Um pouco de música e chão para existências desviadas

Ontem à noite, precisei interromper minha leitura por conta de uma sublime perturbação: fiquei emocionada com a música que estava tocando na rádio. Confesso que tenho esses arroubos, que mesmo nos momentos mais espinhosos, nas fases menos poéticas da minha vida, minha sensibilidade sempre abana o rabo diante de qualquer osso, qualquer farejar do belo. E pensei de novo nessa culpa cristã que sinto de preencher mais meus dias com beleza.

Escolhi uma forma, digamos, mais política de atuar no mundo, moldei um caminho profissional a partir do pressuposto de que existia muito a ser feito e aperfeiçoado, mais que isso: que transformações profundas eram/são necessárias. Não havia, portanto, tempo a perder com miudezas.

Mas meu coração, afeito a travessuras, sempre me dá rasteiras que me devolvem ao chão, me fazem sentir o cheiro e o gosto do solo que me constitui. E me lembro que humildade vem de humus — trata-se da capacidade de ser terra, chão, raiz — e que arrogância é imaginar ser possível tornar-se o que não se é.

Anúncios

28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)

Linhas tortas e vidas paralelas

Não sei se por rebeldia, mas o meu trajeto só se compreende pelas margens. Parando pra pensar, muitos dos meus objetivos atingi aos trancos e se não me sinto frustrada isso se deve ao fato de ter vivido intensamente as rebarbas dos meus alvos.

Sintomático: eu precisando escrever um projeto de mestrado e eis que dou uma “breve pausa” para repensar a decoração do meu quarto. Ok, meu quarto é meu templo e sinto muita necessidade de estar bem nele. Mas no domingo eu comecei a pintar as paredes, na segunda à noite terminei, depois arrumei o armário, limpei os cantos, sacudi a poeira. Como se não bastasse, resolvi me render de vez aos encantos da culinária. Nos últimos dias fiz vários pratos com berijela, abobrinha para todos os gostos, caldo de beterraba, sopa de abóbora com gengibre, cenoura com atum. Fico brincando com temperos e misturas. Uma pena que o mestrado não seja em decoração ou gastronomia. Se fosse, me animaria mais com a filosofia tão necessária.

Sem medo de errar na avaliação, digo que os melhores textos de blog eu escrevi quando o trabalho me brochava. Se fosse escritora, era capaz de montar uma banda de rock pra me inspirar.

Os livros mais marcantes foram devorados em momentos absolutamente inoportunos. Nas aulas de teoria da comunicação, sociologia e comunicação, filosofia da comunicação, comunicação social comparada, análise do discurso, ética jornalística e por aí vai, a leitura obrigatória muitas vezes ficou pra última hora não porque eu quisesse me dedicar a outras atividades que não a de sentar o rabo e ler. Com a minha essência procrastinadora, eu logo catava um outro livro pra me distrair – por puro prazer de enrolar, imagino. Lembro que uma vez fui até sacaneada pelo Éric, um calouro meu, que me viu carregar tantos livros diferentes num mesmo período que um dia comentou: “Ou você vai repetir o período ou você traz esses livros só pra tirar onda de que lê”. Não cheguei a repetir matéria naquele período, mas era certo que uma parte da minha vida andava sendo empurrada com a barriga, e por acaso era o trabalho. Mas repeti muito quando o trabalho me empolgou. Eu não sei mesmo me administrar.

Quase todos os livros do Saramago que li são do tempo da faculdade e o mesmo aconteceu com a maior parte dos do Gabriel García Marquez. Os do Dostoiévski também entram na conta do período. Terminada a faculdade – que demorou mais de seis anos pra ser concluída, importante dizer – passo tempos sem leitura.

Internet, download de música, balé moderno, meditação, quadrinhos, música erudita ou cinema russo constam na lista de atividades impróprias para determinados momentos da minha vida, quando eu precisava de maior foco e concentração. Talvez eu devesse desistir de vez de tudo que me exija foco e concentração, mas aí corro o risco de me tornar, além de desfocada e desconcentrada, um fantasma desinteressado do mundo.

Não sei por quanto tempo ainda me mantenho na periferia do meu próprio destino. Mas até agora só o desvio me fez prosseguir.