mesmo. Definitivamente, não falamos a mesma língua.

Sobre saudades, arte, doçura e tempestades

No sábado, quando voltei pra casa, soube que Sérgio Britto e Joãosinho Trinta haviam morrido.

Engraçado que pensei no Joãosinho Trinta enquanto escrevia o post anterior. Ele, que foi o autor da máxima “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo”. Pensei que talvez a teoria dele explique a diferença de visão dos moçambicanos com quem conversei sobre a revolução. De um lado, os intelectuais, ex-revolucionários entusiastas. De outro, o povo que assistiu a tudo bestializado e avalia o que é bom ou mau governo a partir do acesso à comida. “Quem tem fome tem pressa”…

***

Entrevistei o Sérgio Britto em 2002. Na época, ele encenava, ao lado da Cleide Yaconis, Uma longa jornada de um dia noite adentro, do Eugene O’Neill, o dramaturgo estadunidense fonte de inspiração para Nelson Rodrigues (tive o prazer de assistir à peça, logo depois da entrevista, e permanece como uma das mais marcantes da minha vida).

Em uma hora de conversa, ele não apenas falou do espetáculo em cartaz, mas também sobre o seu programa, o Arte com Sérgio Britto. Lembro que o comentário sobre o público telespectador foi contundente. Segundo ele, pessoas pobres, com o nível educacional baixo, o cumprimentavam na rua e elogiavam o programa. “Esses se emocionam de verdade com o que digo. O que mata no Brasil é essa burguesia burra e massificada”.

Tenho ressalvas em relação à tal mania de luxo dos desfavorecidos (apesar de que não vejo glamour na pobreza. Talvez me falte um mestrado e um doutorado para virar intelectual; talvez eu seja classe média demais e, por isso, afeita ao meio-termo). Mas confesso que acho interessante essa ideia de que é pobre quem se emociona de verdade com arte…

***

Já era noite aqui quando recebi a notícia de que a cantora caboverdiana Cesária Évora completou a festa de sábado no céu. Deixo aqui a minha homenagem e aproveito para compartilhar esta linda interpretação de É doce morrer no mar.

***
Em tempo: essa saudade que os três deixam é muito diferente da tristeza por conta da tragédia nas Filipinas. Definitivamente, não é doce morrer na tempestade.

Pra mim, é tudo conversa (Moçambique, Diário de Bordo, parte 2)

Ontem fez três semanas que cheguei em Maputo. Há um aspecto que marca a diferença deste lugar em relação aos outros por onde andei este ano: aqui me dedico a conversar. Com os velhos conhecidos moçambicanos que me acolheram tão bem, com os amigos dos amigos, com seus familiares. Também com a amiga estrangeira de longa data que elegeu este país como lar, com os novos amigos brasileiros, com o empregado da casa onde vivo, com o taxista, com os vizinhos.

Cada um, um olhar, uma interpretação, uma experiência diferente. Os amigos sessentões, ex-revolucionários, me contam histórias daquela década de 1970, quando, aos vinte e poucos anos, sob a liderança de Samora Machel, tiveram a missão de construir um país. Eles dão números (que preciso confirmar no arquivo histórico nacional): em 1975, ano da Independência, numa população de 9 milhões de moçambicanos, apenas 34 tinham nível superior. Meus novos amigos estavam entre esses.

O meu conterrâneo, que conheci na semana passada, chegou em 1979. Economista, exilado da ditadura militar brasileira, veio realizar aqui o sonho que não foi possível na nossa terra de palmeiras e sabiás. Nunca mais voltou. Ele é um dos mais entusiasmados ao lembrar daqueles tempos difíceis: “vivemos durante vinte anos uma verdadeira economia de guerra, mas todo mundo se ajudava”.

A amiga moçambicana recebia leite em pó dos familiares exilados na Suíça para alimentar a filha, mas se refere àquele momento como “o paraíso”. Na mesa repleta de memórias, todos concordam que pertenceram a uma geração privilegiada, que pôde viver e construir tanto. Ali, lembram do comentário de um outro amigo brasileiro, também exilado, ex-prisioneiro político trocado por um daqueles embaixadores: “Não volto mais”, dizia ele. “Com praia, camarão, cerveja e revolução, de quê mais eu preciso?”. Curioso é que esse, sim, voltou. Hoje, faz parte do governo da Dilma.

O rumo da prosa muda totalmente quando converso com aquele senhor simples, pobre, que vive na periferia. Ele me diz que tempo bom era na época dos portugueses, quando todo mundo podia comprar e não precisava enfrentar as filas do abastecimento.  É super crítico em relação ao fato do Samora Machel ter morrido pobre. “Se todo mundo era pobre naquela época, o senhor gostaria que justo ele fosse rico?”, pergunto. “Ele era um guerrilheiro, matou pessoas. Deus não o aceitou no céu, lá é que ele não tem riqueza mesmo. Seria melhor que tivesse sido rico enquanto estava vivo”.

Há quem defenda o governo, há os que fazem questão de falar de sua indignação. Eu, confesso, por ora prefiro só escutar. Pra não ser leviana e não fazer o que critico na maioria dos viajantes que tenho conhecido: a facilidade para arrotar conceitos e verdades sobre a terra dos outros.

Por enquanto, vou aproveitando cada oportunidade de conversa. Cheguei à conclusão de que conversar é o que significa a minha vida. Viajo pra ouvir histórias diferentes. Faço amigos e namoro, no fim das contas, para conversar – a diferença entre uma relação e outra é o desejo. Quando casar, seguindo o conselho de Nietzsche, vai ser pelo mesmo motivo:

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Às vezes acho que acredito em Deus só pra ter com quem conversar mesmo quando estou sozinha em algum canto remoto do mundo e  sou ecumênica para poder dar papo não só pra Cristo, mas também pra Alá, pra Buda, pra Brama, Visnu e Shiva.

Enfim, vou parar com a conversa fiada agora que ainda tenho muitas histórias para ouvir.

Diário de Bordo – Moçambique

Meio sonolenta ainda, vi que a Internet não estava funcionando. Fui para a cozinha fazer o café e a luz não acendia. Pensando que precisaria chamar o senhor Jaime pra consertar o defeito do interruptor, abri a torneira e, pra minha surpresa, não havia água. Primeira conclusão de quem ainda não acordou direito: estão me sacaneando. Segunda, mais sensata: problemas no fornecimento de energia. A vizinha confirma: “estamos sem luz desde às quatro da manhã, por isso também não tem água”.

Como aqui em Maputo falta de água, de luz ou as duas coisas não é exatamente uma novidade, a casa estava preparada: o empregado, senhor Zimba, havia deixado vários galões de água debaixo da pia do banheiro e no armário da cozinha. Preparei então meu banho de balde – frio, porque o meu fogão é elétrico e eu precisei pedir à vizinha para fazer o café lá.

Fiquei pensando que, neste ano, passei pelo menos quatro meses tomando banho frio ou de balde, ou os dois ao mesmo tempo. Quer saber? Faz tempo que não estranho mais.

***

Leitura durante o mata-bicho (ops! café-da-manhã): O outro pé da sereia, do Mia Couto.

“… esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós”.

***

Como a Lei de Murphy prevalece mesmo na África, a luz e, consequentemente, a água e a Internet voltaram logo depois do meu banho frio de balde. Agora, vou sair para fotografar. Faz um sol bonito nesta manhã de sábado e vou aproveitar para ir ao Mercado Municipal, depois almoçar na Costa do Sol e, por fim, dar um pulo no museu. Espero que o dia me renda alegrias e resultados visuais satisfatórios.

Pessoa na alma, Pessoa na mala

“Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem ‘estado de alma’ nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim”

Alberto Caeiro

Preparando as malas para mais uma viagem. Na bagagem, poucos livros, porque a vida de caminhante exige desapegos. Que bom que a poesia de Fernando Pessoa me faz companhia…

Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Quando vocês estiveram lá, se tiverem a oportunidade de visitar um desses lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa de tomate.

Dharamsala vai deixar saudade

Hoje, em meu ultimo dia em Dharamsala, eh a primeira vez, desde o inicio desta viagem, que sinto uma certa tristeza por deixar um lugar. Nem quando fui embora do ashram me senti assim. Como contei no post anterior, meu objetivo aqui era assistir os ensinamentos do Dalai Lama nos dias 28 e 29 de junho, mas a experiencia das ultimas duas semanas foi muito mais intensa.

Nao da para vir para Dharamsala e nao falar do Tibet. Sempre fui solidaria a causa tibetana, mas ter notícias de um país remoto pela televisao eh muito diferente de compartilhar estas ruas estreitas com uma horda de exilados (identificaveis pelas roupas, pela lingua e pelas feicoes, totalmente diferentes das dos indianos). Entre eles, ha muitos monges e me esbarro em varios quando nos esprememos nas ladeiras estreitas, entre um pedacinho de asfalto irregular e a ribanceira, para dar passagem para os carros que vem buzinando alucinadamente logo atras. Todas as vezes que comeco a perder a paciencia, olho para um deles e, de repente, a minha irritacao parece sem sentido…

Em quase todos os cafes, lojas de celulares, de roupas ou de fotografia, restaurantes ou livrarias, ha uma foto do Dalai Lama. Ha cartazes em cada esquina pedindo a libertacao do Tibet e dos presos politicos, inclusive do Panchen Lama, a segunda figura religiosa mais importante da tradicao tibetana, que foi sequestrado em 1995, ainda crianca – o que fez dele o preso politico mais jovem do mundo – e substituido por um monge escolhido pelas autoridades chinesas.

Acabo de voltar do cinema (na verdade uma sala com um aparelho de DVD e um projetor, pelicula seria luxo demais) que fica a poucos metros do que considerei a minha casa nas duas ultimas semanas. Assisti “Kundun”, o filme do Scorsese que conta a vida do Dalai Lama. Nesses 12 dias de “imersao” aqui, assisti, no mesmo cinema, “Sete anos no Tibet” e participei de um evento, com exibicao de documentarios regada a pizza tibetana, em uma ONG que promove curso de ingles para os exilados – contando com o trabalho voluntario dos estrangeiros de passagem por aqui – e organiza encontros e palestras de ex-presos politicos. “Freedom in Exile”, a autobiografia do Dalai Lama, foi a leitura obrigatoria das minhas manhas enquanto tomava meu cha, na varanda do meu quarto, depois da meditacao e antes da minha pratica de yoga diaria. Nos cafes, entre um Masala Chai e outro, conversei com refugiados e ouvi o depoimento de monges que participaram dos protestos de 2008, por ocasiao dos Jogos Olimpicos de Pequim, e passaram um ano fugindo da policia chinesa que, na epoca, adotou a pratica de nunca matar os manifestantes: segundo os relatos, os tibetanos envolvidos eram presos, torturados, aleijados e, entao, enviados de volta para casa, para que servissem de exemplo.

Apesar de tudo, curiosamente nao sinto um clima pesado aqui. O Dalai Lama, como bom budista, nunca incitou o odio contra os chineses; prega o amor e fala da importancia dos inimigos para desenvolvermos nossa paciencia e compaixao. Ao perguntar a um tibetano como ele se sentia em relacao a isso, ouvi uma resposta muito humana: “Sua Santidade fala como religioso, mas nao diria que todos os tibetanos pensam da mesma maneira”. Ainda assim, vale dizer que, na maioria das vezes, as palavras de protesto vem junto com a docura no olhar e a suavidade na voz.

O tao esperado encontro com o Dalai Lama aconteceu no templo principal de Dharamsala. Em dois dias ele deu uma aula de budismo para as quase 5 mil pessoas presentes. Engracado que coisas que eu havia lido ha alguns meses sem entender muito bem agora fizeram todo o sentido. Mas o teor da aula eu conto depois. Parto daqui a duas horas e antes quero me despedir do Phillip, um dos meus companheiros de viagem, que nao seguira com o grupo para Manali, nossa proxima parada.

Na casa do Dalai Lama

Cheguei em Dharamsala ontem as 8h30 da manha depois de 16 horas de viagem Himalaya acima sacolejando em um onibus velho (Confesso, esta aventura faz com que eu me sinta em um filme, as vezes). Agora estou em McLeod Ganj, a parte alta de Dharamsala. A altitude eh 1.800 metros, mas nao sinto qualquer desconforto, pelo contrario, pois tudo eh mais calmo, mais silencioso, mais limpo. Aqui fica a residencia do Dalai Lama e a sede do Governo Tibetano no exilio. Esta eh a regiao na India onde ha a maior concentracao de refugiados tibetanos e eh comum andar pelas ruas e ver monges com os tipicos trajes do Tibet. Ha diversos restaurantes e cafes que oferecem comida tibetana. Nas livrarias ha uma enorme variedade de titulos relacionados ao budismo e ao taoismo.

Duas vezes por ano o Dalai Lama faz um discurso publico em Dharamsala e, pra minha sorte, o proximo vai acontecer nos dias 28 e 29 de junho. Descobri isso quando ainda estava no ashram e nao quis perder esta oportunidade unica. Este foi o principal motivo que me trouxe ateh aqui, embora, agora vejo, haja muito mais para se fazer e experimentar neste lado de cá.

Os dias que passei em Rishikesh foram um pouco estranhos. Inicialmente foi uma alegria so, pois, das 30 pessoas que fizeram o curso comigo no ashram, 22 foram para Riskikesh e quase todas se hospedaram no mesmo lugar. Foi muito bacana sair pra comer com o pessoal, visitar templos, meditar juntos e praticar yoga. Como todos agora somos professores de yoga, cada dia um foi voluntario para dar aula pros outros. Mas, aos poucos, cada um foi seguindo seu rumo. Todo dia era dia de dizer adeus. Muitos voltaram pra casa, outros vao continuar viajando por meses ainda, estao agora na Indonesia ou na Tailandia.

A parte nao tao prazerosa da estada em Rishikesh eh que se trata de uma cidade muito turistica e isso, normalmente, jah eh motivo suficiente para me incomodar um pouco. Dessa vez houve um agravante: eu cheguei na India e fui direto para o Ashram, onde fiquei um mes. O Ashram eh o melhor lugar para se ter contato com a India ancestral, com a tradicao espiritual e a filosofia hindu, mas eh tambem uma especie de bolha. Em Rishikesh eu vivenciei o clima das ruas imundas, a mistura de sons, as buzinas agoniantes e de todos os tipos, a musica alta, os comerciantes vendendo suas mercadorias, o transito caotico, o esgoto a ceu aberto ao lado das barracas de frutas e verduras… Foi muito contrastante e isso afetou um pouco meu humor. Nao que eu nao esperasse por isso, tampouco eh a primeira vez que vejo algo assim (o Egito nao eh tao diferente, embora a India, por ser superpopulosa, provoque um impacto ainda maior). Para completar, la pela terceira noite eu passei mal por causa da comida e meu estomago sofreu bastante nos dias seguintes. Na verdade todos os viajantes que conheci ateh agora, inclusive o pessoal do Ashram, passaram mal em algum momento e sofreram de “Delhi Belly”, como aqui se costuma dizer. Todos estao de acordo em um aspecto: daqui a pouco o organismo acostuma e vou me sentir melhor. De qualquer forma, eh sempre bom ver um medico. Apesar de jah me sentir bem, vou procurar um aqui, fazer exames, etc.

Comigo aqui em McLeod Ganj estao duas pessoas do ahram, a Yiti, uma menina de Taiwan, e o Richard, um libanes que vive nos Estados Unidos desde crianca e tem uma historia de vida pra la de interessante. Hoje a noite chega o Philip, um austriaco. Eh bom viajar em grupo, tudo fica mais bacana e ainda mais barato. Alias, matando a curiosidade de alguns em relacao ao meu budget, meu custo medio com hospedagem aqui em McLeod eh 1,50 euros e, contando com alimentacao, gasto de 5 a 10 euros por dia. Em Rishikesh estive em quartos mais simples e outros melhores, o custo variou de 3 a 7 euros para hospedagem e 10 euros por dia com alimentacao. Quase nao gasto dinheiro fazendo compras porque esse nunca foi meu estilo mesmo, nao curto acumular tranqueira e fico feliz por manter minha mochila relativamente leve. Mas o pessoal adora sair barganhando pelas ruas, chega a ser engracado pra mim porque sou o oposto disso. Ateh agora minhas compras se resumiram a uma calca, uma bata e a autobiografia do Dalai Lama.

Bem, por ora me despeco. Espero que estas palavras encontrem todos bem e felizes.

E assim anda a vida no Himalaya (ou Carta aos amigos parte 2)

Queridos, infelizmente preciso ser breve, vou tentar resumir o que aconteceu nos ultimos 15 dias. O corpo, como era de se esperar, agora jah esta respondendo muito melhor. A pratica de yoga ficou mais intensa. Na aula de assanas da manha estamos divididos em grupos e cada dia um da aula e os outros sao cobaias. Dei aula ha 3 dias e amanha eh minha vez de novo.

Todos os dias, as 13h, temos um treinamento personalizado, para melhorar as posturas mais avancadas. Sao 30 minutos apenas, depois do estudo da Baghavad Gita e antes do Chai. A aula da tarde eh a pratica avancada e tem sido maravilhoso ver todo mundo evoluindo tanto.

A melhor surpresa para mim tem sido as aulas de Vedanta e o estudo da Baghavad Gita. Por vezes me emociono por constatar que os mestres da humanidade, os fundadores das religioes, falavam as mesmas coisas. Essa imersao no hinduismo faz com que eu me questione o tempo inteiro por que ha guerra e discordia em nome das religioes. Nao faz o menor sentido…

Nessas aulas teoricas faco analogias o tempo inteiro. A teoria de Maya eh o mito da Caverna de Platao; aqui e ali vejo vestigios do pensamento de Nietzsche, de Jung, por ai vai.

Sobre os companheiros de curso, agora parecemos uma familia. Estamos compartilhando muita coisa e na verdade a unica parte triste da historia eh que tudo vai acabar em 10 dias. Isso tem nos feito escapar todos os dias depois do jantar para tomar um chai no povoado, socializar e comer uns chocolates – porque ninguem eh de ferro! Como algumas pessoas vao continuar viajando, como eu, ja estamos nos organizando para seguirmos juntos em grupos menores. Minha proxima parada sera Rishkesh por uns dias e depois Dharamsala, terra do Dalai Lama. Mas isso eu conto depois.

Beijo grande em todos, sigo enviando oracoes, paz, amor e pensamentos positivos.

Carta aos amigos ou primeiras impressoes da India

Om Namah Sivaya!

Queridos, aqui seguem as noticias diretamente do Himalaya. A viagem ate aqui foi bem cansativa, mas correu tudo bem. Cheguei em Delhi as 9h30 e ao meio dia peguei meu onibus para Rishkesh. Foram 8 horas de viagem em um onibus comum, sem ar-condicionado e parador – ou seja, primeiro dia com muita emocao! Os indianos dirigem feito doidos, andam na contra-mao o tempo inteiro e buzinam sem parar. Fazia muito calor e eu era a unica estrangeira no onibus; mas logo um indianinho de seus 22 anos puxou papo comigo e me ajudou a viagem inteira, me emprestou o celular para ligar para o taxista e para o local onde me hospedei em Rishkesh, uma cidade que ficou bem famosa depois que o George Harison a visitou na decada de 1960. Nao comi nada a viagem inteira, so bebi agua (a experiencia no Egito me ensinou bastante, entao preferi evitar a comida vendida na rua). A noite, ja em Rishkesh, jantei massa com molho de tomate, nao quis arriscar nada entao. Funcionou. Nao passei mal e, na verdade, me sinto otima.

No dia seguinte, as 8 da manha peguei um taxi ate o ashram (dividi com uma australiana que estava indo para la tambem). Foram mais 6 horas de viagem. Fora o cansaco, tudo correu bem.

O ashram eh lindo, super limpo, e a comida eh maravilhosa (eu tenho vontade de abracar a equipe da cozinha, mas nao podemos ter manifestacoes publicas de afeto. hehehe). Somos cerca de 30 pessoas de varias partes do mundo: EUA, Canada, Brasil (tem uma mineirinha muito fofa fazendo curso comigo!), Austria, Alemanha, Inglaterra, Irlanda, Espanha, Dinamarca, Africa do Sul, Corea, Taiwan, Filipinas, Japao, Libano, Australia… e India, claro. Estou em um dormitorio com duas canadenses e uma australiana. Sao muito fofas. De certa forma me lembra muito a ‘epoca do kibbutz, em Israel, so que em ambiente e uma atmosfera bem particulares. O clima do lugar eh muito impressionante. O ashram fica as margens do Ganges e eu durmo, como diria o Sidharta de Herman Hesse, ouvindo a voz do rio. Aqui no Himalaya o rio eh muito limpo, eh agua glacial e vem direto das montanhas. Jah mergulhei algumas vezes (brrrrrr).

A agenda eh muito intensa e isso me faz ter a sensacao de que se passaram meses. Acordamos as 5h20 da manha, as 6h temos o primeiro Satsang do dia que consiste em: 30m de meditacao, 30 m cantando mantras, mais 30m de conversa sobre algum texto. Depois eh a hora do cha (chai) e em seguida, as 8 da manha, temos a primeira aula de yoga do dia. Eh uma aula tecnica, para aprendermos a dar aula, tem 1h45m de duracao. As 10h almocamos. Pra mim tambem eh a hora do Karma Yoga, que significa fazer algum servico sem intencao de retorno pessoal (os catolicos chamam de oblacao). Minha tarefa eh servir a primeira refeicao do dia (fiquei me perguntando se me escolheram para tarefa depois de me observarem comendo, pois eu sempre como muito com muuuita vontade, pois tudo eh simplesmente delicioso e na medida pro meu paladar. Nada apimentado, como costuma ser a comida indiana, e tudo muuuito saudavel). Ao meio-dia temos a aula de mantras, em que estudamos o significado das palavras em sanscrito. 13h30 eh a hora do Chai outra vez e as 14h temos a aula principal, de filosofia (e temos que entregar, todos os dias, um resumo da aula anterior). As 16h temos a segunda aula de yoga, tambem com 1h45 min, mas esta eh para a nos mesmos, nossa pratica. As 18h o jantar eh servido e por fim, as 20h da noite, temos o segundo Satsang. Temos 4 livros basicos pra ler, entao, no tempo que temos entre as atividades estamos lendo, escrevendo ou conversando. A gente conversa muito, apesar do pouco tempo. Sao muitas pessoas de paises distintos compartilhando uma experiencia unica em um lugar maravilhoso, entao sempre tem muito assunto interessante (muito embora sempre nos recomendem praticar o silencio, pois perdemos muita energia falando. hehehehe).

Nesta primeira semana o corpo sentiu muito, mas agora jah estou melhor. Sao muitas horas sentada de pernas cruzadas tentando manter a coluna ereta. Doi muito depois de um tempo, mas agora o corpo comeca a acostumar. Sempre acostuma… Bem, nao sei se enviarei noticias tao cedo, so tenho um dia off na semana e na proxima sexta devo ir prum lugar muito bacana com o pessoal do ashram.

No mais, sempre mando energia positiva pra voces. Espero que tenham sentido.  Beijos

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 68 other followers