E-mail do papai

Enviado no sábado, dia 2 de maio.

Gi,
cadê você?
Já lhe telefonei…Já deixei mensagens no seus celulares
e você nada literalmente(pra não dizer outra coisa)(rsrsrs).
 
Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a
filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno
da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia
da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da
catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário
de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?…
Pois é, já estou bastante imunizado(rsrs) e você bastante adulta
para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha?
 
Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para
que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer
no momento.
 
Estou, daqui a pouco, indo para Rio Preto esperando que por aqui
as coisas fiquem menos pretas(rsrsrs).
Meus telefones de contato:8281-1497 e 7633-0095
 
Um beijo do pai, Artur.

“Gi,

cadê você?

Já lhe telefonei, já deixei mensagens no seus celulares e você nada literalmente (pra não dizer outra coisa). Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?

Pois é, já estou bastante imunizado e você bastante adulta para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha? Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer no momento.

Um beijo do pai,  Artur”

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Álbum de família – parte I

A Dani e eu, há uns seis anos, fizemos o trato de morarmos no mesmo prédio depois de casadas. Dizíamos também que na casa de uma e de outra haveria um quarto de hóspedes e nos revezaríamos nas visitas frequentes. Não me lembro bem, mas acho que a idéia partiu dela, que não gostava de pensar na possibilidade de ficar longe de mim. Apesar da Dani ser quatro anos e meio mais velha, eu a protegia. Ela corria pra minha cama quando tinha pesadelo – ela sempre tinha pesadelo – e muitas vezes cismava de dormir de luz acesa. Quando eu tinha 18 anos, no Kibbutz, recebi uma carta sua que dizia algo como: “agora não tenho mais como pular na sua cama quando sinto medo. Para amenizar a situação, pedi para papai comprar uma lâmpada fraquinha, assim não durmo no escuro. O cara da loja indicou a luz azul pois, segundo a cromoterapia, acalma o bebê. Papai só ficou com vergonha de dizer que o bebê tinha 23 anos”.

Ela sempre se assustava com tudo, via fantasmas. Eu não, era mais deste mundo, então a Dani, quando éramos crianças, tinha que se esforçar muito para me convencer a ficar no banheiro enquanto ela tomava banho – e aqueles banhos demorados que só ela sabe tomar. Ela me enrolava de muitas maneiras e era criativa demais. Primeiro tentou me convencer dizendo que, na minha vez de tomar banho, me esperaria. Mas não colou porque eu nunca sentia medo, logo não precisava do favor. Então passou a me pedir para cantar as musiquinhas que eu havia aprendido na escola, e era um tal de: “repete aquela primeira! Gostei tanto!”, “mais uma vez!”, e assim o banho acabava. Foram muitos os truques, piadas e segredos que ela inventou pra me manter no banheiro durante várias noites da minha infância.

Na verdade, eu sentia medo sim, mas era de umas coisas que ela fazia. Meu irmão do meio e eu muito frequentemente chorávamos depois de brincar de algum jogo de tabuleiro com dados ou roleta. A Dani, na sua vez de jogar, olhava pra gente com um sorriso pavoroso e repetia o número que ela queria: “Seis, seis, seis”. E dava o seis. Na nossa vez, valia a mentalização dela também, mas com objetivo inverso: “um, um, um”. E dava o um. Saíamos choramingando, meu irmão e eu: “Mãaaae! Olha a Dani fazendo macumba!”.

Seus poderes tornaram a minha infância mágica. Eu não podia ver o que minha irmã via, não recebia a visita da dindinha e da vovó mortas, mas imaginava tudo. E ela ainda tinha essa tal de força mental assustadora. Como se não bastasse, era manipuladora e sacana ao extremo. Coitadas das outras crianças, que eram persuadidas a fazer trocas absurdas e perdiam os melhores papéis de carta pra ela. Comiam balas recheadas com pimenta e, sem entender muito bem o que acontecia, ainda pediam mais. Tenho fotos do Artur, meu irmão, vermelho de tanto chorar, aos três anos, com colares enormes, brincos de pressão e uma maquiagem bizarra. Obra de quem?

Artur, sempre o primeiro a dormir e com seu sono pesado, sofria. Não raro acordava aos berros, todo cagado de pasta de dente ou maquiado, ou simplesmente puto pelo sono interrompido depois de horas de cosquinha no nariz feita com o pincel da escola. Óbvio que eu, só por assistir, acabava apanhando no dia seguinte. Na Dani, dois anos mais velha, ele não podia bater.

Como Artur nasceu com problemas respiratórios, a cena dele dormindo era motivo de riso: boca aberta, baba que não acabava mais, ronco. Mas a Dani conseguia transformar em chacota também o momento em que ele acordava. Muitas vezes nós duas ficávamos conversando enquanto ele já estava no décimo sono. De repente abria os olhos e pedia pra apagarmos a luz. A Dani então me cutucava, dava uma risadinha, e começava a falar mais baixo, olhando pra ele: “Ih, olha só! Ele tá sonâmbulo. Vamos tomar cuidado pra ele não despertar”. Artur tentava explicar que já havia acordado e queria apenas que apagássemos a luz. E ela continuava: “Não responde, Gisele, porque pode ser perigoso. Não devemos acordar os sonâmbulos”. E ficavam um tempão nessa até que ele se exaltava: “eu não tô dormindoooo”, e ia reclamar com meus pais.

Sabe-se lá o porquê da Dani nunca receber punição. Acho que meu pai era zen demais e minha mãe muito rude e ingênua pra processar aquelas artimanhas. Ou talvez o código dos pais preveja penas somente para atos de agressão física e não para tortura psicológica mirim.

E eu, pra variar, levava um sacode do Artur no dia seguinte…

(continua no próximo post)

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais entre nós, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei…

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo ausente várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido Seu maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS – Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.