Contos de redação – Parte 2

O meu trabalho me permitia alimentar os vícios prediletos: olhar para as pessoas sem que me notassem e ouvir conversas alheias de forma insuspeita. Alguns rostos me chamavam mais a atenção. O daquele editor de aparência engraçada, por exemplo. Ele me lembrava um personagem de desenho animado: baixo, cabelos claros, barrigudo. Seu sotaque era indefinível, apesar de que, até onde eu sabia, ele morava no Rio desde sempre. Seu humor de maníaco bipolar me divertia mais que espantava, apesar da maneira assustadora como oscilava. Dele, eu ouvia verdadeiras pérolas.

Havia também a fotógrafa sexy que hipnotizava ao passear pela redação: com uma câmera na mão e belos decotes nos peitos. Eu nunca pude explicar de onde vinha minha excitação por fotógrafos, até o dia em que a vi. Descobri, então, que o que me excitava eram as câmeras e as fálicas lentes, não as pessoas por detrás delas. Quem já reparou na maneira como um fotógrafo, ou fotógrafa!, segura o seu instrumento de trabalho, há de me entender.

Outra das minhas caricaturas favoritas era aquele repórter que se julgava engraçado. Sempre perdia alguns momentos olhando pra ele e, ouvindo suas piadas, eu imaginava sua adolescência de garoto feioso desprezado pelas menininhas da escola, mas que um dia descobriu que podia conseguir alguma coisa se fazendo de inteligente e dono da verdade. Daí até virar jornalista foi um pulo, provavelmente. Com esses pré-requisitos, formação vira detalhe.

O editor-chefe da voz bonita também fez com que eu pensasse num menino míope e gorducho do passado que tentou achar soluções para a rejeição das belas. Neste caso, o resultado agradava. Sempre acreditei no potencial dos que, longe de serem considerados obviedades estéticas, precisavam apelar pra justiça da lei da compensação. Cegos desenvolvem melhor tato e olfato, não é assim? Pois conheci muitos homens de beleza ululante, mas nunca eram eles os mais charmosos, mais engraçados ou donos das melhores vozes.

Ah, a voz… a dele me trouxe a lembrança improvável do narrador de filme dublado da Sessão da Tarde de tempos idos. Ecoava por toda a redação. Evitei, durante algum tempo, olhar de verdade para o dono da voz, que estava sempre próximo. Nisso, a minha miopia foi cúmplice. É que aquela voz, assim, só ouvida, me evocava imagens que podiam acabar desmentidas demais, negadas pela realidade. Não queria saber do homem: sua voz me bastava. Eu não queria a realidade, não ali, pelo menos. Desejo feito de ironia e contradição…

(Continua no próximo domingo, véspera de Natal)

Anúncios

Contos de redação – Parte 1

Por mais uma noite os ponteiros se esbarraram lá no alto, no número 12, e me veio o pensamento costumeiro: “falta mais uma hora”. Era começo de semana e madrugada de Rio de Janeiro tranqüilo-na-medida-do-possível. Na redação, os gatos-pingados de sempre. Por isso, me assustei com a presença estranha, quando ouvi aquela voz rouca, que me chegou aos ouvidos precedida pelo bafo quente na nuca e o cheiro de cigarro. “Boa noite”, me disse.

Não pude responder ao cumprimento. Ao invés disso, busquei ao redor olhares estupefatos e cúmplices do meu. Nada. Ninguém parecia notar aquele homem de chapéu que passara dos 70, metido num terno azul-marinho de corte démodé, com um lenço vermelho que transbordava cafona do bolso direito do paletó.

Com um sorriso meio de lado, que fez balançar o cigarro apagado feito uma antena de barata, ele parecia debochar do meu estupor. “Tenho te observado todas as noites”, me revelou, repetindo aquela voz rouca, aquele bafo quente, aquele cheiro de cigarro…

(Continua no próximo post)