Aída

“Mulher de gosto”, assim sempre diziam. Nesse quesito, Aída, com seu nome de ópera, era unanimidade. Questão congênita:  ainda semente de gente, ingeriu em excesso o líquido amniótico que a envolvia. O incidente deixou sequelas permanentes: nascera com papilas gustativas super desenvolvidas e, assim, foi-lhe conferida a extrema capacidade de degustar tudo na vida.

Bem pequena, Aída  já saboreava auroras orvalhadas na montanha, engolia salgados entardeceres à beira-mar e devorava céus estrelados no campo. Rechonchuda, com cara de sapeca se desculpava por sua mania de comer flores e arrotar vastas pradarias. Caçava borboletas para bebericar as cores. Brincando de comidinha, preparava iguarias. Sua especialidade era o guisado de canto dos passarinhos. Mas, desde a mais tenra idade, seu petisco preferido era mesmo a liberdade.

Adolescente, com o apetite de mundo agigantado por hormônios indomáveis, se empanturrava de nuvens. Mascava a chuva, chupava o sol e se embriagava de lua. Numa noite dessas, trocando as pernas, desenvolveu uma curiosa predileção por abocanhar vaga-lumes. O estranho hábito dividiu opiniões: alguns davam de ombros, pois entendiam a excentricidade como mais um capricho de seu estômago indisciplinado. Outros lançavam o palpite: a menina, ambiciosa, queria iluminar-se pelo avesso. Interpelada a respeito, Aída apenas declarava que, em se tratando de vaga-lumes, era impossível comer só um.

Até que um dia, já adulta, sem querer veio o comedimento. Brotou, infeliz, com a notícia de uma triste partida que, de repente, fez de Aída alguém sem volta. Engasgou-se com a separação fatal e repentina. Incapaz de digerir saudade, perdeu a fome e, em seu lugar, surgiu outra pessoa, perdida e doída. Puída e aturdida. Roída, ferida.

Mas, com o passar do tempo aplacou-se o sofrimento e Aída reaprendeu a degustar, com requinte, o vento. E numa dessas tardes distraídas, ao engolir suaves e inofensivas brisas, sem querer sorveu um doce momento. Ingeriu perdidamente uma paixão flambada que a fez queimar a língua e, na garganta, multiplicar palavras inflamadas. Com ardor no peito e ventre em chamas, ela amou feito o diabo.

E do amor explodiu uma nova Aída, ainda mais faminta de vida…

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Ele (4)

Gosto da linguagem corporal dele. Há elementos óbvios, o mais marcante é o peito sempre aberto, estufado, dando aquele ar de macho-alfa, cheio de atitude. Mas, o que amo mesmo são os detalhes… 

Ele tem um vício de postura, uma mania de se apoiar mais em uma perna que na outra. Gosto de reparar todas as vezes em que ele está assim porque a bunda, linda, ganha um contorno diferente. Quando ele está em pé, distraído, mexendo em peças, ajustando a câmera fotográfica, lavando a louça ou temperando o peixe, aproveito e fico uns bons minutos o observando de costas.

No mais, acho graça porque, com certa frequência, ele emenda dois movimentos: o de olhar no relógio de pulso e, em seguida, o de passar a mão na cabeça, começando pelas entradas. Como se o transcorrer das horas o lembrasse, a cada minuto, de que já não há mais muitos fios de cabelo a perder.

Ele (1)

Gosto dos detalhes. Sou apaixonada pela pinta que ele tem do lado direito do rosto, perto da boca. Vivo um dilema por causa daquela pinta: a maior parte do tempo, ela fica encoberta pela barba que amo. Minha relação com a barba é quase um casamento. Mas todas as vezes que a barba sai e encontro a pinta, tenho vontade de beijá-la. E eu me sinto infiel por isso.

Diálogos

−  Preciso me preservar. Me sinto cansada e cada vez mais descompreendo certas relações utilitaristas. Tive uma epifania, talvez tardia: eu, que já me fiz de guerreira, de santa e de pervertida, entendi, como a mais frágil das fêmeas, que a única forma de existência viável está em não desistir do amor. Viver intensamente, por discursos revolucionários ou experiências libertárias, por si, não basta.

− Também tenho razões para um certo cansaço e ando recusando essas tais relações. Sinto hoje essa necessidade de ser afetado pelo amor. Já me permiti viver, durante muito tempo, relações em que, no fim, tudo o que importava era a sedução. Mas não é possível firmar a existência em bases tão frágeis.

− Me lembra Don Juan…

− Isso. O Camus fala sobre o donjuanismo, sobre esse homem absurdo, esse sedutor vulgar que não acredita no sentido profundo das coisas, que se esvai à medida em que, aos poucos, esgota suas possibilidades e experiências. Percebi que já fiz esse jogo e que, se continuasse, morreria.

− Eu já acho que os sedutores não podem contrariar a própria natureza. A maioria das pessoas quer, em algum momento, e sob certo aspecto, se sentir seduzida. É importante que alguém desempenhe esse papel. Um sedutor que nega a sua natureza, aí sim, provoca incômodo. Conheci uma mulher lindíssima, daquelas que todos notam ao chegar. Quando distraída, e ela era muito distraída, toda a sua beleza era manifesta. Ser sedutora era seu estado natural. Mas bastava que ela se apercebesse de um olhar maravilhado, e era natural as pessoas se maravilharem diante dela, e imediatamente a linguagem de seu corpo, antes mágica e teatral, se retraía: ela encolhia os ombros, baixava a cabeça, media os gestos ou, ainda pior, se infantilizava. Dizia besteiras e, nas conversas, reforçava incapacidades e limitações. Tornava-se, então, uma caricatura. Pude observar essa transformação algumas vezes nos poucos anos que convivemos. Jamais presenciei olhares de reprovação quando ela foi simplesmente o que era: deslumbrante e sedutora. Nunca captei um sentimento de inveja sequer. No entanto, inúmeras vezes testemunhei o desapontamento de muitos que, tendo buscado-a movidos por um desejo de tocar o extraordinário, acabavam se esbarrando nesses ímpetos de inferioridade forçada, nessa necessidade absurda que ela sentia de ser como os demais. Ninguém suportava por muito tempo conviver com essa transformação da mulher sedutora em caricatura. Uma vez seu namorado, confirmando minhas impressões, confessou: “ela não percebe o quão irritante é para todo mundo ver uma Ferrari andando no acostamento a 20 quilômetros por hora”…

− Encontrei o livro do Camus. Vou ler alguns trechos:

“Don Juan domina […] a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de fato, não se trata da mesma coisa[…]

“Ele é um sedutor vulgar. Com uma pequena diferença, a de ser consciente. Por isso é que ele é absurdo. Um sedutor tornado lúcido não mudará por esse fato. Seduzir é o seu estado. Só nos romances é que se muda de estado e as pessoas se tornam melhores. […] Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo […] O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em “colecionar” mulheres. Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Colecionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.

“[…]Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto temos de nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e aqueles que são feitos para amar. […] Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta.

“[…] É outro amor que estremece Don Juan, e esse é libertador. Ele traz consigo todos os rostos do mundo e o seu frêmito vem de ele se saber mortal. Don Juan escolheu não ser nada…”

− Hoje rejeito essa opção por ser nada e também relativizo a liberdade que sempre busquei. Para chegar onde estou, lá atrás elegi minhas referências, meus modelos de homens livres. Mas hoje convivo com esses mesmos homens que  outrora foram meus ídolos e sei de suas vidas particulares. O resultado dessa convivência me fez perceber que eles, hoje, são livres de verdade somente para morrerem na solidão.

− Que bom que você chegou a essa conclusão antes dos 30. Por mais que você tenha vivido muitas coisas cedo demais e conquistado posições importantes tão jovem, ainda tem outros 30 anos pela frente – e talvez esse seja o grande ensinamento desses mestres na sua vida, pois por causa deles, e por observar suas trajetórias que agora te parecem equivocadas, você não lamentará o curso das coisas somente depois dos 70.

− Hoje acho que Nietzsche foi um erro.

− Em que sentido?

− Ele mapeou muito bem tudo isso aqui, entendeu todas as relações e como os fracos são esmagados. Ele achava que, por ter compreendido, dançava acima das tramas humanas, mas ele se enganou.

− Sim, se enganou. Ele não suportou tudo isso que tão bem compreendeu. Eu digo que jamais quereria que minha lucidez me levasse à loucura. Lendo “Assim falou Zaratustra”, um trecho me foi particularmente perturbador. Me impressionou a lucidez como ele apontava isso que você chama de fraquezas humanas, mas pensei que isso não basta – ou basta, sim, para enlouquecer. Depois de ler, e concordar com ele, minha pergunta era: “mas e daí?”. Que me importa catalogar fraquezas, desvios e corrupções humanas e depois, como recompensa por tamanha perspicácia, passar 10 anos vegetando? Curiosamente, só me senti curada desse sentimento perturbador depois da leitura do texto de um religioso.

− Ah, mas nesse sentido o cristianismo tem um papel fundamental. É uma religião em que o lugar de destaque é de um fraco e nele essa humanidade inteira de fracos pode se redimir.

− O religioso em questão não era um cristão, mas um judeu. Ah, não! Por favor, não abra outra garrafa de vinho. Estou com muito sono e, aliás, não quero mais voltar pra casa. Podemos dormir abraçados que nem daquela vez?

− Claro. Amanhã te faço um café que nem daquela vez.

− Só espero que não seja ralo que nem daquela vez…

Esse tal de amor romântico

Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.

Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Quer dizer apenas que eu não sei.

Eu, por mim mesma – Tomo sétimo (e último)

“De todos os santos”

Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.

Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.

Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.

Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.

Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.

Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.

Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.

Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.

Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.

Holandês voador

Tu pouco sabes, desconheces João e Maria
Essa tua boca vazia, sem beijo é banguela
Mãos que nada agarram, pincel nem aquarela
Desta vida nem viu a solidão dos Buendía

Se tuas pernas não correm, como voas para mim?
Não há culpas nos teus atos pueris
Apenas ensaias sorrisos menos que infantis
Aos tropeços te enroscas no calor tupiniquim

Quando chamo, tua resposta é de quem ouve
Bem sei, descobri, minha fala não te diz nada
A menos que nela reconheças a voz da amada
No versículo, teu rosto: Lucas quatro, dez, doze

Com teu corpo enrugado, por favor, venha aqui
De longe, guardo comigo todos os odores
Distante ensaio meus gestos, prevejo tuas cores
É hora, meu amor, de trocar a fralda de pipi