A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

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Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Se vocês passarem pela minha cidade querida e tiverem a oportunidade de visitar um destes lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir, esteja eu onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa.

Uma canção e um brinde aos encontros de beleza

Já experimentei diversas vezes: quando meu coração se enche, eu vazo. Quando tudo o que vejo é beleza, ela toma conta de mim, me provoca santa transfiguração, e salta pelos meus poros e olhos. Então, sou bela. Em dias assim, sei de sentir que beleza está em toda parte, me cabe estender a mão e colher. Todo mundo tem botãozinho, em algum canto da alma, que aciona mundos e pessoas, faz espalhar encantos, e é por isso que o universo sempre acaba recebendo esses respingos dos poros alheios, de beleza suada, transpirada.

Em Londres eu já confirmara que qualquer pessoa, independente de suas raízes e cultura, é sensível à essa beleza universal que faz bolha na pele. Várias vezes me pararam na rua. Em uma manhã ensolarada, de caminhada no Hyde Park, depois de já haver matado a curiosidade de bem uns três transeuntes em relação à minha origem, dois portugueses vieram na minha direção e, quando nos cruzamos, disseram: “você é do Brasil, não é?”. Cinco minutos de conversa e na despedida um curioso comentário: “você tem uma boa aura”.

Ontem, e também no dia anterior, eu era bela. Novamente as pessoas na rua, aqui em Amsterdam, suas palavras e sorrisos pra mim, atestavam o meu estado de espírito. Percebi isso primeiro no tram, no meu caminho da Centraal Station para a Museumplein, e depois no Vondel Park, aonde fui com o intuito de esvaziar um pouco a alma – sentar, pensar e talvez escrever – depois que saí do Museu do Van Gogh com sensações díspares, absolutamente complementares, na verdade: atordoada e cheia de vida, eu diria. E impregnada daquelas cores.

Enquanto eu escrevia algumas linhas, tentando adivinhar o que pensaria o holandês na minha frente, atado à grama por uma moribunda nesga de sol, vi que as pessoas que passavam me olhavam com uma curiosidade simpática. As velhinhas me lançavam sorrisos e olhares singelos e, percebi protegida pelas lentes dos meus óculos escuros!, o holandês atado à grama talvez também tentasse adivinhar o que eu pensava e escrevia, porque suas espiadelas discretas se seguiram mesmo depois que a nesga de sol se fora. Era um homem bonito – o que não costumo ver por aqui, discorde quem queira – e quando se levantou para ir embora, já sem sombra de nesga de sol na grama, como as velhinhas ele também me sorriu, o que me deixou desconsertada, mais ainda porque depois olhei pra trás e ele continuava me observando, e riu de verdade por flagrar o meu olhar curioso – denunciado, apesar das lentes dos meus óculos escuros.

Minutos após e um homem pediu licença para sentar do meu lado, com sua lata de cerveja e seu cigarro feito, no banco que eu ocupava inteiro sem cerimônia, porque eu estava exatamente no meio, com as pernas cruzadas, de índio (que nostalgia me provoca essa expressão da minha infância…). Abri espaço, ele puxou assunto e então falamos por uns 30 minutos. Era um homem inteligente, com uma visão de mundo interessante e crítica. Cumprimentou diversas pessoas enquanto estive ali e afirmava que Amsterdam não passava de uma vila. Ninguém parecia se importar com seus dedos amarelados de fumo, os dentes escurecidos e não exatamente apresentáveis, o sobretudo desalinhado, calça jeans suja, sapatos gastos e os cabelos loiros compridos desgranhados e ensebados. Tampouco eu me importei. Respondi amigavelmente à sua primeira frase, não julguei que fosse um bêbado sujo, mas admito que sua aparência me despertou uma certa curiosidade. Um cidadão de um país rico, cujo governo oferece tudo, boa educação, saúde, trabalho, e parece que há tempos ele perdeu o interesse por escovar os dentes.

Depois de me despedir com a desculpa de que já estava tarde, ainda me demorei caminhando no parque que escurecia às oito da noite, feliz porque o ambiente agora me parecia tão familiar, ao mesmo tempo que surpresa por tal constatação. Nos últimos dias tenho deixado a bicicleta de lado e optado pelas caminhadas. Percebo melhor a cidade assim, compreendo melhor as direções, sentidos e distâncias, e eu precisava disso pra me sentir mais em casa.

Saí do parque já noite, segui em direção à Leidseplein e tinha a intenção de caminhar mais, até a Centraal Station, onde tomaria o ônibus para Amsterdam Norte. O movimento da Leidseplein na noite de terça-feira me atraiu para as ruas adjacentes, perambulei um pouco e, quando eu já estava decidida a continuar meu percurso, dois homens na porta de um restaurante espanhol, onde um cartaz anunciava música ao vivo, me perguntaram se eu era brasileira. O gordo careca de óculos com cara de bonachão, um uruguaio que vive em Amsterdam há 24 anos, era o artista, o cantor do bar espanhol. O outro, o garçom, mineiríssimo, ficou feliz de receber uma compatriota e me trouxe uma cerveja sem que eu pedisse. Os dois me convidaram para experimentar o camarãozinho frito especialidade da casa, preparado pelo jovem espanhol Josesito, e conversar um pouco, esperançosos, segundo me disseram, de que a presença brasileira alegraria o ambiente tedioso que estivera vazio, sem clientes o dia inteiro. Aprendizado da viagem à Israel: latinos costumam se alegrar com esses encontros em países de cultura tão diferente, percebem essa irmandade, tão óbvia e tão invisível quando estamos enclausurados em nossas “fronteiras fictícias”, para usar as palavras do comandante Che.

Minutos de conversa animada na parte de fora do restaurante, perto da rua; eu inicialmente vacilante com o meu espanhol adormecido, mas pouco depois já muito confortável com o meu amigo uruguaio, que estava à toa por ausência de platéia. Logo, com tantos turistas passando, e talvez nos olhando com aquela mesma curiosidade que eu observara no Vondel Park horas antes, o uruguaio começou a chamar os que passavam, e com isso os cativava, e o restaurante foi ficando mais cheio. Primeiro o grupo das Filipinas, depois o casal de ingleses, e então todas aquelas senhoras da Lituânia. O meu amigo uruguaio, Kiko, já revigorado, reassumiu seu posto de artista e, com o seu violão, fazia graça para o público, que não entendia suas palavras castellanas. Kiko improvisava canções, cantava como repentista, falava da nova amiga brasileira sentada no lado de fora. Agradava aos clientes, apesar do fato de que estes pediam canções que ele nunca sabia tocar.

Certa hora, ele anunciou minha presença em inglês e disse que a brasileira cantaria uma música. Não recuei: me aproximei e, para a surpresa de Kiko, ainda peguei o violão, muito nervosa, por tocar muito mal e não lembrar de nada de cabeça. “Certas histórias não podem ser perdidas”, pensei. Josesito abriu um sorriso e me trouxe mais uma cerveja. Ele e o mineiro não deixaram meu copo vazio, era o sexto ou sétimo chope, de acordo com os meus cálculos entorpecidos. E então, pra completar, entraram duas paulistas no restaurante e se dispuseram a fazer coro comigo. Respirei fundo e disse à minha platéia que levaria a versão brasileira de “No woman, no cry”, do ilustríssimo ministro da cultura Gilberto Gil. E assim fiz… Meu amigo uruguaio se empolgou, um americano na porta reconheceu a melodia e se aproximou. No final, aplausos da platéia, restrita mas satisfeita, que pediu bis. O americano elogiou a minha voz e eu gargalhei por dentro. As duas paulistas pareciam não acreditar. Sim, compartilhamos um momento inusitado e inesquecível.

Hora de ir embora, pedi a conta, no que Kiko e Josesito rebateram: “Que conta, brasileña? Você foi nossa convidada. E ainda cantou!”. Minha voz rouca e os dedos desajeitados nas cordas do violão me garantiram o petisco e muita cerveja de graça. Ainda mais essa…

Me despedi de Kiko, de Josesito e do mineiro, e aceitei o convite empolgado das meninas para acompanhá-las no bar que fica logo em frente, o Bourbon Street. Não me demorei, apesar da música boa, da bandinha bacana tocando rock. Um paulista, amigo delas, depois de ouvir os relatos da noite, lamentou por não ter presenciado o espetáculo de minutos antes e disse que eu tinha uma “energia boa, uma espontaneidade bonita e um brilho diferente nos olhos”.

Esperando o ônibus na estação, repassei a noite feliz na minha cabeça, que terminou só depois de uma derradeira conversa: com o motorista do Suriname que me contou histórias sobre o seu país, falou da vida em Asmterdam, onde mora há 30 anos, e dos planos de voltar para a terra nos trópicos, vizinha tão desconhecida pra mim. Às quase três da manhã cheguei ao meu destino, ele me agradeceu pelo papo da madrugada e se despediu contando que saiu de casa com um sensação boa que agora se explicava: “eu sabia que ia te encontrar”.

Amém para todos os encontros que se dão nesse universo cheio de beleza.