Celebração

olivrodosabracosQuando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais.

Eduardo Galeano, no conto Celebração da voz humana/2.

Caio II

o_ovo_apunhaladoPorque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe…

Caio Fernando Abreu no conto Eles.

Caio

morangos_mofadosTão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era…

Caio Fernando Abreu no conto Além do Ponto.

Aída

“Mulher de gosto”, assim sempre diziam. Nesse quesito, Aída, com seu nome de ópera, era unanimidade. Questão congênita:  ainda semente de gente, ingeriu em excesso o líquido amniótico que a envolvia. O incidente deixou sequelas permanentes: nascera com papilas gustativas super desenvolvidas e, assim, foi-lhe conferida a extrema capacidade de degustar tudo na vida.

Bem pequena, Aída  já saboreava auroras orvalhadas na montanha, engolia salgados entardeceres à beira-mar e devorava céus estrelados no campo. Rechonchuda, com cara de sapeca se desculpava por sua mania de comer flores e arrotar vastas pradarias. Caçava borboletas para bebericar as cores. Brincando de comidinha, preparava iguarias. Sua especialidade era o guisado de canto dos passarinhos. Mas, desde a mais tenra idade, seu petisco preferido era mesmo a liberdade.

Adolescente, com o apetite de mundo agigantado por hormônios indomáveis, se empanturrava de nuvens. Mascava a chuva, chupava o sol e se embriagava de lua. Numa noite dessas, trocando as pernas, desenvolveu uma curiosa predileção por abocanhar vaga-lumes. O estranho hábito dividiu opiniões: alguns davam de ombros, pois entendiam a excentricidade como mais um capricho de seu estômago indisciplinado. Outros lançavam o palpite: a menina, ambiciosa, queria iluminar-se pelo avesso. Interpelada a respeito, Aída apenas declarava que, em se tratando de vaga-lumes, era impossível comer só um.

Até que um dia, já adulta, sem querer veio o comedimento. Brotou, infeliz, com a notícia de uma triste partida que, de repente, fez de Aída alguém sem volta. Engasgou-se com a separação fatal e repentina. Incapaz de digerir saudade, perdeu a fome e, em seu lugar, surgiu outra pessoa, perdida e doída. Puída e aturdida. Roída, ferida.

Mas, com o passar do tempo aplacou-se o sofrimento e Aída reaprendeu a degustar, com requinte, o vento. E numa dessas tardes distraídas, ao engolir suaves e inofensivas brisas, sem querer sorveu um doce momento. Ingeriu perdidamente uma paixão flambada que a fez queimar a língua e, na garganta, multiplicar palavras inflamadas. Com ardor no peito e ventre em chamas, ela amou feito o diabo.

E do amor explodiu uma nova Aída, ainda mais faminta de vida…

Um conto, um resto de grito

Não é verdade que só fiz ter pressa de viver. Sei bem o quanto me custou tantas vezes parar no espaço e esperar meu tempo, quase sempre descompassado dos alheios. Hoje acho que mais valeria ter corrido sem pensar, esbaforida, porque talvez a exaustão me impedisse de perceber a inexistência de meus pares aonde quer que fosse – e quem sabe adiante encontrasse a companhia dos mais solitários que eu. 

Quisera aprender a me dopar de medo e a me proteger de emoções estéreis, mas meu peito, afeito a pulsações irresponsáveis, gritou paixões até o último caco. Agora, essa minha providencial rouquidão: para línguas que não cansam, bendito seja o silêncio das cordas vocais inflamadas.

Quando criança, fugi de casa antes do cinco, mas nem fui longe, só o suficiente para alargar um pouco o pequeno círculo em que me obrigavam a permanecer. Briguei desde o primário, mas meu senso de justiça me fez ter o cuidado de somente esmurrar os mais fortes. Choquei aos 11, fui processada aos 12, liderei aos 13, amei aos 14, quis morrer aos 15. Aprendi a ressuscitar aos 16, fui premiada aos 17, sumi no mundo aos 18, era profissional aos 19, admirada aos 20. Com 21 entendi que as grandes aventuras por vezes são a causa da morte por enfado. E chorei em todos os anos de vida… 

De repente senti necessidade de encolher até sumir e usufruir da liberdade de perambular invisível por aí, ostentando aquele velho espinho na carne que, ao provocar uma dor incômoda, me deu uma vaga noção do que é mortalidade – apenas vaga, porque a verdade é que sempre me falhou o instinto básico da autopreservação.

Disfarcei minha força ensaiando olhares cabisbaixos, mas hoje me fazem falta certos atrevimentos desaprendidos de propósito em prol do pertencimento a um mundo de assustados. Custa caro viver de gentilezas… Mas agora que sei também de paz e mansidão, talvez reaprenda a esbofetear, a ensurdecer a todos com esses ruídos que arranham minha carne já mil vezes estraçalhada – por esperanças vãs, desejos tortos, filosofias bêbadas e amores equivocados.

Com orgulho cego dessas tantas marcas, não interpretei bem aquelas rugas do espelho. Custei a entender que algumas meninices não devem se perpetuar e a perceber o quão ridículas são certas euforias fora de época. Mas basta dessa aposta, se não ganho me jogando é porque vale mais me recolher. Já passa da hora de esquecer de tudo aquilo que não vi, mas que soube muito bem sonhar. Bem-aventurados os covardes pois, por ignorarem o céu, jamais se fodem esborrachados.

Preciso inverter os papéis, agora deixo de tanto narrar para aprender a atuar e pouco importa o fato de que provavelmente nunca haja quem me conte minha história. Preciso voltar pro meu lugar (ainda que sofra de vertigem), parar de me exaurir nessa de forjar casualidades e de inventar heróis que me salvem de mim.