28 dias de café – parte 3: “Sobre retornos e tormentos”

Talvez não exista sensação mais perturbadora que retornar aos lugares onde, em um determinado e irrepetível tempo, se viveu uma extrema felicidade, compartilhada com pessoas que só estavam ali, no mesmo momento, por uma fatal generosidade do universo. A experiência do Kibutz permaneceu na minha lembrança como uma das fases mais especiais da minha vida, e esse sentimento só se reafirmou com os anos, mas sempre me pareceu assustadora a idéia de retornar. A mim me bastou voltar a Ein Haroresh 45 dias depois de me desligar do kibutz e partir em viagem, visitando diferentes lugares, sempre rumo ao sul, até cruzar a fronteira de Taba e entrar no Egito, onde mochilei durante um mês, tendo como companheiros inseparáveis Dave, John e Rick.

Retornamos a Ein Hahoresh porque nossos vôos para casa partiriam do aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, e necessitaríamos de teto por um ou dois dias. Eu também precisava buscar a enorme mala que deixei, já que levara comigo, na viagem com os ingleses, menos de 20 por cento do que trouxera do Brasil – e a consciência de ter muito além do necessário, e de que ter demais pesa, literalmente, na alma viajante, se tornou um dos meus grandes ensinamentos.

No regresso ao kibutz, um choque: apenas dois, dos cerca de 25 voluntários, eram meus “contemporâneos”. Todos haviam partido e o lugar, em tão pouco tempo, se transformara num grande cemitério de lembranças. No refeitório dos voluntários, jaziam inscrições, objetos e mechas de cabelos deixadas pelos que eu jamais reencontraria. Essa foi a minha tomada de consciência, sob outra perspectiva, da partida desde sempre intrínseca à própria experiência.

No Kibutz, aprendíamos a conviver com pessoas de todos os cantos do mundo, com idades entre 18 e 35 anos, e posso dizer que, salvo alguns curiosos incidentes, essa convivência era bem pacífica. Mais que isso: amizades improváveis se formavam e amores ali gestados por vezes se ramificavam para os países de origem dos amantes. Assim aconteceu com a dinamarquesa Bodil e o sul-africano Andrew, com a sueca Linda e o colombiano Harvey, com o inglês Dauren e a brasileira Rosane (que depois se tornaram marido e mulher).

Como o tempo de permanência variava de três a seis meses, às vezes mais, às vezes pouco menos, e como em Ein Hahoresh havia acomodação para 30 voluntários, nosso cotidiano também era feito de ver gente chegar e partir a todo o momento. Isso provocava certa distorção na passagem dos dias e, hoje, quando paro pra pensar nos três meses vividos em Ein Haroresh, mal acredito que não foram muitos mais.

No meu último encontro com o John, em Amsterdam, já em janeiro de 2009, não deixei de pensar na ironia que consistia o fato de que um país de onde não paravam de chegar notícias de atrocidades tivesse sido um solo tão agregador e fundamental para a nossa amizade.

 Mas a verdade é que conhecemos uma Israel diferente, não somente aos nossos olhos. O cenário, apesar de sempre delicado, era outro. Não apenas porque fazíamos parte de um programa essencialmente judaico e, por conseguinte, as notícias a que tínhamos acesso eram invariavelmente pró Israel. Pequenos detalhes vivos na minha lembrança me indicam que não existia essa atmosfera de ódio, pelo menos não confessadamente, não como imagino que exista para as novas gerações.

Sim, havia sinais incontestes de que aquele era um país em guerra, como o serviço militar obrigatório para rapazes e moças dos 18 aos 21 anos – idade em que deveriam estar na universidade aprendendo coisas importantes como respeitar diferenças, amar a literatura, o cinema, criar projetos revolucionários, se embriagar com bebidas baratas, mas nunca vivendo sob uma atmosfera de morte.

 As armas que esses tantos jovens recebiam do governo eram mantidas por eles, durante o “expediente” ou não, o que tornava comum o convívio, nos transportes públicos, com lindos meninos sorridentes e fardados, e também com meninas super maquiadas e com cortes de cabelos modernosos, sempre transportando um fuzil atravessado nas costas.

Outro detalhe bem característico era a revista na entrada de locais como shoppings, em que todos deviam abrir as bolsas. Ainda assim, naquele país, em dias de folga do Kibutz, era possível viajar pegando carona e contar como certa a solidariedade dos motoristas, que me pareciam bem menos paranóicos do que qualquer carioca. Esse era um costume, uma prática disseminada em um lugar onde transportes públicos não funcionam no shabbat, ou seja, do pôr-do-sol de sexta ao pôr-do-sol de sábado.

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Um comentário sobre “28 dias de café – parte 3: “Sobre retornos e tormentos”

  1. Voltar sempre da medo mesmo. Mas acho que se voce voltar ao lugar sozinha eh melhor, sabia? Foi assim em Madrid…voltei primeiro com a Dri, e as lembrancas dela (pessoais e intransferiveis) confundiram as minhas. Tive que voltar sozinha para andar e sentir tudo com os meus olhos, fazer os meus caminhos, cruzar as mesmas ruas. E tudo veio como uma lembranca boa, como se tudo tivesse parado no tempo e aquele lugar fosse so meu.

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