Sobre o que nos faz humanos

Um homem perguntou a um certo mestre indiano como era possível manter valores espirituais e, ao mesmo tempo, ter uma vida material próspera, se muitos dos que conquistam o que se entende por sucesso nos dias de hoje o fazem a partir de estratégias por vezes cruéis.

O mestre concordou que, sim, em um mundo onde, essencialmente, se estimula a competição em vez da cooperação, muitos, para se afirmarem como mais fortes e mais velozes, para ganharem o páreo, se dispõem a muitas coisas.

“Se você quiser competir com um cavalo, vai realmente precisar se tornar um animal e adquirir quatro patas. Mas nada nesse mundo vale o sacrifício de perder a nossa condição humana. Esse é o nosso maior tesouro. Seja humano na sua máxima potência e a prosperidade virá como consequência”.

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Jornalista junguiana

Não sei o que Jung pensava a respeito de jornalismo, mas eu sei que fiz o teste e deu lá: jornalista. Que medo.

O que Jung diria de tantos outros coleguinhas?
Medo. Muito medo…

ENFP – “Journalist”. Uncanny sense of the motivations of others. Life is an exciting drama. 8.1% of total population.

Pequenos engasgados

Os alunos do curso têm muito receio de escrever. Atmosfera estranha… Levei um texto do Ferréz, literatura marginal. Mas antes, pedi que me dissessem o que a palavra “marginal” significava para eles. Rolou uma troca de olhares, quiseram que eu escolhesse outra palavra, se recusaram a responder. E mais troca de olhares… Até que alguns decidiram falar: “Malandragem, bandidagem, tráfico, arma, roubo”, e por aí foi.

Falei do marginal que é o cara que está à margem, antes de ser bandido, malandro e pegar em armas. Eles, então, relaxaram.

Depois de uma atividade lá, cada um fez um texto de 15 linhas. O tema foi “Tenho raiva de…”. Antes de escreverem, perguntaram se leriam em voz alta, se precisariam apresentar pros outros colegas da turma. Respondi que não, eles se sentiram mais confortáveis. A seguir, alguns trechos:

“Tenho raiva de quem não gosta de mim, da Diretora da escola, da criminalidade, da professora de português, do homem que matou meu pai”.
M.S.

“Tenho raiva de bala perdida, porque mata inocentes. Tenho raiva dos políticos que roubam, porque as pessoas não têm dinheiro para gastar com o leite dos filhos, e ainda pagam impostos, e ainda são roubados pelos políticos”.
J.M.

“Eu tenho raiva do meu pai porque ele nunca me deu nada em toda minha vida”.
S.O.

“Tenho raiva de acordar e não ter o que comer
Tenho raiva de tanto que já chorei por medo de dormir e não mais acordar
Tenho raiva porque perdi meu primo no tráfico
Tenho raiva porque não posso voltar atrás do que perdi
A única coisa que tanto tenho raiva de ter é odiar quando simplesmente se quer amar”
M.N.

“Eu tenho raiva dessa pessoa, porque ela é muito folgada.
Quando ela aparece na televisão me dá um ódio; quando ela faz o programa dá vontade de nem escutar a televisão.
Ela é cheia do dinheiro, ela podia parar, descansar.
Não, quer ganhar mais para deixar a sua herança para a sua filha.
Ela faz propaganda de shampoo, ela podia deixar para outra pessoa pobre.
Ela podia dividir o seu dinheiro para as pessoas que passam necessidade.
Me dá uma vontade de xingar, aquela loura falsificada.
O nome dessa pessoa que tanto odeio é a Xuxa. Essa filha da mãe!”
L.R.

Algo sobre muito pouco

Por conta das minhas recentes digestões acerca de overdoses informacionais e da pergunta que finalizou meu último post, decidi falar a respeito daquilo que mais me remete a excesso: falta.

Uma vez me interroguei sobre as três coisas essenciais que me fariam feliz e sem as quais não poderia viver. Pensei em amados amigos (entre os quais incluo os amantes), livros e cinema. Depois disso, fiquei toda prosa de ter conseguido excluir das minhas essencialidades algo tão fundamental quanto viajar, por exemplo. Analisei bem, por fim concluí que dá sim para viver sem as sonhadas andanças, e ainda lembrei da citação budista: “o que não está bom aqui, não estará bom lá”.

Orgulhosa da minha renúncia a “quase todos” os prazeres, caí na besteira de mencionar isso para uma ex-aluna, do tempo das aulas voluntárias de inglês no morro do Preventório. K., daquele jeito meigo dela, me respondeu: “Cinema é legal mesmo! Fui a primeira vez no mês passado!”. Senti muita vontade de chorar por minha falta de sensibilidade. K. contava seus vinte anos na época, o que significa que ela passara duas décadas sem um dos itens da minha fórmula da vida feliz. Nem digo nada sobre livros…

Naquele mesmo dia, por coincidência, ela quis muito conversar. Convidei-a para um lanche, por minha conta, obviamente, mas ela recusou porque precisava preparar o jantar. Ofereci-me para ajudar a fazer o arroz e, com isso, conheci a casa onde ela morava de favor com uma senhora de 70 anos, empregada doméstica desde que tem lembrança, que, como é de se esperar, não tem condições de se aposentar. No lar simples, faltava tudo o que eu nem percebo que tenho. Na minha listinha, eu jamais me lembraria de escrever ‘água encanada’…

Muita gente cansa de ouvir tais histórias, que já viraram banais. Mas é muito diferente ver, vivenciar. Lembrei de um dia, numa festa no Rio Scenarium, de chopp custando 5 reais, em que a Lili abaixou a cabeça na mesa, de tristeza por pensar que nenhum dos alunos dela poderia estar ali, na Lapa antes tão marginal e, por isso, outrora tão “inclusiva”, em certo sentido.

Um dos tantos textos que me chama atenção na Bíblia é um Salmo, em que Deus fala para Davi que a verdadeira paz de uma certa cidade viria com a prosperidade das vizinhas. Sei que não cometo um crime social quando decido assistir a duas sessões de cinema por semana, mas queria muito que meu prazer fosse amplamente compartilhado. O cristianismo tem como símbolo uma mesa de comunhão, onde compartilha-se, antes de mais nada. De pão e vinho; de saciar, mas também de abundância em alegria. Como disse Frei Betto, o ser humano tem fome de pão e de beleza.

Agora, meu contato é com os meninos da Grota que, além de viverem na ausência do básico, como a K. do Preventório, ainda experimentam a violência diária do tráfico de drogas. Na segunda-feira passada, numa dinâmica com a turma, a Lili e eu perguntamos se desejavam um jornal em que eles mesmos pudessem se expressar acerca da realidade que ninguém de fora conhece melhor. Para nossa surpresa, não acham uma boa idéia. “Fotografar e escrever com os caras de fuzil na mão, tia?”.

Minha lista para a felicidade suprema ganhou muitos acréscimos. Acho que nunca serei plenamente feliz, mas minha paz interior guarda uma relação diretamente proporcional à minha capacidade de não me conformar e ao desejo de agir. Enquanto isso, sigo buscando. Há trabalho para duas vidas, mas espero que pelo menos uma valha à pena.