Ah, os cariocas…

Tá um frio danado aqui no cerrado. Hoje de manhã, por exemplo, fez 11 graus, com um vento louco e constante, apesar do sol e do céu azul.
Enquanto isso, em Juiz de Fora a sensação térmica foi de dois graus na segunda-feira, de acordo com a Tribuna de Minas (sim, eu li, hehe) e segundo os amigos que andam congelando por lá.
Mas os relatos dos cariocas são sempre os mais desesperados e engraçados. Meu preferido de ontem foi: “gente, este ano o inverno caiu na terça!”.
#brasisqueamo

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Fãs de Harry Potter: não me invejem, trabalhem

Da minha alma vira-lata: passo uma semana nos lugares mais diferentes e quando vejo esqueço de onde vim. De repente, brotam uns sentimentos improváveis de pertencimento. Mas aí acontecem uns episódios meio inusitados, parece que feitos sob medida pra me lembrar da minha condição de forasteira. Tipo agora há pouco: voltei pra “casa” por uma estradinha de terra meio escura e fui recepcionada pela algazarra de três corujas na esquina.
#fãsdeharrypotternãomeinvejemtrabalhem

Sobre Antonio Candido

Vou confessar uma coisa que normalmente não se diz, sobretudo quando uma grande figura morre: li quase nada do Antonio Candido. Sim, é uma lacuna, das tantas que tenho, e vou passar a minha existência material tentando preenchê-las. E tudo bem.

Mas tem uma frase dele, sobre o Darcy Ribeiro, que me persegue há muito tempo, desde os meus 17 anos, quando li O povo brasileiro. Na contracapa do livro, havia um trecho da crítica do Antonio Candido sobre a obra, publicada na Folha de São Paulo. Reproduzo aqui:

Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.”

“…enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma”. Essa frase me impactou muito na época. Ali, aos 17 anos, tracei uma meta: a de viver muitas vidas numa só. Lembro dessa meta/juramento com tanta frequência que vocês nem acreditariam. E sempre agradeço ao Antonio Candido por isso.

No tempo da beleza em lá menor

A maior parte dos meus vinte e poucos anos eu passei acreditando que, se todos viemos ao mundo com uma missão a cumprir, a minha era “salpicar o Universo de beleza”. O jargão dava o tom daquela época, e se traduzia na forma como tentava conduzir minhas relações,  no peito aberto para os encontros da vida, na dedicação ao meu trabalho com jornalismo comunitário e educomunicação.

Disse diversas vezes aos meus companheiros de sonhos, nas noites regadas a pinga e utopia, que tudo perderia o sentido, e eu me perderia de mim, se algum dia me fechasse em conquistas individuais apenas (que talento para profecias…).

Trocando em miúdos, sempre quis lutar por algo maior, mudar o mundo, essas coisas da juventude, mas acho que falar em “salpicar o Universo de beleza” era uma maneira de conferir leveza a um sonho tão grande, pra não me sentir oprimida por ele.  Da minha condição de poeirinha cósmica, fizesse o que fosse, mesmo na potência máxima, se trataria sempre de humilde cosquinha no Cosmo.

Hoje lembrei daquela singela ambição e entendi como foi importante cultivá-la nos tempos juvenis de tantas incertezas e construções. Apesar das tantas voltas da vida, da poeira nos pés, dos calos nas mãos e de um inevitável peso no coração, acordei nesta manhã de notícias ruins e pensei que estes são tempos, mais do que nunca, de incertezas e, por isso mesmo, de construções.

Que a beleza então resista, mesmo que num surto de juventude fora de época,  e ainda que seguindo o tom destes nossos dias em lá menor.

 

As Damas-da-noite

Declaro meu voto para as belas Damas-da-noite.

Porque elas exalam o odor que me encoraja quando o caminho é todo feito de sombras. Perfumam, insistentes, a despeito das trevas que espreitam adiante. Lá, onde gatunos e Excelências pardas conspiram contra qualquer sol que revele suas caras lavadas.

Ah, as despudoradas Damas-da-noite…

Ousam duelar contra o fedor de enxofre que se desprende do altar de deuses podres. E diante de um batalhão de porcos encardidos, oferecem seu perfume em sacrifício e se revestem de armaduras também feitas de flores.

Ah, essas Damas-da-noite e do mundo…

Ave mulheres cheias de asas! São primeiras-damas da vadiagem que, regadas por água de lata, cheiram a luta, se embriagam de rua e trocam as pétalas na Lapa.

Ah, as valentes Damas-da-noite!

Suas sementes voam livres em desacato ao breu da História. Germinam onde restava apagada a esperança e espalham o cheiro doce que anuncia a inevitável luz de um novo dia.

A mulher

Quis confessar várias vezes, mas desistia sempre. Talvez por achar que tudo já estivesse claro e que o óbvio ululava acima de qualquer suspeita.

Nem se faziam necessários grandes poderes de adivinhação: dava pra sacar pelo brilho no olho e pelo coração acelerado. Também pela boca indecisa, perdida com as possibilidades de caminho, sem saber se beijava ou se sorria. Tava lá, revelado em gestos e gemidos, impresso na aflição mal disfarçada de quando se especulou uma despedida.

Crescia, a cada encontro, a vontade de anunciar o que no estômago era frio e no ventre, quente. Mas, até o fechamento desta edição, nenhuma palavra havia sido dita.

Um desejo de estrada sem fim

Vou te contar meu segredo maior: escrevo para esquecer. Funciona assim: derramo palavras para dissipar sentimentos. Hoje, finalmente lanço mão do velho feitiço porque já não posso permitir que você colonize assim o meu espírito.

Admito o olfato viciado e confesso que meu paladar anda alterado, mas preciso me livrar da necessidade de te procurar em cheiros e gostos, porque afinal você nunca está. Ou está onde não deveria: entranhado em mim.

A marca da tua mão permanece no meu quadril, a gota do teu suor ainda evapora na minha pele e, por mais que meu corpo lute para te expelir, você ainda está todo aqui. É por isso que vivo precisando te esconder de quem quer que se aproxime um pouco mais – e ando cansada dessa necessidade de mentir o tempo inteiro.

Porque sim, eu minto. Descaradamente. Quando me vejo diante de novos olhares, bate uma saudade tão grande de você que minto pra me proteger. Finjo que meu desespero é encantamento e esse enjôo no estômago, pura excitação.

Mas fora de mim, você nunca está. Sei muito bem disso porque faz tempo que te procuro naquelas ruas que um dia pareciam só nossas, lembra? Tínhamos aquela mania de, na volta pra casa, seguir sempre o caminho mais longo, em vez de optarmos por uma simples reta. Abandonávamos a rua principal por uma das transversais e, chegando na paralela seguinte, logo entrávamos na transversal adiante para, só então, retomarmos o trajeto. Tudo com o objetivo de adiar, o quanto fosse possível, o término da conversa e evitar a bifurcação que, irremediavelmente, por fim nos separava.

De todas as lembranças, resta entre as mais singelas a sensação feliz daqueles dias em que juntos perdíamos o rumo. Confesso que, de vez em quando, percorro aquelas mesmas ruas e, então, o desejo de outros tempos se repete: caminhar do teu lado numa estrada sem fim, onde tua presença, teu sorriso e tuas histórias nunca cessam.

Aída

“Mulher de gosto”, assim sempre diziam. Nesse quesito, Aída, com seu nome de ópera, era unanimidade. Questão congênita:  ainda semente de gente, ingeriu em excesso o líquido amniótico que a envolvia. O incidente deixou sequelas permanentes: nascera com papilas gustativas super desenvolvidas e, assim, foi-lhe conferida a extrema capacidade de degustar tudo na vida.

Bem pequena, Aída  já saboreava auroras orvalhadas na montanha, engolia salgados entardeceres à beira-mar e devorava céus estrelados no campo. Rechonchuda, com cara de sapeca se desculpava por sua mania de comer flores e arrotar vastas pradarias. Caçava borboletas para bebericar as cores. Brincando de comidinha, preparava iguarias. Sua especialidade era o guisado de canto dos passarinhos. Mas, desde a mais tenra idade, seu petisco preferido era mesmo a liberdade.

Adolescente, com o apetite de mundo agigantado por hormônios indomáveis, se empanturrava de nuvens. Mascava a chuva, chupava o sol e se embriagava de lua. Numa noite dessas, trocando as pernas, desenvolveu uma curiosa predileção por abocanhar vaga-lumes. O estranho hábito dividiu opiniões: alguns davam de ombros, pois entendiam a excentricidade como mais um capricho de seu estômago indisciplinado. Outros lançavam o palpite: a menina, ambiciosa, queria iluminar-se pelo avesso. Interpelada a respeito, Aída apenas declarava que, em se tratando de vaga-lumes, era impossível comer só um.

Até que um dia, já adulta, sem querer veio o comedimento. Brotou, infeliz, com a notícia de uma triste partida que, de repente, fez de Aída alguém sem volta. Engasgou-se com a separação fatal e repentina. Incapaz de digerir saudade, perdeu a fome e, em seu lugar, surgiu outra pessoa, perdida e doída. Puída e aturdida. Roída, ferida.

Mas, com o passar do tempo aplacou-se o sofrimento e Aída reaprendeu a degustar, com requinte, o vento. E numa dessas tardes distraídas, ao engolir suaves e inofensivas brisas, sem querer sorveu um doce momento. Ingeriu perdidamente uma paixão flambada que a fez queimar a língua e, na garganta, multiplicar palavras inflamadas. Com ardor no peito e ventre em chamas, ela amou feito o diabo.

E do amor explodiu uma nova Aída, ainda mais faminta de vida…

Feitiço contra os lobos

É que preciso de vertigem pra me manter lúcida. Deixa eu te prevenir, apesar de pressentir o inevitável: essa sonambulância de cada dia uma hora mata por sufocamento. Minha sorte sempre foi este animal que carrego em mim: hospedeiro que exige cumplicidade, que esperneia, escava minha carne e uiva até me ensurdecer quando minha existência o faz sofrer de inanição.

Ingrata, sim. Sou e sei. Ele me livrou da morte tantas vezes, de sombrias desistências e indiferenças, e eu retribuí com buscas por venenos que esfarelam suas vértebras, lhe amputam as garras e adormecem os sentidos. Estes foram meus dois grandes equívocos: me recusei a reconhecer inimigos (por ignorar que talvez em suas tripas habite minha paz de espírito) e aprisionei este bicho que só faz me redimir.

Dia desses me disseram que eu era a melhor pessoa do mundo e meu corpo respondeu com um puta calafrio, desses de dançar na espinha, porque, num mundo de chagas abertas e veias arrombadas, elogio à bondade incondicional é tributo à omissão.

Apesar desta minha garganta há tempos entorpecida, sim, confesso omissões. Generosa? Permissiva. Bela? Bibelô do status quo. Apaziguadora? Promíscua com valores, crenças e lutas. Em vez de arrancar o mal pela raiz, neguei conflitos e adubei vilezas. Rendeu frutos, claro: em terra arrasada, floresceu o esterco.

Com presas de cão raivoso, ele outra vez acorda e, faminto, me estraçalha pelo avesso. Se transforma em vírus ácido que percorre minhas veias, corrói meus tecidos e invade meus poros;  me descabela, descasca máscaras e perfura carapuças; borra minha maquiagem e me perfuma a pele.

E eu, descalça e despida, corro por aí alucinada, inalando e exalando uma doce loucura outra vez.