Amy

Acabei de assistir o documentário sobre a Amy Winehouse. Reforça bem uma impressão que sempre tive: que ela, como tantos outros prodígios, só queria se expressar artisticamente, mas nunca virar celebridade. É muito cruel que alguém, sendo genial, precise passar pelos tormentos de um sucesso tão predatório. Sempre vi esse desespero no rosto dela e sempre me chocou o apedrejamento da mídia. Desumano.

O Kurt Cobain também sofria, no auge da fama dizia sentir falta de quando era apenas um desconhecido fazendo música na rua – e essa afirmação me parece absolutamente coerente com a alma de um verdadeiro artista.

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E qualquer desatenção, faça não…

“Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água…”

Antropologizando

Pelo que sei, foi o místico persa Djelal Ud-Din Rumi, no séc. XIII, um dos primeiros mestres espirituais — senão o primeiro — a falar de um ponto de vista novo, o da meta-revelação, ao propagar explicitamente a igualdade fundamental subjacente a todas as grandes revelações anteriores ao seu nascimento. Enquanto os sábios dos Upanishades e do Bhagavad Gita, Buda, Zaratustra, Cristo, Maomé revelaram, cada um a seu modo, a verdade divina — e instauraram, com sua revelação, as diferenças entre as religiões como sendo pelo menos diferenças na expressão da verdade –, Rumi teve a revelação de que essas várias revelações eram de fato uma só. Sua percepção, vindo de alguém que pertencia a uma das tradições reveladas (a muçulmana), marcou profundamente o desenvolvimento dos diálogos interreligiosos, sobretudo entre as grandes religiões letradas.

José Jorge de Carvalho em O Encontro de Velhas e Novas Religiões: Esboço de Uma Teoria dos Estilos de Espiritualidade.

Uma viagem indiana à francesa

A viagem de cem passos foi presente de Natal da querida Clau. Nunca tinha ouvido falar no livro, desconhecia o autor e jamais leria se não tivesse parado nas minhas mãos em forma de mimo. Como acredito que os livros nos escolhem, nunca subestimo esse tipo de “encontro”. Desta vez, como em tantas outras, não me decepcionei: um romance gastronômico, ambientado em três diferentes países, agrada em cheio alguém que, como eu, se rende aos prazeres da mesa e aos encantos das viagens, de um modo geral — e que, particularmente, ama a Índia e, por que não dizer, também a França.

Só hoje, depois de ler, dei um google e descobri que a obra já virou filme. Entrou pra minha lista, claro.

Celebração

olivrodosabracosQuando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais.

Eduardo Galeano, no conto Celebração da voz humana/2.

Caio II

o_ovo_apunhaladoPorque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe…

Caio Fernando Abreu no conto Eles.

Caio

morangos_mofadosTão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era…

Caio Fernando Abreu no conto Além do Ponto.

Sobre instinto e vontade

crepusculo-dos-idolos-friedrich-nietzscheTodo e qualquer erro, de toda e qualquer espécie, é a conseqüência de uma degradação do instinto, da desagregação da vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo que é bom é instintivo. – E, conseqüentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés leves são o primeiro atributo da divindade).

Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos.