28 dias de café – parte 11

A coisa com o Rick não demorou a desandar. Numa das tantas sextas-feiras em que eu havia dormido cedo pensando na praia do dia seguinte, ele, por volta das três da manhã, bateu desesperadamente na porta do meu quarto, completamente bêbado, chamando meu nome. Alguém o tirou de lá antes que eu abrisse, mas cheguei a acordar e, irritada, custei a pegar no sono outra vez. Na manhã seguinte, enquanto preparava um sanduíche na cozinha, notei a claridade que vinha da sala de TV e fui até lá desligar o aparelho, dando de cara com o Rick desmaiado no sofá, imundo de terra e com as calças abertas. No final da tarde, quando voltei, mal consegui ouvir os pedidos de desculpas. Era muita novidade pra mim, que, inevitavelmente, fazia comparações com o ex-namorado brasileiro, esse quieto até demais.

Tudo parecia contribuir para o meu constante estado de estranhamento, de vulnerabilidade, de solidão, de sentimento de incompreensão. Diferente da maioria dos voluntários, que chegavam em grupos de seus países, durante um bom tempo eu era a única brasileira ali, e viver isso pela primeira vez, naquele ano 2000, não foi fácil. Hoje, acho graça.

Lembrando agora, me parece assustador que, naquele clima de liberdade e descobertas, eu combinasse um ar blasé, um certo puritanismo e uma boa dose de histeria. Meu Deus, eu chorava por tudo! Pelo pé cortado, pelo namoradinho bêbado, pela sujeira das áreas comuns (apesar da limpeza diária do voluntário de plantão), pelo sofá da sala de TV repleto de cinzas de cigarro e marcas de sapato, pela dor de cabeça de precisar falar meu inglês primitivo o tempo inteiro, por nem sempre entender os outros, pela saudade de feijão, de café brasileiro e de ouvir Chico Buarque, por não encontrar soro fisiológico em canto algum daquele país e viver com a vista irritada por causa dos produtos fortes para lentes de contato, porque eu não tinha uma pequena fortuna para pagar no ingresso do show do Caetano Veloso em Jerusalém, pelo gosto daquela água salobra, pela dor de coluna devido ao trabalho pesado no hospital dos velhinhos e pelas privadas sujas de excrementos senis que eu precisava limpar, e que depois foram substituídas na minha lista de tarefas pelos ralos podres da cozinha contígua ao salão de jantar.

O que mais me intrigava é que eu parecia ser a única grande incomodada ali. Os demais voluntários, fossem escandinavos ou sul-coreanos, ingleses ou sul-africanos, até reclamavam de algumas coisas chatas de qualquer trabalho, mas de um modo geral pareciam felizes por viver a experiência. O trabalho mais corno possível, em Pachmas (a fábrica de metal, plástico e fibra industrial), rendia pixações nas paredes – “Pachmas is the hell”, “Maybe Pachmas tomorrow”, “Freedom” – mas, de tão mal-humoradas, acabavam provocando muitos risos e virando piada interna.

Até que, dois meses depois, quando eu já estava me surpreendendo com minha capacidade de adaptação, uma paulista, a Fernanda, chegou a Ein Hahoresh. Como havia um quarto vago na minha casinha, Sarah achou por bem que ela ficasse lá. E logo nos primeiros dias a Fernanda já estava reclamando tanto, mas tanto, que eu só sabia ficar feliz por ter finalmente encontrado alguém que me entendesse.

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3 comentários sobre “28 dias de café – parte 11

  1. Gi, acho que nao posso esperar por todas as suas aventuras condensadas em um livro… Vindo de mim “a reclamona”… acho que e’ um super elogio…!! Bjs

  2. Lily, como eu sempre digo, mesmo os maus momentos rendem ótimas estórias.

    Beijos

    Fê, isso foi pressão para eu aumentar a produção? rs
    Maybe Pachmas tomorrow… hehehe
    Vontade grande de te abraçar. Afinal, não nos vemos desde aquele remoto ano 2000.

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