Estória de uma vida destrambelhada e descabida

Bela M. sofria de estreitamento da visão periférica e aprofundamento do olhar perdido, por isso esbarrava nas pessoas e atropelava as coisas. Às vezes não ouvia e muito calava. Mas, com seu jeito desencontrado, sempre se achava.

Desembestada e descabida, andava na rua franzindo o cenho e falando sozinha, uns dias sorria, em outros até gesticulava. Não era de se entristecer, mas, para se manter afinada com suas sensações, de quando em quando chorava escondida, com direito a beiço e soluço, mãos nas têmporas e maquiagem borrada, peito arfante e cara amassada.  De repente, encontrava nova esperança, enxugava o rosto e seguia do seu jeito, sempre ensimesmada, meio boba e pra lá de distraída.

Era mais um belo dia de Bela M., ensolarado e dolorido de tanta luz a iluminar seus escondidos brilhos. Foi quando ela se deu conta de que andara sonhando em demasia e resolveu buscar a cura para seu olhar extraviado. Decidiu buscar respostas e soluções, mergulhou em si, afogou-se e desfaleceu, sufocou e morreu. E como sabia muito bem ressuscitar, voltou a vagar pelo mundo, destrambelhada e decidida, cheia da nova vida.

Conto do prazer em mi

Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.

Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.

A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.

Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.

Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.