A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

Anúncios

Aída

“Mulher de gosto”, assim sempre diziam. Nesse quesito, Aída, com seu nome de ópera, era unanimidade. Questão congênita:  ainda semente de gente, ingeriu em excesso o líquido amniótico que a envolvia. O incidente deixou sequelas permanentes: nascera com papilas gustativas super desenvolvidas e, assim, foi-lhe conferida a extrema capacidade de degustar tudo na vida.

Bem pequena, Aída  já saboreava auroras orvalhadas na montanha, engolia salgados entardeceres à beira-mar e devorava céus estrelados no campo. Rechonchuda, com cara de sapeca se desculpava por sua mania de comer flores e arrotar vastas pradarias. Caçava borboletas para bebericar as cores. Brincando de comidinha, preparava iguarias. Sua especialidade era o guisado de canto dos passarinhos. Mas, desde a mais tenra idade, seu petisco preferido era mesmo a liberdade.

Adolescente, com o apetite de mundo agigantado por hormônios indomáveis, se empanturrava de nuvens. Mascava a chuva, chupava o sol e se embriagava de lua. Numa noite dessas, trocando as pernas, desenvolveu uma curiosa predileção por abocanhar vaga-lumes. O estranho hábito dividiu opiniões: alguns davam de ombros, pois entendiam a excentricidade como mais um capricho de seu estômago indisciplinado. Outros lançavam o palpite: a menina, ambiciosa, queria iluminar-se pelo avesso. Interpelada a respeito, Aída apenas declarava que, em se tratando de vaga-lumes, era impossível comer só um.

Até que um dia, já adulta, sem querer veio o comedimento. Brotou, infeliz, com a notícia de uma triste partida que, de repente, fez de Aída alguém sem volta. Engasgou-se com a separação fatal e repentina. Incapaz de digerir saudade, perdeu a fome e, em seu lugar, surgiu outra pessoa, perdida e doída. Puída e aturdida. Roída, ferida.

Mas, com o passar do tempo aplacou-se o sofrimento e Aída reaprendeu a degustar, com requinte, o vento. E numa dessas tardes distraídas, ao engolir suaves e inofensivas brisas, sem querer sorveu um doce momento. Ingeriu perdidamente uma paixão flambada que a fez queimar a língua e, na garganta, multiplicar palavras inflamadas. Com ardor no peito e ventre em chamas, ela amou feito o diabo.

E do amor explodiu uma nova Aída, ainda mais faminta de vida…

Itália eterna, comida no ponto e amor maduro

2013 demorou a começar no quesito livros, mas acabo de ler o primeiro título do ano. Mil Dias em Veneza é composto por elementos que obviamente me cativam de cara: descrição de lugares, de pratos e de bebidas típicas.

Imagem

Como os locais descritos são Veneza e, mais para o fim do relato, as paisagens da Toscana, e como se trata da comida e bebida italianas, resumindo, o livro foi um baita golpe baixo pra mim. Neste fim de semana, ele foi devorado, figuradamente, com um apetite equivalente ao que me fez devorar, literalmente, comidas e aperitivos providenciados a partir de buscas desesperadas na despensa e idas urgentes ao mercado para a compra de ítens como anchovas, queijo de cabra e espumante.

O terceiro ingrediente do livro, uma história de amor na meia-idade, repleta de impulsos típicos de quem não tem mais tempo a perder, também provoca seus efeitos no meu coração de trintona que, a cada dia que passa, vai ficando mais menina…

Ele (6)

Nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias, entre as quais se destaca a intimidade com os números. Seu projeto de mestrado arrancou elogios de um renomado matemático búlgaro, o que me enche de orgulho, obviamente. Mas no dia a dia essa habilidade não me favorece. A mania de fazer comparações é, sem dúvida, a parte mais irritante. Uma vez, pedi sua opinião sobre um serviço de Internet móvel. Quando eu disse quanto custava por mês, ele, com aquela cara de quem recebe elogio de matemático búlgaro, me respondeu que a quantia equivalia à prestação de uma moto de 250 cilindradas. Tentei argumentar que eu não precisava de uma moto e sim de Internet – urgentemente! – mas nem assim ele me apoiou.

Outro dia, cansada, reclamei da minha viagem casa-trabalho-casa, que consome cerca de três horas do meu dia. Em vez de me consolar, me aninhar em seus braços e dizer que me ama apesar do meu rosto abatido e do meu mau-humor, ele, com ar de Rei da Bulgária, sugeriu que eu considerasse a possibilidade de morar na região dos lagos ou na região serrana, pois o tempo de deslocamento era o mesmo.

Mas o pior foi o dia em que vesti só pra ele o meu vestido novo. No lugar do elogio que eu tanto esperava, veio a pergunta: “quanto custou?”. Frustrada, e com vontade de torcer o pescoço do primeiro búlgaro que aparecesse na minha frente, ou até de um nepalês, desde que fosse matemático, me limitei a dizer que não havia sido caro. Ele insistiu para saber o preço; eu, por fim, respondi e ele concluiu: “realmente, o vestido não custou caro. As passagens de avião é que estão baratas”.

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Ele (4)

Gosto da linguagem corporal dele. Há elementos óbvios, o mais marcante é o peito sempre aberto, estufado, dando aquele ar de macho-alfa, cheio de atitude. Mas, o que amo mesmo são os detalhes… 

Ele tem um vício de postura, uma mania de se apoiar mais em uma perna que na outra. Gosto de reparar todas as vezes em que ele está assim porque a bunda, linda, ganha um contorno diferente. Quando ele está em pé, distraído, mexendo em peças, ajustando a câmera fotográfica, lavando a louça ou temperando o peixe, aproveito e fico uns bons minutos o observando de costas.

No mais, acho graça porque, com certa frequência, ele emenda dois movimentos: o de olhar no relógio de pulso e, em seguida, o de passar a mão na cabeça, começando pelas entradas. Como se o transcorrer das horas o lembrasse, a cada minuto, de que já não há mais muitos fios de cabelo a perder.

Ele (1)

Gosto dos detalhes. Sou apaixonada pela pinta que ele tem do lado direito do rosto, perto da boca. Vivo um dilema por causa daquela pinta: a maior parte do tempo, ela fica encoberta pela barba que amo. Minha relação com a barba é quase um casamento. Mas todas as vezes que a barba sai e encontro a pinta, tenho vontade de beijá-la. E eu me sinto infiel por isso.

Do que se pode dizer

Achava graça: você me dizia que eu era um desperdício de gente, que tinha uma mania de flanar desgarrada pela vida e que isso, em algum momento, me consumiria. Uma vez cheguei a tentar te esclarecer acerca dos vícios de quem nasce com umas asas meio tortas e um abismo latejando nas veias, mas você me interrompeu para que eu não prosseguisse com minha linguagem cifrada, me aconselhou a desistir de querer salvar o mundo e me esconjurou por crer que meu mal era sentir culpa por existir assim: tão espaçosa, invadindo tudo, derrubando as coisas e fazendo barulho. Eu te ouvia achando graça, pensando na imagem da Alice agigantada saindo pelo teto e pelas janelas de uma daquelas casas do País das Maravilhas.

Você nunca acreditava nos meus mistérios fundamentais, meu mundo era outro do teu e ainda hoje me pergunto em que ponto dessa estrada feliz e errada resolvemos nos dar as mãos, mas sei que funcionou um dia e agora entendi que vai funcionar pra sempre, só que diferente. E achei graça de tudo mais uma vez.