Um homem

Fui dormir com aquela troca de mensagem, aquele jeito dele de dizer milhares de coisas em frases curtas, com o poder de síntese que sempre admirei. Só que desta vez os assuntos não se relacionavam:

tô ficando saudável
neste momento comendo uma salada de repolho branco
repolho roxo
tomatinho e cebola pequenininha
em vez de baconzitos
ah, uns champignonzinhos tb
mas fique tranquila
acompanha uísque
sou fã da Durga
descobri um salgadinho chamado magia
muito bom
mas eu tava ficando muito barrigudo
amanhã tenho uma reunião
trabalho super legal
importantíssimo

Olhei praquelas frases e achei engraçado. Isso de desandar a escrever, meio que não dando tempo pro interlocutor respirar, costumava ser coisa minha. Bem verdade que sempre com textão. Eu não sei descompensar assim, com frases curtas…

Falei que não tava acompanhando o raciocínio, perguntei se ele tinha mesmo bebido uísque para acompanhar a salada.

sóbrio
total
hehe
foi mal
sorry
não falo com vc há um tempo
joguei tudo de uma vez

Explicado. Força do hábito, apenas. Um tempo sem contato e quando uma janela de whatsapp se abriu, lá veio o turbilhão. Um monte de small talk represado. É que ele costumava me contar essas coisas cotidianas. Sobretudo essas coisas cotidianas. Eu diria que o principal motivo da gente ter se afastado foi essa capacidade dele de emplacar tantos assuntos cotidianos em sequencia — de lembrar de mim comendo salada, comendo biscoito Magia, tomando uísque, vendo um documentário sobre cachorros, lendo uma tese, na reunião de trabalho —  mas sempre, invariavelmente, mentir sobre coisas fundamentais.

 

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Anita

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Anita na padaria me esperando

Sabia que seria difícil dizer adeus pra casinha, pro quintal com bananeiras, visitado por araras, beija-flores e tucanos. Pro céu azul da Chapada, pro cheiro e pras cores do cerrado. Mas nada se comparou à despedida da Anita. Ela foi me escoltando até a rodoviária e, sem cerimônia, entrou na padaria e ficou assim, do meu lado, enquanto eu tomava café. Quando entrei no carro rumo a Brasília, ela quis entrar junto. Fechei a porta, ela pulou na janela do motorista. E agora estou aqui, na estrada, sem conseguir parar de chorar…

Ah, os cariocas…

Tá um frio danado aqui no cerrado. Hoje de manhã, por exemplo, fez 11 graus, com um vento louco e constante, apesar do sol e do céu azul.
Enquanto isso, em Juiz de Fora a sensação térmica foi de dois graus na segunda-feira, de acordo com a Tribuna de Minas (sim, eu li, hehe) e segundo os amigos que andam congelando por lá.
Mas os relatos dos cariocas são sempre os mais desesperados e engraçados. Meu preferido de ontem foi: “gente, este ano o inverno caiu na terça!”.
#brasisqueamo

Fãs de Harry Potter: não me invejem, trabalhem

Da minha alma vira-lata: passo uma semana nos lugares mais diferentes e quando vejo esqueço de onde vim. De repente, brotam uns sentimentos improváveis de pertencimento. Mas aí acontecem uns episódios meio inusitados, parece que feitos sob medida pra me lembrar da minha condição de forasteira. Tipo agora há pouco: voltei pra “casa” por uma estradinha de terra meio escura e fui recepcionada pela algazarra de três corujas na esquina.
#fãsdeharrypotternãomeinvejemtrabalhem

Sobre Antonio Candido

Vou confessar uma coisa que normalmente não se diz, sobretudo quando uma grande figura morre: li quase nada do Antonio Candido. Sim, é uma lacuna, das tantas que tenho, e vou passar a minha existência material tentando preenchê-las. E tudo bem.

Mas tem uma frase dele, sobre o Darcy Ribeiro, que me persegue há muito tempo, desde os meus 17 anos, quando li O povo brasileiro. Na contracapa do livro, havia um trecho da crítica do Antonio Candido sobre a obra, publicada na Folha de São Paulo. Reproduzo aqui:

Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.”

“…enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma”. Essa frase me impactou muito na época. Ali, aos 17 anos, tracei uma meta: a de viver muitas vidas numa só. Lembro dessa meta/juramento com tanta frequência que vocês nem acreditariam. E sempre agradeço ao Antonio Candido por isso.

“Não pare, pois isso é uma forma de ajudar o mundo”

Hoje o Facebook me mandou um alerta para que eu autorizasse uma mensagem inbox de um evento acadêmico do qual vou participar. Pronto, foi a isca para que eu caísse na toca do coelho da Alice. Nesse limbo para onde vão mensagens daqueles que não constam na sua rede de contatos, havia obviamente várias que nunca tinha lido. Algumas eram de pessoas que me procuraram lá depois de me lerem aqui no Digerindo. Outras, de quem lera uma matéria da Você/S.A., sobre gente que deu um rumo novo na vida, e eu era uma das personagens por conta da minha decisão de pedir demissão e viajar pelo mundo em 2011.

Dentre as mensagens, destaco quatro, que tomo a liberdade de reproduzir aqui (preservando, obviamente, a identidade dos remetentes):

Em 20/02/2012:
“Olá Gisele, tudo bem?
Sou assinante da VOCE S/A e vi uma matéria sobre sua coragem de ‘largar mão’ de tudo e partir para uma aventura. Achei mto legal …
Me identifico com pessoas assim que adoram viajar, aventuras e queria apenas compartilhar contigo.Parabéns e sucesso ! Bjs”

Em 11/10/2013:
“Oi Gisele, Bom Dia!!
Tudo bem?/ Estava lendo seu artigo publicado no site Você S/A. Muito bacana sua história… Estive no Rio recentemente, me encantei por este lugar! Tenho muita vontade de largar tudo por aqui e sair do interior… estou planejando fazer isso em breve, e o Rio é um dos lugares que pretendo passar uma temporada, isso é ‘pessoal’ preciso sair… respirar novos ares, me sinto limitada!! hahhah… Histórias como a sua, entre outras… me inspiram. Vou ficando por aqui, abraços.”

03/01/2014
“Querida Gisele,
Li sua crônica 
‘Ao urubu que pousou em minha janela’e resolvi te escrever para agradecê-la, pois ontem um urubu pousou no parapeito da sacado de meu apartamento e graças a sua crônica, consegui acalmar um de meus familiares que entrou em pânico ao se deparar com o urubu. Parabéns pelo texto e minha gratidão pelas lindas palavras que nos fizeram repensar em muitas questões. Um abraço”

17/12/2015
“Gi! Vi seu blog, e ali encontrei a unica solução pros meus problemas Gostaria de dar uma desabafada, coisa que nunca contei pra ninguém Quem sabe você consegue me livrar da depressão? Espero que me aceite! Muito obrigado!”

Fiz questão de responder a esses quatro, por mais bizarro que possa parecer, mesmo depois de tanto tempo, tantos anos (para alguns) sem resposta. E olha que coisa, a pessoa da terceira mensagem me respondeu imediatamente, deste jeitinho:

“Sim!! não pare [de escrever], pois isso é uma forma de ajudar o mundo! Aliás, você só ter encontrado as mensagens há pouco tempo foi oportuno, pois hoje estava meio desanimada e a história do urubu me fez repensar em algumas questões. Além disso, será motivo de conversa com amigos hoje!! abs!!”.

Me despedi desejando a ela uma boa conversa com os amigos e prometendo que ia pensar com carinho sobre essa coisa de escrever como uma forma de ajudar o mundo.

No tempo da beleza em lá menor

A maior parte dos meus vinte e poucos anos eu passei acreditando que, se todos viemos ao mundo com uma missão a cumprir, a minha era “salpicar o Universo de beleza”. O jargão dava o tom daquela época, e se traduzia na forma como tentava conduzir minhas relações,  no peito aberto para os encontros da vida, na dedicação ao meu trabalho com jornalismo comunitário e educomunicação.

Disse diversas vezes aos meus companheiros de sonhos, nas noites regadas a pinga e utopia, que tudo perderia o sentido, e eu me perderia de mim, se algum dia me fechasse em conquistas individuais apenas (que talento para profecias…).

Trocando em miúdos, sempre quis lutar por algo maior, mudar o mundo, essas coisas da juventude, mas acho que falar em “salpicar o Universo de beleza” era uma maneira de conferir leveza a um sonho tão grande, pra não me sentir oprimida por ele.  Da minha condição de poeirinha cósmica, fizesse o que fosse, mesmo na potência máxima, se trataria sempre de humilde cosquinha no Cosmo.

Hoje lembrei daquela singela ambição e entendi como foi importante cultivá-la nos tempos juvenis de tantas incertezas e construções. Apesar das tantas voltas da vida, da poeira nos pés, dos calos nas mãos e de um inevitável peso no coração, acordei nesta manhã de notícias ruins e pensei que estes são tempos, mais do que nunca, de incertezas e, por isso mesmo, de construções.

Que a beleza então resista, mesmo que num surto de juventude fora de época,  e ainda que seguindo o tom destes nossos dias em lá menor.

 

Sobre mapas, trilhas e a criação de novos rumos

Eu realmente gosto de métodos. Podem me chamar de virginiana clichê, mas se tem algo que considero um desperdício de vida é bater cabeça tentando desbravar caminhos que já foram pra lá de sinalizados e demarcados. Às vezes me pergunto se não há nisso um traço cultural forte: somos bons de improviso, por que enrigecer nossa ginga com regras? Pois dou um bom motivo: eu, que nem Raulzito, tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aqui parada.

Entre as contribuições que gostaria de dar – ao mundo, aos jovens, sei lá – uma delas seria mapear todas as trilhas que abri na faca e falar: vai, moço ou moça, siga a partir daí, encontre seu próprio Paraíso, e não esqueça de pavimentar a estrada pro próximo. Porque é legal criar, mas sempre considerando o que já foi feito.

#ficaadica

Sobre sentidos na vida e as verdades de cada um

Há alguns meses deixei minha zona de conforto e me movi em direção a um sonho antigo: fazer mestrado (em uma área completamente diferente da que vinha atuando nos últimos 14 anos). De lá pra cá, muitas mudanças, não só geográficas. O mundo resolveu se chacoalhar um bocado também, o Brasil tá revirado e se reinventando, e eu, revirada e me reinventando, não canso de me perguntar qual é o meu lugar nisso tudo. Confesso até que já bateu um certo desespero. Nos últimos meses, e mais precisamente nas últimas semanas “interinas”, quem nunca?

Mas, ao mesmo tempo, chega uma serenidade guerreira, teimosa e improvável, nascida precisamente dessas mudanças todas, internas e externas. Bate uma esperança advinda da certeza de que “nascer é uma alegria que dói”, como disse o Galeano, e brota uma paz de espírito porque tenho sido capaz de viver o sonho, de transformar o cotidiano, de expandir as viagens de sempre e fazer dos meus dias uma constante descoberta. E acaba que meu lugar no mundo, aos poucos, se torna cada vez mais claro.

Fico me perguntando onde estive antes e como foi possível, durante tanto tempo, viver tão em desacordo comigo mesma – e, por consequencia, não sendo inteira nas minhas relações, de um modo geral. Parecia faltar uma verdade, e faltava mesmo: a minha verdade.

Sofri muito por ver os meus dias se esvaírem em uma rotina que não fazia sentido, com a maior parte do meu tempo dedicado a um trabalho que já não me preenchia – e que se traduzia materialmente na manutenção de uma vida que me matava. E falar sobre isso não é fácil, principalmente porque muitas pessoas se encontram em uma condição parecida, mas já entregaram os pontos faz tempo, e por isso tentam te convencer de que não resistir é a única forma possível de redenção. Mas nada disso é verdade – embora tenha se tornado a verdade de muitos.

Hoje, pra mim, tudo se apresenta diferente. Sinto, vivo e sei (com meu coração, vértebras e entranhas) que nosso lugar no mundo a gente constrói, mas essa construção precisa se dar a partir das bases certas, sob o risco de, tijolo por tijolo, a gente acabar soterrado.