A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

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intensivo

da noite de quarta à noite de quinta fui ao cinema três vezes. “caramelo” + “home” + “a partida“.

noite de quarta, depois do cinema: vinho e jantar com amiga. noite de quinta, antes do cinema: vinho e jantar com outra amiga. aperfeiçoamentos da sexta passada, sem jantar e sem cinema, mas com vinho e amigo.

parafraseando oscar wilde, com liberdade, noites de outono, amigos, cinema e vinho, quem não seria inteiramente feliz?

***

nota: a frase de oscar wilde é: “com liberdade, flores, livros e lua, quem não seria inteiramente feliz?”. quando estive na irlanda, no inverno, lembrei desse fragmento e pensei que não foi por acaso que ele deixou de citar o sol. para alguém que viveu em dublin, londres e paris, incluir o sol na lista seria limitar demais os momentos de felicidade plena.

moral da estória: aprenda a perceber as dádivas ao seu redor e não se fixe nas ausências. alguma coisa sempre falta pra todo mundo. e se você viver o inverno lamentando a falta de calor, vai virar um chato insuportável e, no fim das contas, nem vai notar a chegada da primavera.

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais entre nós, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei…

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo ausente várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido Seu maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS – Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.

Dispersão de público alvo*

Véspera de feriado, quarta-feira com cara de sexta, decido sair com os amigos. Fico na dúvida em relação ao que vestir. Sabe quando mulher quer se sentir bonita? Pois então, ontem parecia ser meu dia. Experimento várias roupas, mas demoro até me dar por satisfeita. Na primeira tentativa, me sinto conservadora. Depois, ousada. Mulher fatal, Lolita. Muito casual, emperiquitada demais. Até que, enfim, me aprovo. Sóbria, de preto, um casaco de uma outra cor para quebrar um pouco. Blusa com decote sutil, bem feminina, nada vulgar. Dou um trato nas madeixas. Pouca maquiagem muito discreta. E pronto.

Saio e espero no local onde passariam para me buscar. Estou eu, maravilhosa, na rua, até que reconheço de longe o carro, que vem encostando, na minha direção. “Chegaram”, penso. Aí, resolvo bancar a engraçadinha: dou uma requebrada, coloco a mão direita na cintura, o dedo esquerdo na boca, faço biquinho e pisco os olhinhos. Sai de dentro do automóvel um cara que nunca vi mais gordo e me diz que me leva pra onde eu quiser. Minha alma se ausenta do meu corpo e volta a tempo de eu pedir desculpas por ter confundido os veículos absolutamente idênticos – e quantos outros não há?

Três minutos depois, entro no carro certo. A noite mal começou e eu já garantindo meu lugar de piada. Tudo bem, afinal, ainda me sinto ótima. Estacionamos, não muito perto, pela dificuldade de encontrar vagas. Começamos a andar, a chuva resolve voltar. Pras cucuias o capricho com os cabelos. Por fim, sentamos num bar e, como está abafado lá dentro, eu, já ligeiramente desgrenhada, tiro o casaco e penso que nem tudo está perdido: resta o meu decote.

Papo vai, papo vem, eu deixo o meu celular na mesa, porque espero uma ligação. Aliás, a ligação já está uma hora atrasada. Por fim, o telefone toca. Ufa! E eu achando que ia levar uma volta. Em cinco minutos ele chega, bêbado, sem a menor capacidade de distinguir o meu decote do avental do garçom. Em compensação, também não pode notar que estou descabelada, com a pouca maquiagem borrada e a calça manchada de molho madeira do filet mignon que devorei enquanto esperava por ele.

Na mesa ao lado, há um grupo de sete, a faixa etária média é de uns 45 anos, mas tem gente de seus 60. Avisto, depois, alguém em torno dos 30. Reparo que não param de me olhar. Será que isso se deve ao fato de eu estar desgrenhada e suja de molho madeira? Que nada. As mesas estão muito próximas, alguém segura no meu braço, sem que seja necessário levantar da cadeira, e me diz, olhando bem pro meu decote: “há, nessa mesa, três pessoas interessadas em você. Por que não nos dá seu telefone?”. Com uma olhada rápida, descubro de onde parte o interesse. Eu nem tinha reparado, mas há dois casais ali. Ou seja, o restante está me querendo.

Solto uma risadinha meio sem jeito, tentando ser simpática, mas não dou o número. Fico bastante impressionada com a ousadia. Perguntam meu nome, eu educadamente respondo, e me viro de novo para escutar o que o meu companheiro bêbado está dizendo, porque ele não pára mais de falar. Dali a três minutos, o pessoal da mesa ao lado me chama outra vez. Pedem licença ao cavalheiro embriagado que me acompanha e me entregam um papel, com quatro números de celular (pelo visto, um dos casais não é tão sério quanto imaginei) e quatro nomes: Sônia, Malu, Beth e Verônica. Junto, um convite para uma festa GLS num clube em Copacabana. Agradeço a gentileza e peço a conta.

O bêbado mora ali por perto, vai andando pra casa, e – que sorte! – eu nem preciso carregá-lo.

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*Repostagem de antigas histórias. “Dispersão de público alvo” foi originalmente publicado no Digerindo…, no dia 26 de maio de 2005.

Carta amiga na véspera de Natal

Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.

Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.

À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.

Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.

Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.

O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.

Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.

Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.

Feliz Natal, amiga. Te amo.