Começo do fim do mundo: dia 3, fragmento 3

Tu não acha que todo mundo é dôido? Que um só deixa de dôido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor? Ou em horas em que consegue rezar?

Do João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.

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Imagem do filme Sertão: Veredas. Fonte: aqui

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Começo do fim do mundo: dia 2, fragmento 2

O amor e o ódio são apenas dois lados da mesma moeda. Mas com o amor algo trágico aconteceu, e é inimaginável como esse passo drástico foi dado pelas pessoas que tinham as melhores intenções no mundo. Você pode nunca ter suspeitado do que destruiu o amor. Foi o contínuo ensino do amor que o destruiu. O ódio ainda é puro; o amor não é. Quando você odeia, seu ódio tem autenticidade. E quando você ama, é apenas hipocrisia.

Isso tem de ser entendido. Por milhares de anos todas as religiões, os políticos, os pedagogos, têm ensinado uma coisa, e essa coisa é o amor: ame seu inimigo, ame o seu vizinho, ame os seus pais, ame a Deus. Para início de conversa, por que eles começaram essa estranha série de ensinamentos sobre o amor? Porque tinham medo do seu amor autêntico, porque o amor autêntico está além do controle deles. Você é possuído por ele. Você não é o possuidor, você é o possuído, e toda a sociedade quer que você esteja sob controle. A sociedade tem medo da sua natureza selvagem, tem medo da sua naturalidade, e por isso desde o início começa a cortar suas asas. E a coisa mais perigosa que existe dentro de você é a possibilidade do amor; porque se você for possuído pelo amor, pode se colocar contra o mundo todo.

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Para manter uma pessoa sob controle, você tem de criar, desde a mais tenra idade, uma falsa ideia do amor, e insistir nela continuamente, para que a pessoa nunca se torne possuída pelo amor autêntico e nunca enlouqueça; sempre permaneça sã. ‘São’ significa ser um escravo das regras da sociedade; ‘são’ significa ser um seguidor das regras da sociedade.

O amor pode torná-lo rebelde.

O falso amor o torna obediente.
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Desde o início da sua infância ensinaram-no a amar a Deus, a quem você não conhece; não tem nenhuma certeza de que ele existe. O seu amor tem de ser desviado em uma direção absolutamente imaginária; não há realidade correspondente a ela (…) Desde a infância estão desviando o seu amor para dimensões irreais. Uma coisa, que é uma estratégia muito astuta, é dar ao seu amor uma forma, uma determinada direção, que não pode ser cumprida; e, por causa disso, aquilo que pode ser cumprido não lhe será atrativo. Uma pessoa que foi ensinada a amar a Deus vai achar que se ela amar uma mulher ou um homem estará caindo muito baixo.
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Minha mensagem do amor não é a mensagem daquele amor que é o oposto polar do ódio. Minha mensagem de amor é daquele amor que é capaz de absorver o ódio e transformá-lo (…) O mundo pode ficar cheio de amor, do amor sobre o qual estou falando. E só esse amor vai transformar o ódio no mundo — não o amor que lhes foi ensinado. Esse não tornou o mundo mais amoroso, o tornou mais odioso; ele tornou seu ódio mais verdadeiro e mais autêntico, e seu amor mais parecido com uma hipocrisia.

Do Osho, em “Poder, política e mudança”.

Começo do fim do mundo: dia 1, fragmento 1

Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente — o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Do João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.

Amy

Acabei de assistir o documentário sobre a Amy Winehouse. Reforça bem uma impressão que sempre tive: que ela, como tantos outros prodígios, só queria se expressar artisticamente, mas nunca virar celebridade. É muito cruel que alguém, sendo genial, precise passar pelos tormentos de um sucesso tão predatório. Sempre vi esse desespero no rosto dela e sempre me chocou o apedrejamento da mídia. Desumano.

O Kurt Cobain também sofria, no auge da fama dizia sentir falta de quando era apenas um desconhecido fazendo música na rua – e essa afirmação me parece absolutamente coerente com a alma de um verdadeiro artista.

Antropologizando

Pelo que sei, foi o místico persa Djelal Ud-Din Rumi, no séc. XIII, um dos primeiros mestres espirituais — senão o primeiro — a falar de um ponto de vista novo, o da meta-revelação, ao propagar explicitamente a igualdade fundamental subjacente a todas as grandes revelações anteriores ao seu nascimento. Enquanto os sábios dos Upanishades e do Bhagavad Gita, Buda, Zaratustra, Cristo, Maomé revelaram, cada um a seu modo, a verdade divina — e instauraram, com sua revelação, as diferenças entre as religiões como sendo pelo menos diferenças na expressão da verdade –, Rumi teve a revelação de que essas várias revelações eram de fato uma só. Sua percepção, vindo de alguém que pertencia a uma das tradições reveladas (a muçulmana), marcou profundamente o desenvolvimento dos diálogos interreligiosos, sobretudo entre as grandes religiões letradas.

José Jorge de Carvalho em O Encontro de Velhas e Novas Religiões: Esboço de Uma Teoria dos Estilos de Espiritualidade.

Uma viagem indiana à francesa

A viagem de cem passos foi presente de Natal da querida Clau. Nunca tinha ouvido falar no livro, desconhecia o autor e jamais leria se não tivesse parado nas minhas mãos em forma de mimo. Como acredito que os livros nos escolhem, nunca subestimo esse tipo de “encontro”. Desta vez, como em tantas outras, não me decepcionei: um romance gastronômico, ambientado em três diferentes países, agrada em cheio alguém que, como eu, se rende aos prazeres da mesa e aos encantos das viagens, de um modo geral — e que, particularmente, ama a Índia e, por que não dizer, também a França.

Só hoje, depois de ler, dei um google e descobri que a obra já virou filme. Entrou pra minha lista, claro.

Celebração

olivrodosabracosQuando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais.

Eduardo Galeano, no conto Celebração da voz humana/2.