28 dias de café – parte 10: “Quando a gente vive é mais fácil teorizar”

Naqueles meses de primavera e verão que passei no Kibutz, com freqüência eu deixava de sair na sexta-feira à noite para acordar cedo no sábado, pegar minha bicicleta, ir à praia e voltar somente no fim da tarde. Lembrando agora, o aspecto mais interessante desse hábito é que ele causava estranheza nos que recebiam notícias minhas no Brasil. A idéia de muitos era que  Israel não passava de um grande deserto. De um modo geral, as pessoas não tinham em mente, por exemplo, a imagem da praia de Tel Aviv, cujo calçadão foi inspirado no de Copacabana.

Essa constatação, essa visão restrita dava uma dimensão do efeito da cobertura jornalística. A avidez por notícias de guerras e atentados, a massificação de imagens fechadas nas tragédias fazia evaporar outras referências muito mais antigas. Assim, pessoas sempre tão “informadas” sobre Israel permaneciam ignorantes em relação a aspectos básicos da geografia desse país minúsculo espremido entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho que, numa das passagens bíblicas mais conhecidas do mundo cristão, o Deus do antigo testamento abriu para o povo hebreu passar.

Apaixonados pelo consumo dos corpos

Faz um tempinho desde a última vez que me apaixonei. Tudo começou na quarta-feira seguinte ao dia de Santo Antônio, que no ano passado caiu num domingo. Não tenho muita intimidade com a tradição católica, o que é uma pena. Mas meu pai, que sabe da vida de todos os santos, não perdeu a oportunidade de me dar um pãozinho de Santo Antônio, para ver se o casamenteiro lá dava um jeito na minha solteirice.

Naquela quarta-feira, eu estava na sala de reuniões quando alguém chegou no escritório. Pela porta de vidro translúcido, vi que era um estranho, ninguém da equipe. Quer dizer, estranho para mim, porque vi também que ele começou a conversar com a minha chefa, deixando as cadeiras de lado e sentando em uma das mesas. Achei aquilo esquisito, tanta intimidade num ambiente tão formal, com alguém mais formal ainda.

Intrigada, continuei prestando atenção. Claro que não dava pra ouvir nada, nem pra ver direito, só uma silhueta. E nessa de observar a silhueta, achei interessante os gestos dele, a maneira de mexer as mãos, de virar o rosto, que era, até aquele momento, nada além de um borrão. Eu tenho mesmo dessas coisas. Com a minha miopia aprendi a não depender tanto da imagem em si, porque o movimento das pessoas pode ser uma boa pista, talvez ainda mais marcante, mais incontestável.

Restava saber como era o rosto, porque também sou fascinada por detalhes, e costumo me saber gostando por causa de sorrisos e de olhares. Antes que eu pudesse descobrir por conta própria, Naná, a moça que servia o café, veio da cozinha, passou pela “silhueta” e entrou com a bandeja na sala de reuniões. Olhei para ela e em dois segundos entendi que o estranho, e pelo visto não só a silhueta, tinha agradado a mais alguém. Naná chegou pertinho de mim, na hora que estava colocando café na minha xícara, e falou, baixinho, pra ninguém ouvir nem perceber: “Mona, que bofe…”.

Afinal, soube que o “bofe” era filho do dono da empresa. Acabara de chegar dos Estados Unidos, de Harvard, mais especificamente. Voltei para minha mesa, ele veio se apresentar. Foi só o cara virar as costas para eu escrever um e-mail: “Amiga, acho que o pãozinho de Santo Antônio funciona. Conheci o homem da minha vida: interessante, gato, usa o 212 da Carolina Herrera. Se veste bem, é descolado, estiloso, não é do tipo formal. O único problema é que tem uma pós-graduação em Harvard, o que agiganta as chances dele ser um grande pela-saco. Mas acho melhor não exigir muito do Santo, que, estou sentindo, resolveu caprichar…”.

Ele estava trabalhando em um projeto grande e, enquanto não tinha um escritório próprio, ficou usando o do pai. Daí, veio um convívio quase que diário, apesar de bem tímido. E eu, que tinha passado os seis meses anteriores de luto pelo término de uma relação falida, comemorei cada friozinho na barriga nas vezes que ele vinha na minha mesa puxar assunto. Indícios, finalmente, da minha libertação do passado recente.

Foram meses até que, por fim, marcamos um chope. Mas, com imprevistos e compromissos dos dois lados, só conseguimos nos encontrar depois de mais uns tantos meses, quando fui trabalhar em outro lugar e fiquei mais à vontade, porque sair com filho do chefão é muita furada. Com isso, se nos conhecemos naquela quarta-feira de junho, o primeiro encontro mesmo foi só no princípio de outubro. E eu já estava muito feliz, por tudo o que aquilo representava, pelos sopros de novidade no meu coraçãozinho cansado, pela camaradagem de Santo Antônio…

Com tantas expectativas, obviamente unilaterais, no dia do chope me vi diante de um desconhecido numa mesa de bar. O papo até que interessante, mas ele com um ar de superior que não se desfez um minuto sequer. Passada meia-hora, ele resolve me dizer que sou muito conservadora. A observação não tinha qualquer conexão com o assunto. E continuou: “Pelo seu modo de falar, de olhar, de segurar o copo, de se vestir, vejo que é conservadora”. Como não entendi de onde vinha a idéia, caí na besteira de perguntar. Ele, sem me responder, antes me testou: “Se não é conservadora, vamos pedir a conta e ir para um motel, agora!”.

Levei uns minutos para realizar as coisas. Nós não tínhamos sequer nos beijado. Aliás, mal tínhamos encostado um no outro, e mesmo assim só quando nos cumprimentamos. Fiquei olhando para aquele homem, que desde os últimos meses até aquele preciso momento tinha sido dono exclusivo dos meus suspiros. E pensei: “Diabos! Esse Santo Antonio me sacaneou!”.

Foi só falar o nome do coisa-ruim e uma Serpente que nem vi me empurrou uma maçã goela abaixo e acabou com todo o resto de paraíso. O candidato a homem da minha vida era um playboy carioca zona sul, riquinho, de família importante, talvez por isso mesmo idiota e arrogante. E agora ninguém mais desfaria a minha idéia de que o bofe tinha fimose, atrofia peniana e sofria de ejaculação precoce, e que tudo isso junto fez muito mal para as cabeças dele.

Ele ainda me perguntou por que recusei o convite. Disse só que não era a favor de sexo no primeiro encontro, e fomos embora. Ainda nos beijamos, acredite quem quiser, porque eu quase duvido que fiz isso. Talvez porque eu estivesse mesmo inconformada, tentando dar um voto de confiança pro desgraçado do Santo Antônio.

Hoje, acho que ele teve uma função importante na minha vida. Por me ajudar, indiretamente, a constatar que eu estava curada das minhas mazelas irremediáveis, já foi bom. Mas nunca mais nos vimos. Há dois meses, ele ainda me ligou para dizer que estava no Rio e para contar que tinha sido indicado para um cargo político. No início de fevereiro, ele foi empossado, e por conta disso ainda vi a cara dele, mas só nas fotos das matérias dos jornais. Ele continua bonito, mas, para mim, também continua com fimose, atrofia peniana e ejaculação precoce. Porque minha imaginação cria verdades de todos os tipos, mas as mais convincentes são aquelas ditas mais de uma vez…

Por conta das recentes matérias nos jornais, fiquei pensando na proposta dele e na razão da minha recusa. Não é simplesmente por conservadorismo que não concordo com sexo no primeiro encontro. É mais porque penso no sexo como uma brincadeira mágica, gostosa, leve, mas também tão intensa que não dá para brincar com qualquer um. Senão perde a graça, perde o gozo e, depois, nem adianta procurar. Porque não é que nem pique-esconde, e nem todo companheiro de brincadeira pergunta se “pode ir” depois de contar até três mil e seiscentos.

Acho que todo mundo deveria tentar criar relações minimamente significantes antes de querer fazer sexo. Porque aí sim há chances de existir a vontade de descoberta, o desejo de brincar de adivinhação. De cabra-cega e de pega-pega, com prazer de verdade. É só criança infeliz que, tendo mil brinquedos, vive triste e enjoada com todos, e fica sempre querendo ter mais. E como tem sempre alguém para dar tudo mesmo, nunca sobra nada para desejar, nem realidades fantásticas para criar.

Aprendemos certas lógicas utilitaristas desde pequenos. É por isso que sexo, nesse nosso mundinho consumista, parece que virou prestação de serviço. Eu prefiro continuar pensando nos meus modelos antigos de socialização de sonhos e de brincadeiras. Mas quem quiser seguir a linha de produção, que vá em frente, mas também aceite ser sempre trocado, porque defeito de fabricação e de uso inadequado é o que mais todo mundo tem.

Aliás, deixa eu parar por aqui. Acabo de me lembrar que tenho que ligar para o Procon…