Um desejo de estrada sem fim

Vou te contar meu segredo maior: escrevo para esquecer. Funciona assim: derramo palavras para dissipar sentimentos. Hoje, finalmente lanço mão do velho feitiço porque já não posso permitir que você colonize assim o meu espírito.

Admito o olfato viciado e confesso que meu paladar anda alterado, mas preciso me livrar da necessidade de te procurar em cheiros e gostos, porque afinal você nunca está. Ou está onde não deveria: entranhado em mim.

A marca da tua mão permanece no meu quadril, a gota do teu suor ainda evapora na minha pele e, por mais que meu corpo lute para te expelir, você ainda está todo aqui. É por isso que vivo precisando te esconder de quem quer que se aproxime um pouco mais – e ando cansada dessa necessidade de mentir o tempo inteiro.

Porque sim, eu minto. Descaradamente. Quando me vejo diante de novos olhares, bate uma saudade tão grande de você que minto pra me proteger. Finjo que meu desespero é encantamento e esse enjôo no estômago, pura excitação.

Mas fora de mim, você nunca está. Sei muito bem disso porque faz tempo que te procuro naquelas ruas que um dia pareciam só nossas, lembra? Tínhamos aquela mania de, na volta pra casa, seguir sempre o caminho mais longo, em vez de optarmos por uma simples reta. Abandonávamos a rua principal por uma das transversais e, chegando na paralela seguinte, logo entrávamos na transversal adiante para, só então, retomarmos o trajeto. Tudo com o objetivo de adiar, o quanto fosse possível, o término da conversa e evitar a bifurcação que, irremediavelmente, por fim nos separava.

De todas as lembranças, resta entre as mais singelas a sensação feliz daqueles dias em que juntos perdíamos o rumo. Confesso que, de vez em quando, percorro aquelas mesmas ruas e, então, o desejo de outros tempos se repete: caminhar do teu lado numa estrada sem fim, onde tua presença, teu sorriso e tuas histórias nunca cessam.

Aída

“Mulher de gosto”, assim sempre diziam. Nesse quesito, Aída, com seu nome de ópera, era unanimidade. Questão congênita:  ainda semente de gente, ingeriu em excesso o líquido amniótico que a envolvia. O incidente deixou sequelas permanentes: nascera com papilas gustativas super desenvolvidas e, assim, foi-lhe conferida a extrema capacidade de degustar tudo na vida.

Bem pequena, Aída  já saboreava auroras orvalhadas na montanha, engolia salgados entardeceres à beira-mar e devorava céus estrelados no campo. Rechonchuda, com cara de sapeca se desculpava por sua mania de comer flores e arrotar vastas pradarias. Caçava borboletas para bebericar as cores. Brincando de comidinha, preparava iguarias. Sua especialidade era o guisado de canto dos passarinhos. Mas, desde a mais tenra idade, seu petisco preferido era mesmo a liberdade.

Adolescente, com o apetite de mundo agigantado por hormônios indomáveis, se empanturrava de nuvens. Mascava a chuva, chupava o sol e se embriagava de lua. Numa noite dessas, trocando as pernas, desenvolveu uma curiosa predileção por abocanhar vaga-lumes. O estranho hábito dividiu opiniões: alguns davam de ombros, pois entendiam a excentricidade como mais um capricho de seu estômago indisciplinado. Outros lançavam o palpite: a menina, ambiciosa, queria iluminar-se pelo avesso. Interpelada a respeito, Aída apenas declarava que, em se tratando de vaga-lumes, era impossível comer só um.

Até que um dia, já adulta, sem querer veio o comedimento. Brotou, infeliz, com a notícia de uma triste partida que, de repente, fez de Aída alguém sem volta. Engasgou-se com a separação fatal e repentina. Incapaz de digerir saudade, perdeu a fome e, em seu lugar, surgiu outra pessoa, perdida e doída. Puída e aturdida. Roída, ferida.

Mas, com o passar do tempo aplacou-se o sofrimento e Aída reaprendeu a degustar, com requinte, o vento. E numa dessas tardes distraídas, ao engolir suaves e inofensivas brisas, sem querer sorveu um doce momento. Ingeriu perdidamente uma paixão flambada que a fez queimar a língua e, na garganta, multiplicar palavras inflamadas. Com ardor no peito e ventre em chamas, ela amou feito o diabo.

E do amor explodiu uma nova Aída, ainda mais faminta de vida…

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Quando o barro não se fez carne*

Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de trapo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.


* publicado aqui em 26/03/2009

E-mail do papai

Enviado no sábado, dia 2 de maio.

Gi,
cadê você?
Já lhe telefonei…Já deixei mensagens no seus celulares
e você nada literalmente(pra não dizer outra coisa)(rsrsrs).
 
Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a
filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno
da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia
da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da
catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário
de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?…
Pois é, já estou bastante imunizado(rsrs) e você bastante adulta
para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha?
 
Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para
que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer
no momento.
 
Estou, daqui a pouco, indo para Rio Preto esperando que por aqui
as coisas fiquem menos pretas(rsrsrs).
Meus telefones de contato:8281-1497 e 7633-0095
 
Um beijo do pai, Artur.

“Gi,

cadê você?

Já lhe telefonei, já deixei mensagens no seus celulares e você nada literalmente (pra não dizer outra coisa). Foi-se o tempo que o papai ficava desesperado quando a filha possuída da síndrome da invisibilidade ou do fenômeno da desmaterialização do seu próprio corpo físico desaparecia da frente dele e só era encontrada minutos depois atrás da catraca da roleta do Metrô, debaixo da mesa de um funcionário de um Banco ou numa festa infantil estranha, lembra?

Pois é, já estou bastante imunizado e você bastante adulta para lidar com seus próprios fenômenos paranormais, não acha? Por via das dúvidas estarei rezando e pedindo a Deus para que nada de ruim tenha lhe acontecido.  É só o que posso fazer no momento.

Um beijo do pai,  Artur”

28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)

Quando o barro não se fez carne

Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de andrajo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.

Esse tal de amor romântico

Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.

Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Quer dizer apenas que eu não sei.

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais entre nós, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei…

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo ausente várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido Seu maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS – Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.