Diálogos II

−  “A beleza só existe quando alguém a admira”, um amigo meu sempre dizia. Houve um momento em que me percebia como uma bela mulher vivendo seu auge. Por me sentir tão plena (não ria de mim!), comecei a pensar que não fazia o menor sentido eu me envolver com alguém que não me enxergasse, ou que me desejasse sem saber me ter. Até que um dia olhei no espelho de sempre e só o que vi foi uma mulher envelhecida e profundamente só.

− Você não está sozinha. Além do mais, é uma mulher linda, deixe de besteira. Sempre foi, mas hoje tem esse ar de maturidade que lhe cai tão bem.

− Confesso que não me assusta envelhecer. Há beleza em todas as fases e as mulheres que admiro são precisamente as que vivem bem cada uma dessas etapas, que assumem suas rugas e cabelos brancos.

− Já eu tenho medo da decadência do corpo.

− Ah, meus receios não são estéticos, mas certamente sinto medo do corpo pifar, de enferrujar, de não conseguir amarrar o cadarço do sapato. Engraçado que pensei nisto quando comecei a fazer yoga: se me cuidar desde agora, que venham as rugas e os cabelos brancos, pelo menos não terei um corpo limitado. Deve ser libertador amarrar o cadarço do sapato aos 80 anos.

− Nunca fiz yoga, não posso falar dos benefícios, mas não me parece tão libertador viver me contorcendo e de cabeça pra baixo só para ganhar 10 anos.

− 10 anos? Como assim?

− Ora, qualquer pessoa, mesmo sem ter feito yoga a vida inteira, consegue amarrar o cadarço do sapato aos 70.

− Nunca havia pensado nisso…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s