Sobre mapas, trilhas e a criação de novos rumos

Eu realmente gosto de métodos. Podem me chamar de virginiana clichê, mas se tem algo que considero um desperdício de vida é bater cabeça tentando desbravar caminhos que já foram pra lá de sinalizados e demarcados. Às vezes me pergunto se não há nisso um traço cultural forte: somos bons de improviso, por que enrigecer nossa ginga com regras? Pois dou um bom motivo: eu, que nem Raulzito, tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aqui parada.

Entre as contribuições que gostaria de dar – ao mundo, aos jovens, sei lá – uma delas seria mapear todas as trilhas que abri na faca e falar: vai, moço ou moça, siga a partir daí, encontre seu próprio Paraíso, e não esqueça de pavimentar a estrada pro próximo. Porque é legal criar, mas sempre considerando o que já foi feito.

#ficaadica

A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

Um pouco de música e chão para existências desviadas

Ontem à noite, precisei interromper minha leitura por conta de uma sublime perturbação: fiquei emocionada com a música que estava tocando na rádio. Confesso que tenho esses arroubos, que mesmo nos momentos mais espinhosos, nas fases menos poéticas da minha vida, minha sensibilidade sempre abana o rabo diante de qualquer osso, qualquer farejar do belo. E pensei de novo nessa culpa cristã que sinto de preencher mais meus dias com beleza.

Escolhi uma forma, digamos, mais política de atuar no mundo, moldei um caminho profissional a partir do pressuposto de que existia muito a ser feito e aperfeiçoado, mais que isso: que transformações profundas eram/são necessárias. Não havia, portanto, tempo a perder com miudezas.

Mas meu coração, afeito a travessuras, sempre me dá rasteiras que me devolvem ao chão, me fazem sentir o cheiro e o gosto do solo que me constitui. E me lembro que humildade vem de humus — trata-se da capacidade de ser terra, chão, raiz — e que arrogância é imaginar ser possível tornar-se o que não se é.

Metapalavragens para aliviar a alma

Faz tempo que tento resolver um dilema. Sinto uma falta absurda de escrever. De experimentar outra vez a vertigem viciante que só as palavras me causam. Sem compromisso ou preocupação com o fato de ser lida ou não. Quero escrever porque preciso. E ponto.

Por outro lado, eu, que me criei numa era pré-Facebook, vejo nas redes sociais um constante desestímulo. Na minha época, quando comecei o primeiro blog, definitivamente não era assim. Agora, é muita gente falando demais, dando opinião sobre tudo, compartilhando sentimentos e necessidades fisiológicas com a mesma intensidade, e isso provoca em mim uma radical reverência ao silêncio. Ao calar das bocas e dos dedos. Mas, cada vez que penso em escrever um texto, e me lembro que, hoje, escrever significa, também, compartilhar, me vem a pergunta: pra quê isso? Que diferença faz? E penso que, talvez, eu contribua mais se me recolher e ouvir.

A verdade – e concluí isso recentemente – é que me sinto absurdamente desconfortável nesse mundo do escrever para compartilhar no Facebook. “Deus come escondido, e o diabo sai por toda a parte lambendo o prato”, dizia o velho Guimarães no Grande Sertão. Entendi que não quero enfiar as minhas palavras goela abaixo – ou timeline acima – de quem quer que seja. Pode parecer estranho que alguém como eu, que amadureceu tanto a escrita por meio de um blog, venha a sentir esse desconforto retrógrado com a ideia da exposição nas redes sociais. Mas não vou mais lutar contra isso. Só sei que é assim.

Do habitat por vezes antinatural

Faz quase um ano que não escrevo aqui. O último texto publiquei duas semanas antes de voltar para o Brasil, logo após ter aceitado a proposta inesperada da minha ex-atual-supervisora, que me convidou para reassumir meu posto nove meses depois do meu pedido de demissão. Como o motivo da minha demissão fora simplesmente a vontade de viajar por aí por tempo indeterminado, as portas, que não fechei, de repente se arreganharam na hora certa.

Era mesmo a hora certa. Por mais que ame viajar, que seja viciada nos incômodos, alegrias e vertigens proporcionados pela condição de estrangeira, chega uma hora em que é necessário parar e permitir que as experiências se sedimentem. E, no fim das contas, acho que só quando se volta pro lugar de sempre, pro habitat natural, pra zona de conforto, é que se percebe o quanto tanta coisa mudou pra sempre, irremediavelmente.

Ele (4)

Gosto da linguagem corporal dele. Há elementos óbvios, o mais marcante é o peito sempre aberto, estufado, dando aquele ar de macho-alfa, cheio de atitude. Mas, o que amo mesmo são os detalhes… 

Ele tem um vício de postura, uma mania de se apoiar mais em uma perna que na outra. Gosto de reparar todas as vezes em que ele está assim porque a bunda, linda, ganha um contorno diferente. Quando ele está em pé, distraído, mexendo em peças, ajustando a câmera fotográfica, lavando a louça ou temperando o peixe, aproveito e fico uns bons minutos o observando de costas.

No mais, acho graça porque, com certa frequência, ele emenda dois movimentos: o de olhar no relógio de pulso e, em seguida, o de passar a mão na cabeça, começando pelas entradas. Como se o transcorrer das horas o lembrasse, a cada minuto, de que já não há mais muitos fios de cabelo a perder.

Ele (1)

Gosto dos detalhes. Sou apaixonada pela pinta que ele tem do lado direito do rosto, perto da boca. Vivo um dilema por causa daquela pinta: a maior parte do tempo, ela fica encoberta pela barba que amo. Minha relação com a barba é quase um casamento. Mas todas as vezes que a barba sai e encontro a pinta, tenho vontade de beijá-la. E eu me sinto infiel por isso.

28 dias de café – parte 10: “Quando a gente vive é mais fácil teorizar”

Naqueles meses de primavera e verão que passei no Kibutz, com freqüência eu deixava de sair na sexta-feira à noite para acordar cedo no sábado, pegar minha bicicleta, ir à praia e voltar somente no fim da tarde. Lembrando agora, o aspecto mais interessante desse hábito é que ele causava estranheza nos que recebiam notícias minhas no Brasil. A idéia de muitos era que  Israel não passava de um grande deserto. De um modo geral, as pessoas não tinham em mente, por exemplo, a imagem da praia de Tel Aviv, cujo calçadão foi inspirado no de Copacabana.

Essa constatação, essa visão restrita dava uma dimensão do efeito da cobertura jornalística. A avidez por notícias de guerras e atentados, a massificação de imagens fechadas nas tragédias fazia evaporar outras referências muito mais antigas. Assim, pessoas sempre tão “informadas” sobre Israel permaneciam ignorantes em relação a aspectos básicos da geografia desse país minúsculo espremido entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho que, numa das passagens bíblicas mais conhecidas do mundo cristão, o Deus do antigo testamento abriu para o povo hebreu passar.