Segundo Ato: sobre a liberdade do corpo que dança

Repito, o começo tardio traz uma grande vantagem: maior percepção das mudanças. Como o cego de nascença que, enxergando, termina por ver mais que todo mundo, de tanto que pasma com a normalidade dos outros. Milagre do mesmo? Eu diria.

Eu me vejo diferente e não me refiro às alterações estéticas, mais sutis que as de alma; tampouco às gestuais, apesar da dança imprimir delicadezas. O que difere é a função do corpo.

Vasculhando meus parcos conhecimentos filosóficos, lembrei de Nietzsche, Foucalt e Deleuze e da forma dos três se referirem ao corpo como uma importante chave para compreensão tanto da opressão como da liberdade do indivíduo. Corpo da “grande saúde”, corpo adoecido pela sociedade, corpo da “digestão”, corpo que se atrofia para melhor caber no sistema produtivo, corpo alvo de medicalização, corpo subjugado por tortuosas concepções estéticas…

Peço perdão aos três pensadores por minhas sínteses e também generalizações, mas me arrisco a dizer que as duas funções do corpo mais facilmente identificáveis são a estética e a sexual. Pesa nas minhas ponderações o meu lugar de mulher — e brasileira! –, é inegável. Na minha filosofia de observação do cotidiano contam principalmente estes dois registros, estético e sexual, ambos aprisionadores. Corpo pra ser visto, apreciado se de acordo com os padrões estéticos, valendo o primado do supostamente belo, ainda que nem sempre saudável; corpo para ser provado com os olhos e consumido sexualmente.

Mas eis que se inaugura uma nova lógica, uma poesia diversa, um movimento que ressignifica funções e olhares: nasce o corpo que dança. E se o meu corpo dança, a estética se vincula a trabalho, lapidação e conseqüência, não existe como fim em si. Já a sexualidade, agora, pode ganhar novos contornos, tempos e espaços outros – exclusivos e mágicos.

Ai, ai… eu confesso: ando meio pudica. Acho até que de tão desencanada. Não vejo problema em falar de sexo, talvez por isso não capriche nos despudores escritos, nem faça alardes que mais me soariam como clichês de uma rebeldia caduca. Adoro uma besteira bem dita, bem sacada, motivo de riso entre amigos, mas tem subversão sexual e certas exaltações que me cansam (eu tava falando dia desses: às vezes, numa de subverter, nos submetemos ainda mais a certas lógicas. Periga reforçarmos, pela via oposta, conservadorismos que pretendemos demolir).

Inexistem, no que se refere à sexualidade, questões morais ou religiosas que me atormentem, com isso a excitação do proibido passa ao largo; tive fantasias e realizei muitas — até que elas perderam a importância frente a realidades muito mais interessantes.

História de tempos idos que me vem: “o último absoluto” potencializava o meu encantamento com as reconfigurações corporais do pós-dança. Com ele experimentei um sexo mais balé, mais poético, mais anímico. Por isso o comparei a uma caixa-depósito dos meus sentires acumulados mais refinados. Por isso também disse, certa vez, que gostava de mim com ele, talvez mais que dele propriamente. Narcisistamente… Quando juntos, eu constatei as novas formas, funções e movimentos do meu corpo que, agora, e antes de mais nada, dançava. (Aliás, acabei de me dar conta: mu-dança. Realidade que baila…).

Pudica. Ou talvez não. Vai ver apenas me surgiu uma nova percepção acerca dos lugares e espaços destinados ao espetáculo. Questão é: o suposto recato vem de liberdade e não de repressão. O corpo que dança é livre de forma tal que não se prende à exigências e padrões estéticos despropositados. Tampouco existe apenas para o sexo, assim criando novos paradigmas para a existência do mesmo.

Pra finalizar a prosa em baile, cito as conhecidas palavras de Santo Agostinho: “Ó homem, aprenda a dançar! Senão os anjos no céu não saberão o que fazer contigo!”

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2 comentários sobre “Segundo Ato: sobre a liberdade do corpo que dança

  1. Harmônica-metanóica, é surpreendente a arte de harmonizar carne e espírito, fundi-los, aparta-los, encontrar novas formas de encaixe e soltar tudo de vez! Obrigada pelo auxílio em ordenar meus ossos, deslocar minha virilha e mente. Os ombros ainda doem, mas estão definitamente mais preparados para suportar o mundo. As pernas tremem, mas estão mais firmes para ousar dar passos maiores. Amo você!

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