E-mail do papai

Enviado no sábado, dia 2 de maio.

Gi,
cadê você?
Já lhe telefonei…Já deixei mensagens no seus celulares
e você nada literalmente(pra não dizer outra coisa)(rsrsrs).
 
Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a
filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno
da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia
da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da
catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário
de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?…
Pois é, já estou bastante imunizado(rsrs) e você bastante adulta
para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha?
 
Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para
que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer
no momento.
 
Estou, daqui a pouco, indo para Rio Preto esperando que por aqui
as coisas fiquem menos pretas(rsrsrs).
Meus telefones de contato:8281-1497 e 7633-0095
 
Um beijo do pai, Artur.

“Gi,

cadê você?

Já lhe telefonei, já deixei mensagens no seus celulares e você nada literalmente (pra não dizer outra coisa). Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?

Pois é, já estou bastante imunizado e você bastante adulta para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha? Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer no momento.

Um beijo do pai,  Artur”

And I feel fine…

Eu até que tive a oportunidade de ir ao Planeta Terra com a Flavinha, que ganhou dois convites como recompensa pela atitude, mas, Offspring, Block Party e Kaiser Chiefs me perdoem, o R.E.M. ocupava um lugar maior no meu coração e na minha playlist.

Michael Stipe merece muito o meu respeito. Educado e carismático, ele é pura presença, sem afetações de roqueiro velho. Mandou ver no bailado jeitoso, desceu pra cantar no meio da galera e deu uma bitoca singela no companheiro de banda. O show não contou com pirotecnias hightech, seguiu a linha simples e o brilho ficou mesmo por conta de Stipe, Peter Buker e Mike Mills, que fizeram bonito. 

O repertório perfeito combinou músicas do novo álbum “Accelerate”, lançado em março de 2008 (destaque para Hollow Man), uma seleção caprichada dos antigos, com direito a IgnorelandImitation of Life,Orange CrushEverybody HurtsMan on the Moon (que fechou o show) e obviedades como The one I loveLoosing my Religion e It’s the end of the world as we know it - que se confirma como o sucesso menos cantado de todos os tempos (sei de cor metade da primeira estrofe e 1/3 da segunda e já me considero quase uma lenda viva por isso). Mas o refrão estava na ponta da língua da galera, que interagiu bonito respondendo com um alto e bom “fine!” como resposta ao “And I feel…” de Stipe.

O vocalista foi aclamado quando tocou no assunto mais falado da semana e manifestou seu contentamento com a eleição de Obama, que ganhou imagens no telão com legendas tipo “Barak ‘n Roll” (no show em Santiago, no dia da eleição, também rolou rasgação de seda). 

Foi engraçado ver a “garotada” na casa dos 40 tão emocionada quanto os fãs de vinte e poucos (e eu posso jurar que vi gente que não passava de 19). Sem tribos identificáveis, as camisetas com o nome da banda eram o máximo de label que os cariocas apresentaram. Uma gente da paz que completou o clima bom na HSBC Arena, que eu não conhecia, mas me surpreendeu como opção de local para shows.


Man on the moon fechou o show

Quem diria digo eu

Apesar da minha tentativa de forçar um resultado igual ao da Déia, parece que Paris é meu lugar.


You Belong in Paris


You enjoy all that life has to offer, and you can appreciate the fine tastes and sites of Paris.

You’re the perfect person to wander the streets of Paris aimlessly, enjoying architecture and a crepe.

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais aqui, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei…

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo “ausente” várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido o maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS – Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.

How to disappear completely

Guimarães e amores, insônia e incenso

Já em casa (sem sono, pra variar). Papo de madrugada com a Santa Helô no msn sobre Grande Sertão: Veredas. Acabei pegando o livro e relendo grifos antigos.

“Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ôntem amanhã: é sempre. Tormentos.
(…) relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa”.

Não é à toa que os homens da minha vida sejam todos santos. Faz tempo que não me sobra tempo para condená-los. Quase uma santa… É que eu percebi que autoflagelo é mais produtivo. Faz andar.

Estou lembrando de outro papo (não mais com a Helô). Ele me disse que eu fui suicida, que não lutei por meus amores. Mas eu olho daqui os meus amores e me prefiro sem eles, sem a parte que os amou. Aquela que foi carcomida, que apodreceu, que também morreu.

Preciso dormir. Faz dias que não tomo café, mas meu organismo anda muito distraído e ainda não se deu conta disso.

Em tempo: terceira noite de “incensada” na redação. E o Rio de Janeiro continua uma Varsóvia de tranqüilidade… Os incensos estão virando lenda. Pedidos já para que sejam acendidos todas as noites.

Goiaba

Na hora de definir uma legenda, me valho da sabedoria jornalística. Se fosse pobre, eu diria que é um meliante, tarado, psicopata. Mas como mora em Ipanema e come ração de salmão, é sensível e artista.

Cadê a cadeira que tava aqui? O gato comeu!

Uma fábula. O Dés viajou pra Salvador com a Beca e, gentilmente, deixou a chave do ap em Ipanema comigo, me salvando do que seria a grande furada do Réveillon: tentar voltar pra Niterói depois do plantão que terminava às 23hs.

Foram quatro dias, só eu e o Goiaba, o gato do Dés. Cheguei na sexta-feira 30. O bicho miava tanto que, depois de checar água, ração e terra 74 vezes, saí correndo do ap, me sentindo um fracasso como mãe de gato zona sul, e fui me encontrar com a Dê, o Di, o Bob e o Pedro, que estavam por ali, no Banana Jack.

Cervejas, conversas, teorias, divagações. Depois pizza, mar à noite, mais conversas, teorias e divagações, com brincadeira de chutar areia da praia. Adiamentos do meu reencontro com o gato.

Depois de miados estridentes durante duas madrugadas – sexta pra sábado e sábado pra domingo – acho que ele relaxou. De verdade. Porque na manhã de domingo, assistindo pela trolhogésima vez o clipe de Let Down, comecei a fazer carinho na barriga do Goiaba, que foi se arreganhando. Música rolando, reparo nos movimentos pélvicos do bichano, vejo aquela coisa vermelha ficando mais saliente, depois um troço branco na ponta da coisa vermelha. E, juro, juro, no último acorde, a gotinha cai na cadeira do computador. O Goiaba, de uma sensibilidade muuuuuuuuito maior que a minha, gozou com Radiohead. Gato de bom gosto e muito estáile esse…

Desejo e sonho de sobra pra transformar ímpar em par

Naquele fim-de-ano de 2005 pra 2006, descobri que eu não era a única a ter expectativas em relação aos anos pares e receio quanto aos ímpares. A Déia e o Dés me contaram: depois de pararem pra fazer um balanço dos anos vividos, como eu eles constataram que os pares ganhavam em realizações, surpresas e momentos inesquecíveis.

2006 foi ano de autodescobertas importantes, de sujeiras cansadas da cobertura dos tapetes; de recolhimento mas também de aventuras. De receios que serviram para encorajar. Tempo de peito aberto pra vida, mas também de um olhar pra dentro. Inconstâncias e equilíbrios, estréias e mesmices. Amor nenhum e amores de sempre, amizades novas com cara de velhas, amigos antigos redescobertos, renovados, ressignificados e reinterpretados. Viagens, muitas viagens.

O último dia de 2006 foi um 31 de plantão no jornal até às 23h, de tensão pelos alertas da escuta na redação. Não confirmados carros queimados, comércios fechados e morros a serem invadidos. Sim, repórteres e fuzis. Rio de Janeiro de festas, de fogos e dos infernos. Mas também houve noite de luz em Ipanema, abraços antigos mais apertados, olhos de sempre nunca tão vistos, conversas repetidas para ouvidos transformados, mesmas teorias contadas com risos inéditos. Bocas misturadas, embebidas em beijos e vinhos.

Apelando pros salvadores clichês: 2006 vai entrar pra história. Resta agora fazer de 2007 um ano par. Pra isso, há desejo e sonho de sobra.

Então tá, eu me calo

- Incenso não é coisa de cristão não.
- Ué, um dos reis magos não levou incenso de presente pelo nascimento de Jesus?
- Ah, mas o cheiro devia ser diferente.
- …

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