28 dias de café – parte 9

Antes da viagem ao Egito, ainda na época de Ein Hahoresh, Rick e eu tivemos um breve envolvimento, que durou pouco menos de dois meses. Dado o contexto de convivência intensa no Kibutz, essa contagem dos dias era um pouco distorcida. Considerando as nossas diferenças culturais e de temperamento, eu diria que foi um tempo recorde.

No Brasil, por causa da viagem, pouco antes de partir eu terminara um namoro que durou a minha adolescência praticamente inteira, dos meus 14 aos 18 anos. Era uma referência muito forte de um namoro adolescente intenso, com um cara apaixonado, ciumento, cinco anos mais velho, machista e conservador que, como se não bastasse, recentemente iniciara a carreira militar. Tentar, dois meses depois, um relacionamento com um inglês de 19 anos, imaturo, que sequer havia começado a universidade, frio (do meu ponto de vista), sarcástico, beberrão e meio rabugento não devia ser mesmo uma investida das mais promissoras.

Como me interessei por ele? Sem rodeios e vãs filosofias: o Rick era lindo e tinha também um charme de cafajeste absolutamente incompatível com sua idade.

Lembro de quando nos beijamos pela primeira vez. Naquele 10 de junho de 2000 , um sábado, fizemos um churrasco (de hambúrguer, obviamente) na área dos voluntários. No fim daquela tarde, Rick e eu saímos para um passeio de bicicleta que nos rendeu boas risadas. Já noite, paramos para descansar e deitamos na quadra do colégio do kibutz, sob as estrelas. Aliás, sempre quis obter uma explicação lógica para um fenômeno que eu não me cansava de observar: o céu do Oriente Médio (não apenas o de Israel, mas também do Egito), sempre limpo nos verões invariavelmente secos, vivia riscado de estrelas cadentes. E a primeira estrela cadente da minha vida eu vi naquela noite, no chão da quadra, abraçada com o Rick. Fizemos um pedido secreto, ele me beijou em seguida e me disse que o seu acabara de se realizar.

E foi assim, desse jeito clichê, romântico e adolescente que as coisas aconteceram. Nem por isso começamos bem. Quando voltávamos para a área dos voluntários, já tarde da noite, encontramos o John agachado, no lugar onde acontecera o churrasco, cuidando do cachorrinho quase morto que bebeu de uma tigela contendo vodka (quando acabavam os copos limpos, os voluntários apelavam para as tigelas de cereais). Ao ver a cena bizarra, fomos falar com ele e, naquele breu, não enxerguei no chão uma das telas que havia servido de grelha e rasguei o meu pé esquerdo.

Eu urrava de dor, o sangue gotejava e foi preciso acordar a Sarah para que ela chamasse uma das enfermeiras do hospital de Ein Hahoresh. O incidente me rendeu uns dias de afastamento do trabalho, uma cicatriz que me acompanha até hoje e uma superstição de que aquele era um sinal de mau agouro…

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2 comentários sobre “28 dias de café – parte 9

  1. Eu sempre fiquei muito admirado com voce contando as histórias dessa viagem.
    Seus olhos brilhavam.
    Eu confesso que sentia uma certa inveja dessa sua experiência.
    Sempre achei que apesar de muito feminina , vc era uma menina com mais colhoes que eu nesse aspecto.

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