Quando o barro não se fez carne*

Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de trapo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.


* publicado aqui em 26/03/2009

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3 comentários sobre “Quando o barro não se fez carne*

  1. “é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar”… precisas palavras. também me vejo aí… com um pingo de melancolia, mas com a certeza que só assim ela se revela e se faz – vida.

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