Sobre sentidos na vida e as verdades de cada um

Há alguns meses deixei minha zona de conforto e me movi em direção a um sonho antigo: fazer mestrado (em uma área completamente diferente da que vinha atuando nos últimos 14 anos). De lá pra cá, muitas mudanças, não só geográficas. O mundo resolveu se chacoalhar um bocado também, o Brasil tá revirado e se reinventando, e eu, revirada e me reinventando, não canso de me perguntar qual é o meu lugar nisso tudo. Confesso até que já bateu um certo desespero. Nos últimos meses, e mais precisamente nas últimas semanas “interinas”, quem nunca?

Mas, ao mesmo tempo, chega uma serenidade guerreira, teimosa e improvável, nascida precisamente dessas mudanças todas, internas e externas. Bate uma esperança advinda da certeza de que “nascer é uma alegria que dói”, como disse o Galeano, e brota uma paz de espírito porque tenho sido capaz de viver o sonho, de transformar o cotidiano, de expandir as viagens de sempre e fazer dos meus dias uma constante descoberta. E acaba que meu lugar no mundo, aos poucos, se torna cada vez mais claro.

Fico me perguntando onde estive antes e como foi possível, durante tanto tempo, viver tão em desacordo comigo mesma – e, por consequencia, não sendo inteira nas minhas relações, de um modo geral. Parecia faltar uma verdade, e faltava mesmo: a minha verdade.

Sofri muito por ver os meus dias se esvaírem em uma rotina que não fazia sentido, com a maior parte do meu tempo dedicado a um trabalho que já não me preenchia – e que se traduzia materialmente na manutenção de uma vida que me matava. E falar sobre isso não é fácil, principalmente porque muitas pessoas se encontram em uma condição parecida, mas já entregaram os pontos faz tempo, e por isso tentam te convencer de que não resistir é a única forma possível de redenção. Mas nada disso é verdade – embora tenha se tornado a verdade de muitos.

Hoje, pra mim, tudo se apresenta diferente. Sinto, vivo e sei (com meu coração, vértebras e entranhas) que nosso lugar no mundo a gente constrói, mas essa construção precisa se dar a partir das bases certas, sob o risco de, tijolo por tijolo, a gente acabar soterrado.

Falamos a mesma língua pero no mucho

“É preciso matar a tribo para nascer a nação”, dizia o Samora Machel. A Zita me contou que, na época em que ele governou Moçambique, ninguém falava línguas locais em repartições públicas, havia toda uma construção em torno da identidade nacional e da unidade linguística. Hoje, ela acha tudo muito mudado. Diz que é comum, mesmo nas instituições do governo em Maputo, os funcionários conversarem entre si em Ronga ou Changana, as línguas locais faladas aqui no sul do país. As crianças das zonas rurais, ela conta, onde vive a maioria da população, só falam o português (quando falam) na escola. Em casa, na rua, prevalecem as línguas locais. O Chico já não tem certeza se é bem assim, diz que é preciso pesquisar melhor e checar essas informações.

O Changana é mais falado em Maputo. Nem preciso dizer que não distingo uma coisa da outra, mas sei que, sim, é muito comum, mesmo aqui nas ruas da capital, as pessoas conversarem em outra língua que não o português. Parece que, desde aqueles já distantes anos de discursos do Samora Machel em praça pública, e depois de anos de guerra civil, a tribo reencarnou. Não tenho condições de avaliar qual o impacto disto na vida da nação…

***

No sábado à noite, marquei de sair com a Dorien, a holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa e há um ano e meio mora em Maputo. Ela havia combinado com uns amigos de sair pra dançar na Rua Darte, mas antes nos encontraríamos todos em seu apartamento, para bebermos algo e conversarmos um pouco.

Dorien divide um apartamento com duas amigas moçambicanas. Assim que cheguei, vi que falam em inglês entre si. A Dorien fala português bem. Também entende bem. Quando criança, viveu seis anos em Moçambique, depois morou no Brasil e, agora, está por aqui outra vez, trabalhando para uma ONG americana. Eu só converso com ela em inglês quando seus amigos holandeses ou seus pais, que conheci no Brasil e depois encontrei algumas vezes na Holanda, estão por perto. Ainda assim, achei que a escolha do idioma oficial da casa se devia ao fato de ali morar uma holandesa que, bem verdade, apesar do bom português, fala inglês muito melhor.

De repente, a Dorien saiu de perto e as duas moçambicanas continuavam a falar em inglês entre si. Passados uns instantes, comentei que poderíamos voltar a falar a NOSSA língua portuguesa (convinha lembrar, caso elas tivessem esquecido, que eu era brasileira). Foi então que percebi que esse papo de nossa língua não é bem assim… “Morei muitos anos em Nova York e depois em Londres, me sinto mais confortável falando em inglês”, comenta a filha de embaixador. A outra, metade moçambicana, metade belga-congolesa, concordou que também se sentia mais confortável com o inglês.

Logo, outros se juntaram à nós. A primeira a foi uma mocinha mulata que já chegou falando em inglês. Alguns minutos depois descobri que ela também era moçambicana. “E por que você está falando inglês?”, perguntei. “É que meu pai é italiano”, prontamente me respondeu. “E a sua mãe?”, quis saber mais. “É moçambicana, mas só falamos italiano em casa”. Ah… mas então o que o inglês tem a ver com isso?, era a minha questão. Então ela me explicou que também havia estudado em inglês.

Por fim chegaram mais três rapazes, falando em inglês, pra variar. Eu arrisquei palpites: “ok, o branco talvez seja italiano, os dois negros devem ser sulafricanos”. Que nada. Eram todos moçambicanos. As explicações eram sempre as mesmas. Todos haviam morado fora e estudado em inglês.

Eu já sabia que era comum jovens moçambicanos das classes mais favorecidas estudarem nos vizinhos África do Sul e Suazilândia. Mas essa de que não falavam português no próprio país era novidade.

Por fim, o Jorge, primo da Yara, minha amiga moçambicana que foi minha amiga de faculdade, me ligou e, por sugestão das próprias anfitriãs, pedi que ele me encontrasse lá antes de irmos para a Rua Darte. Ele chegou, cumprimentou a todos, se apresentou. Nós nos falamos rapidamente, eu deixei ele conversando com o pessoal e fui para a cozinha buscar um copo d’água. Quando voltei, ele estava fazendo para todos os presentes a mesma pergunta que eu havia feito pouco antes. “Afinal, por que vocês falam em inglês entre si?”. Adiantei a resposta: “é que eles moraram fora e estudaram em inglês”. E o Jorge: “e daí? Eu também! Estudei a vida inteira na África do Sul e fiz faculdade lá, mas no meu país eu falo português!”

“Qual é a explicação, então”, perguntei. O Jorge, que tem 36 anos, não teve dúvida: “é essa geração antes da minha, que anda na casa dos 26, 27”. De fato, era a média de idade ali.

Pra mim, aquela era uma verdadeira tribo. E dessas que eu nunca vou entender mesmo. Definitivamente, não falamos a mesma língua.

É tudo conversa

Ontem fez três semanas que cheguei em Maputo. Há um aspecto que marca a diferença deste lugar em relação aos outros por onde andei este ano: aqui me dedico a conversar. Com os velhos conhecidos moçambicanos que me acolheram tão bem, com os amigos dos amigos, com seus familiares. Também com a amiga estrangeira de longa data que elegeu este país como lar, com os novos amigos brasileiros, com o empregado da casa onde vivo, com o taxista, com os vizinhos.

Cada um, um olhar, uma interpretação, uma experiência diferente. Os amigos sessentões, ex-revolucionários, me contam histórias daquela década de 1970, quando, aos vinte e poucos anos, sob a liderança de Samora Machel, tiveram a missão de construir um país. Eles dão números (que preciso confirmar no arquivo histórico nacional): em 1975, ano da Independência, numa população de 9 milhões de moçambicanos, apenas 34 tinham nível superior. Meus novos amigos estavam entre esses.

O meu conterrâneo, que conheci na semana passada, chegou em 1979. Economista, exilado da ditadura militar brasileira, veio realizar aqui o sonho que não foi possível na nossa terra de palmeiras e sabiás. Nunca mais voltou. Ele é um dos mais entusiasmados ao lembrar daqueles tempos difíceis: “vivemos durante vinte anos uma verdadeira economia de guerra, mas todo mundo se ajudava”.

A amiga moçambicana recebia leite em pó dos familiares exilados na Suíça para alimentar a filha, mas se refere àquele momento como “o paraíso”. Na mesa repleta de memórias, todos concordam que pertenceram a uma geração privilegiada, que pôde viver e construir tanto. Ali, lembram do comentário de um outro amigo brasileiro, também exilado, ex-prisioneiro político trocado por um daqueles embaixadores: “Não volto mais”, dizia ele. “Com praia, camarão, cerveja e revolução, de quê mais eu preciso?”. Curioso é que esse, sim, voltou. Hoje, faz parte do governo da Dilma.

O rumo da prosa muda totalmente quando converso com aquele senhor simples, pobre, que vive na periferia. Ele me diz que tempo bom era na época dos portugueses, quando todo mundo podia comprar e não precisava enfrentar as filas do abastecimento.  É super crítico em relação ao fato do Samora Machel ter morrido pobre. “Se todo mundo era pobre naquela época, o senhor gostaria que justo ele fosse rico?”, pergunto. “Ele era um guerrilheiro, matou pessoas. Deus não o aceitou no céu, lá é que ele não tem riqueza mesmo. Seria melhor que tivesse sido rico enquanto estava vivo”.

Há quem defenda o governo, há os que fazem questão de falar de sua indignação. Eu, confesso, por ora prefiro só escutar. Pra não ser leviana e não fazer o que critico na maioria dos viajantes que tenho conhecido: a facilidade para arrotar conceitos e verdades sobre a terra dos outros.

Por enquanto, vou aproveitando cada oportunidade de conversa. Cheguei à conclusão de que conversar é o que significa a minha vida. Viajo pra ouvir histórias diferentes. Faço amigos e namoro, no fim das contas, para conversar – a diferença entre uma relação e outra é o desejo. Quando casar, seguindo o conselho de Nietzsche, vai ser pelo mesmo motivo:

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Às vezes acho que acredito em Deus só pra ter com quem conversar mesmo quando estou sozinha em algum canto remoto do mundo e  sou ecumênica para poder dar papo não só pra Cristo, mas também pra Alá, pra Buda, pra Brama, Visnu e Shiva.

Enfim, vou parar com a conversa fiada agora que ainda tenho muitas histórias para ouvir.

Diário de Bordo – Moçambique

Meio sonolenta ainda, vi que a Internet não estava funcionando. Fui para a cozinha fazer o café e a luz não acendia. Pensando que precisaria chamar o senhor Jaime pra consertar o defeito do interruptor, abri a torneira e, pra minha surpresa, não havia água. Primeira conclusão de quem ainda não acordou direito: estão me sacaneando. Segunda, mais sensata: problemas no fornecimento de energia. A vizinha confirma: “estamos sem luz desde às quatro da manhã, por isso também não tem água”.

Como aqui em Maputo falta de água, de luz ou as duas coisas não é exatamente uma novidade, a casa estava preparada: o empregado, senhor Zimba, havia deixado vários galões de água debaixo da pia do banheiro e no armário da cozinha. Preparei então meu banho de balde – frio, porque o meu fogão é elétrico e eu precisei pedir à vizinha para fazer o café lá.

Fiquei pensando que, neste ano, passei pelo menos quatro meses tomando banho frio ou de balde, ou os dois ao mesmo tempo. Quer saber? Faz tempo que não estranho mais.

***

Leitura durante o mata-bicho (ops! café-da-manhã): O outro pé da sereia, do Mia Couto.

“… esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós”.

***

Como a Lei de Murphy prevalece mesmo na África, a luz e, consequentemente, a água e a Internet voltaram logo depois do meu banho frio de balde. Agora, vou sair para fotografar. Faz um sol bonito nesta manhã de sábado e vou aproveitar para ir ao Mercado Municipal, depois almoçar na Costa do Sol e, por fim, dar um pulo no museu. Espero que o dia me renda alegrias e resultados visuais satisfatórios.

Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Se vocês passarem pela minha cidade querida e tiverem a oportunidade de visitar um destes lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir, esteja eu onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa.

28 dias de café – parte 8: “Tempos do kibutz e mudanças pra vida inteira”

O Kibutz Ein Hahoresh foi fundado no início da década de 1930 por um grupo de judeus da Europa oriental, poloneses em sua maioria. Não saberia precisar exatamente quantas pessoas moravam lá em 2000, mas diria que o número de membros – os kibutznikim – passava dos mil. Lá havia acomodação para 30 voluntários, que eram alojados em diversas casinhas de madeira pra lá de modestas, de três quartos simples ou um duplo. Como acontecia em outros kibutzim, essas casas ficavam numa área reservada, onde ficavam também os nossos espaços comuns: o refeitório-cozinha dos voluntários, uma precária sala de jogos (com uma velha mesa de ping pong) e uma sala de TV (inacreditavelmente, nunca houve brigas por causa dos canais).

Rotineiramente, os voluntários se encontravam já no café da manhã, quando todos, com exceção dos que cumpriam escala na fábrica (porque esses faziam a primeira refeição no local de trabalho), se sentavam juntos nas duas grandes mesas destinadas aos voluntários no salão de jantar central do kibutz. No almoço, a mesma coisa, o mesmo encontro, as mesmas pessoas. No jantar, o espaço de convivência passava a ser o nosso refeitório na área dos voluntários.

Os horários de chegada e saída do trabalho variavam um pouco. Alguns faziam horas extra (para cada seis horas acumuladas, ganhávamos um dia de folga), mas via de regra, às 15 horas, nas tardes de verão, nos encontrávamos também na piscina do kibutz. Dependendo do dia da semana, ou por causa de alguma celebração, jantávamos todos no salão central. De tempos em tempos, a exibição de algum filme no cinema de Ein Hahoresh se transformava em mais um motivo de encontro e integração também com os kibutznikim. Às quartas-feiras, um ônibus gratuito levava os voluntários para a Vertigo, uma disco em Haifa, cidade ao norte de Israel, distante 40 quilômetros. Nas noites de quintas, íamos para o pub de Givat Haim, o kibutz vizinho, produtor de laranjas e sucos – e, por isso, alvo de eventuais saques de voluntários de Ein Hahoresh no caminho bêbado de volta pra casa. Sarah, há anos responsável por liderar o grupo dos jovens do mundo inteiro que decidiam viver a experiência comunitária, não raras vezes nos dava broncas homéricas por encontrar vestígios indiscretos do delito, como cascas de laranja espalhadas por todo o nosso refeitório e mesmo em outros cantos da área dos voluntários.

28 dias de café – parte 7: “O que não está aqui, não estará lá”

Escrevi algumas crônicas sobre a viagem de 2006, algumas publicadas no blog antigo, mas o meu estado de espírito, minhas fraquezas e esperanças, agonias e exaltações, essas eu somente revelava ao meu caderno de capa de couro decorada e miolo em papel pólen (presente do Natal anterior que minha irmã trouxera de Florença). 

Numa tarde de dezembro, já em 2008, em Londres, num desses dias em que passei de cama por causa de uma reviravolta no estômago, com o mesmo caderninho nas mãos, resolvi reler meus textos de dois anos antes. Então, comparei os momentos, me dei conta de algumas das minhas transformações e me senti profundamente infeliz.

Se eu pudesse eleger um sentimento predominante em cada uma das viagens, eu diria que a de 2000, ao Oriente Médio, envolvia surpresas e receios. Em 2006, eu era puro brilho nos olhos, peito aberto e, não por acaso, estive propensa a muitos encontros. Em 2008, a melancolia que me tomava me seguiu até a Europa. Era a comprovação de que o sentimento não se referia a um lugar, ao Rio de Janeiro de sempre, onde fazia tempo eu já não enxergava novidades e pulsações.

Estava eu em Londres com o mesmo ar perdido e desinteressado. A sensação me assustou, e me fiz acreditar que era apenas um indício de que precisa buscar algumas respostas. O meu privilegiado olhar, estrangeiro e mágico, que me proporcionara os melhores momentos que minha lembrança podia alcançar, esse olhar salpicado de beleza e estrelas eu perdera. E entendi, naquele momento, que reencontrá-lo era a única coisa que importava.

28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)

28 dias de café – parte 4: “Das terras desencontradas”

Relendo um texto antigo do blog, de 2006, outros aspectos confirmavam a minha opinião de que o país que conheci não existia mais: 

“Nesse ano de 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo. Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a “comunidade internacional” jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus. Infelizmente não é possível definir com palavras a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões…”

Um episódio, na época, chegou a alimentar minha fé na humanidade. Era um dia qualquer de semana quando meu chefe interrompeu o trabalho dos voluntários na cozinha para tomar vinho e celebrar a retirada das tropas israelenses da fronteira do Líbano, depois de 30 anos de ocupação.

Engraçado pensar que nós fomos praticamente os últimos voluntários a viver na Israel daqueles dias. Pisei novamente em solo brasileiro no dia 8 de setembro de 2000, precisamente 20 dias antes da provocativa visita do chefe da direita Ariel Sharon à Explanada das Mesquitas, episódio que desencadeou a segunda Intifada e mandou pras cucuias as negociações pela paz.

Dave, John, Rick e eu chegamos a considerar a possibilidade de permanecer em Israel por um mês mais, pois Yasser Arafat àquela época anunciava, para o final de setembro, a declaração do Estado da Palestina, com ou sem o apoio da comunidade internacional. Mas esse nosso desejo de fazer história sucumbiu diante do cansaço que nos acometia e da vontade de voltar para nossas casas.

28 dias de café – parte 3: “Sobre retornos e tormentos”

Talvez não exista sensação mais perturbadora que retornar aos lugares onde, em um determinado e irrepetível tempo, se viveu uma extrema felicidade, compartilhada com pessoas que só estavam ali, no mesmo momento, por uma fatal generosidade do universo. A experiência do Kibutz permaneceu na minha lembrança como uma das fases mais especiais da minha vida, e esse sentimento só se reafirmou com os anos, mas sempre me pareceu assustadora a idéia de retornar. A mim me bastou voltar a Ein Haroresh 45 dias depois de me desligar do kibutz e partir em viagem, visitando diferentes lugares, sempre rumo ao sul, até cruzar a fronteira de Taba e entrar no Egito, onde mochilei durante um mês, tendo como companheiros inseparáveis Dave, John e Rick.

Retornamos a Ein Hahoresh porque nossos vôos para casa partiriam do aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, e necessitaríamos de teto por um ou dois dias. Eu também precisava buscar a enorme mala que deixei, já que levara comigo, na viagem com os ingleses, menos de 20 por cento do que trouxera do Brasil – e a consciência de ter muito além do necessário, e de que ter demais pesa, literalmente, na alma viajante, se tornou um dos meus grandes ensinamentos.

No regresso ao kibutz, um choque: apenas dois, dos cerca de 25 voluntários, eram meus “contemporâneos”. Todos haviam partido e o lugar, em tão pouco tempo, se transformara num grande cemitério de lembranças. No refeitório dos voluntários, jaziam inscrições, objetos e mechas de cabelos deixadas pelos que eu jamais reencontraria. Essa foi a minha tomada de consciência, sob outra perspectiva, da partida desde sempre intrínseca à própria experiência.

No Kibutz, aprendíamos a conviver com pessoas de todos os cantos do mundo, com idades entre 18 e 35 anos, e posso dizer que, salvo alguns curiosos incidentes, essa convivência era bem pacífica. Mais que isso: amizades improváveis se formavam e amores ali gestados por vezes se ramificavam para os países de origem dos amantes. Assim aconteceu com a dinamarquesa Bodil e o sul-africano Andrew, com a sueca Linda e o colombiano Harvey, com o inglês Dauren e a brasileira Rosane (que depois se tornaram marido e mulher).

Como o tempo de permanência variava de três a seis meses, às vezes mais, às vezes pouco menos, e como em Ein Hahoresh havia acomodação para 30 voluntários, nosso cotidiano também era feito de ver gente chegar e partir a todo o momento. Isso provocava certa distorção na passagem dos dias e, hoje, quando paro pra pensar nos três meses vividos em Ein Haroresh, mal acredito que não foram muitos mais.

No meu último encontro com o John, em Amsterdam, já em janeiro de 2009, não deixei de pensar na ironia que consistia o fato de que um país de onde não paravam de chegar notícias de atrocidades tivesse sido um solo tão agregador e fundamental para a nossa amizade.

 Mas a verdade é que conhecemos uma Israel diferente, não somente aos nossos olhos. O cenário, apesar de sempre delicado, era outro. Não apenas porque fazíamos parte de um programa essencialmente judaico e, por conseguinte, as notícias a que tínhamos acesso eram invariavelmente pró Israel. Pequenos detalhes vivos na minha lembrança me indicam que não existia essa atmosfera de ódio, pelo menos não confessadamente, não como imagino que exista para as novas gerações.

Sim, havia sinais incontestes de que aquele era um país em guerra, como o serviço militar obrigatório para rapazes e moças dos 18 aos 21 anos – idade em que deveriam estar na universidade aprendendo coisas importantes como respeitar diferenças, amar a literatura, o cinema, criar projetos revolucionários, se embriagar com bebidas baratas, mas nunca vivendo sob uma atmosfera de morte.

 As armas que esses tantos jovens recebiam do governo eram mantidas por eles, durante o “expediente” ou não, o que tornava comum o convívio, nos transportes públicos, com lindos meninos sorridentes e fardados, e também com meninas super maquiadas e com cortes de cabelos modernosos, sempre transportando um fuzil atravessado nas costas.

Outro detalhe bem característico era a revista na entrada de locais como shoppings, em que todos deviam abrir as bolsas. Ainda assim, naquele país, em dias de folga do Kibutz, era possível viajar pegando carona e contar como certa a solidariedade dos motoristas, que me pareciam bem menos paranóicos do que qualquer carioca. Esse era um costume, uma prática disseminada em um lugar onde transportes públicos não funcionam no shabbat, ou seja, do pôr-do-sol de sexta ao pôr-do-sol de sábado.