Amy

Acabei de assistir o documentário sobre a Amy Winehouse. Reforça bem uma impressão que sempre tive: que ela, como tantos outros prodígios, só queria se expressar artisticamente, mas nunca virar celebridade. É muito cruel que alguém, sendo genial, precise passar pelos tormentos de um sucesso tão predatório. Sempre vi esse desespero no rosto dela e sempre me chocou o apedrejamento da mídia. Desumano.

O Kurt Cobain também sofria, no auge da fama dizia sentir falta de quando era apenas um desconhecido fazendo música na rua – e essa afirmação me parece absolutamente coerente com a alma de um verdadeiro artista.

As Damas-da-noite

Declaro meu voto para as belas Damas-da-noite.

Porque elas exalam o odor que me encoraja quando o caminho é todo feito de sombras. Perfumam, insistentes, a despeito das trevas que espreitam adiante. Lá, onde gatunos e Excelências pardas conspiram contra qualquer sol que revele suas caras lavadas.

Ah, as despudoradas Damas-da-noite…

Ousam duelar contra o fedor de enxofre que se desprende do altar de deuses podres. E diante de um batalhão de porcos encardidos, oferecem seu perfume em sacrifício e se revestem de armaduras também feitas de flores.

Ah, essas Damas-da-noite e do mundo…

Ave mulheres cheias de asas! São primeiras-damas da vadiagem que, regadas por água de lata, cheiram a luta, se embriagam de rua e trocam as pétalas na Lapa.

Ah, as valentes Damas-da-noite!

Suas sementes voam livres em desacato ao breu da História. Germinam onde restava apagada a esperança e espalham o cheiro doce que anuncia a inevitável luz de um novo dia.

Antropologizando

Pelo que sei, foi o místico persa Djelal Ud-Din Rumi, no séc. XIII, um dos primeiros mestres espirituais — senão o primeiro — a falar de um ponto de vista novo, o da meta-revelação, ao propagar explicitamente a igualdade fundamental subjacente a todas as grandes revelações anteriores ao seu nascimento. Enquanto os sábios dos Upanishades e do Bhagavad Gita, Buda, Zaratustra, Cristo, Maomé revelaram, cada um a seu modo, a verdade divina — e instauraram, com sua revelação, as diferenças entre as religiões como sendo pelo menos diferenças na expressão da verdade –, Rumi teve a revelação de que essas várias revelações eram de fato uma só. Sua percepção, vindo de alguém que pertencia a uma das tradições reveladas (a muçulmana), marcou profundamente o desenvolvimento dos diálogos interreligiosos, sobretudo entre as grandes religiões letradas.

José Jorge de Carvalho em O Encontro de Velhas e Novas Religiões: Esboço de Uma Teoria dos Estilos de Espiritualidade.

Sobre movimento constante, repouso e pistas de equilíbrio

Com alguma frequência, de tanto buscar respostas que só me escapam, apelo para o movimento. Saio à procura de lugares, geográficos ou não, que me propiciem reflexões, aventuras, alternativas, distanciamentos, vertigens, poesias, incômodos ou doses cavalares de desconhecido, pra que eu possa olhar para as velhas questões a partir de novas perspectivas. Dessas experiências mais radicais de cabeça livre, peito aberto e pé na tábua nunca saí de mãos abanando.

Por outro lado, ultimamente venho sentindo com mais intensidade os efeitos do repouso representado pela meditação. Fundamental permitir que, a partir desse suave exercício de quietude, sejam naturalmente catapultados o excesso de bagagem, as carapuças que já não vestem bem e os sapatos apertados que, além de privar nossos pés do solo que nos constitui, só fazem multiplicar dores e calos. A consequência desse não-movimento é abertura de espaço interno para novos pensares, sentires, fazeres e fluíres.

Sobre o Mistério da Santíssima Alteridade

Uma coisa me incomoda em relatos de viagem: a facilidade que muitos demonstram ao descrever lugares, culturas, comportamentos ou mesmo paisagens e comidas estrangeiras. Talvez, no fundo, uma inveja inconfessável defina essa estranheza porque desde a minha primeira vivência fora do Brasil, aos 18 anos, até hoje, aos 34, nunca me abandonou o sentimento de espanto na relação com o Outro. Impressionante como eu, teoricamente íntima das palavras, me vejo outra vez criança, que pasma e silencia diante do que posso chamar de Mistério da Santíssima Alteridade.

Sempre convivi com o desconforto em meio às tentativas de experimentar e descrever algo muito diferente, embora me esforce para que isso pareça natural. Lembro de uma ligação de Skype para a Juliette, ela em Munique e eu aos prantos em Maputo, por achar que tinha quase uma obrigação de escrever e compartilhar minhas experiências (isso no meu oitavo mês de andança pelo mundo, na viagem mais longa que fiz até o momento). No entanto, receava aprisionar o Outro nos meus clichês, ainda que com o salvo-conduto do olhar estrangeiro, e me sentia absolutamente incapaz de disseminar impressões superficiais, apesar da minha licença poética de viajante-desbravadora-corajosa — e provavelmente por não conseguir me ver como essa personagem descolada. A Juliette, a pessoa mais nômade que conheço na vida, que já morou em quase dez países, nunca no seu próprio, justamente ela me entendeu perfeitamente.

Hoje, ainda incapaz de me lançar inadvertidamente no terreno das afirmações e certezas absolutas, me apaziguei em relação às minhas dúvidas e me consolo por saber que neste mundo de informação, de discursos inflamados e de crianças que nascem sabendo, existe ainda muito espaço para questionamentos — felizmente, porque os meus, com o passar dos anos, mais se amontoam do que se esclarecem e é preciso encontrar um lugar para eles. Talvez só agora esteja descobrindo que a grande sacada seja precisamente fazer perguntas — e, claro, o que sempre soube: ouvir pessoas. Porque não pode existir aventura maior que tentar desvendar o Outro (ainda que esse movimento resulte numa descompreensão ainda mais profunda) e, nesse processo, vislumbrar o Mistério que nos constitui.

 

A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

A mulher

Quis confessar várias vezes, mas desistia sempre. Talvez por achar que tudo já estivesse claro e que o óbvio ululava acima de qualquer suspeita.

Nem se faziam necessários grandes poderes de adivinhação: dava pra sacar pelo brilho no olho e pelo coração acelerado. Também pela boca indecisa, perdida com as possibilidades de caminho, sem saber se beijava ou se sorria. Tava lá, revelado em gestos e gemidos, impresso na aflição mal disfarçada de quando se especulou uma despedida.

Crescia, a cada encontro, a vontade de anunciar o que no estômago era frio e no ventre, quente. Mas, até o fechamento desta edição, nenhuma palavra havia sido dita.