Nietzschianas II

“É longe da feira e da fama que se passa tudo que é grande; longe da feira e da fama que moraram, desde sempre, os inventores de novos valores.
Foge, meu amigo, para a tua solidão: vejo-te picado por moscas venenosas. Foge para onde sopra um ar rude e vigoroso!
Foge para a tua solidão! Perto demais viveste dos pequenos e dos miseráveis. Foge da sua invisível vingança! Outra coisa não são, contra ti, senão vingança.
Contra eles não mais levante o braço; inúmeros são eles e não nasceste para enxota-moscas.
Inúmeros são esses pequenos e miseráveis; e mais de um soberbo edifício já foi reduzido a ruínas pelas gotas de chuva e as ervas daninhas.
Não és uma pedra, mas já foste cavado por muitas gotas. Ainda acabarás rachado e partido por muitas gotas.
Vejo-te cansado por causa das moscas venenosas, vejo-te arranhado e sangrando em cem lugares; e a tua altivez não quer nem mesmo zangar-se.
Sangue, querem de ti, com toda a inocência, sangue cobiçam suas almas exangues – e por isso, com toda a inocência, te picam.
Mas tu, ser profundo, sofres também das pequenas feridas; e, antes ainda que tenhas sarado delas, o mesmo verme venenoso já rasteja sobre a tua mão.
Demasiado altivo, eu te julgo, para matar esses gulosos. Mas toma cuidado em que não se torne teu destino suportar-lhes toda a venenosa injustiça!
Zumbem a teu redor também com louvores. Mas esse louvar-te é uma importuna insistência; querem estar perto da tua pele e do teu sangue.
Adulam-te como a um deus ou a um diabo; gemem diante de ti como diante de um deus ou de um diabo. Que importa! Aduladores, são eles, e gemedores e nada mais.
Também, com frequência, fazem-se de amáveis contigo. Mas isso foi sempre a esperteza dos covardes! Sim, os covardes são espertos!
Pensam muito em ti, com suas almas estreitas – és sempre inquietante, para eles! Torna-se inquietante tudo aquilo em que muito se pensa.
Punem-te por todas as tuas virtudes. Perdoam-te, no fundo, apenas os teus erros. 
Porque és benevolente e justo, dizes: “Não são culpados de sua pequena existência”. Mas sua alma estreita pensa: “Toda a grande existência é culpa.”
Mesmo se és benevolente com eles, sentem-se desprezados por ti; e retribuem os teus benefícios com ocultos malefícios.
Tua silenciosa altivez repugna sempre ao seu gosto; rejubilam-se quando, alguma vez, és bastante modesto para mostrar-te vaidoso.
Aquilo que conhecemos num homem é, também, o que nele inflamamos. Guarda-te, portanto, dos pequenos!
Diante de ti, sentem-se pequenos e sua inferioridade arde e incandesce contra ti em invisível vingança. 
Não notaste com que frequência emudeciam, quando te aproximavas deles, e como a sua força os abandonava, qual a fumaça de um fogo se apaga?
Sim, meu amigo, és, para o teu próximo, a sua má consciência: porque ele é indigno de ti. Assim, odeia-te e de bom grado sugaria teu sangue.
O teu próximo são sempre as moscas venenosas; aquilo que há de grande em ti – é, justamente, o que deverá torná-lo venenoso e cada vez mais mosca.
Foge, meu amigo, para a tua solidão e para lá onde sopra um vento rude e vigoroso. Não nasceste para enxota-moscas.
Assim falou Zaratustra.”
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