Um conto, um resto de grito

Não é verdade que só fiz ter pressa de viver. Sei bem o quanto me custou tantas vezes parar no espaço e esperar meu tempo, quase sempre descompassado dos alheios. Hoje acho que mais valeria ter corrido sem pensar, esbaforida, porque talvez a exaustão me impedisse de perceber a inexistência de meus pares aonde quer que fosse – e quem sabe adiante encontrasse a companhia dos mais solitários que eu. 

Quisera aprender a me dopar de medo e a me proteger de emoções estéreis, mas meu peito, afeito a pulsações irresponsáveis, gritou paixões até o último caco. Agora, essa minha providencial rouquidão: para línguas que não cansam, bendito seja o silêncio das cordas vocais inflamadas.

Quando criança, fugi de casa antes do cinco, mas nem fui longe, só o suficiente para alargar um pouco o pequeno círculo em que me obrigavam a permanecer. Briguei desde o primário, mas meu senso de justiça me fez ter o cuidado de somente esmurrar os mais fortes. Choquei aos 11, fui processada aos 12, liderei aos 13, amei aos 14, quis morrer aos 15. Aprendi a ressuscitar aos 16, fui premiada aos 17, sumi no mundo aos 18, era profissional aos 19, admirada aos 20. Com 21 entendi que as grandes aventuras por vezes são a causa da morte por enfado. E chorei em todos os anos de vida… 

De repente senti necessidade de encolher até sumir e usufruir da liberdade de perambular invisível por aí, ostentando aquele velho espinho na carne que, ao provocar uma dor incômoda, me deu uma vaga noção do que é mortalidade – apenas vaga, porque a verdade é que sempre me falhou o instinto básico da autopreservação.

Disfarcei minha força ensaiando olhares cabisbaixos, mas hoje me fazem falta certos atrevimentos desaprendidos de propósito em prol do pertencimento a um mundo de assustados. Custa caro viver de gentilezas… Mas agora que sei também de paz e mansidão, talvez reaprenda a esbofetear, a ensurdecer a todos com esses ruídos que arranham minha carne já mil vezes estraçalhada – por esperanças vãs, desejos tortos, filosofias bêbadas e amores equivocados.

Com orgulho cego dessas tantas marcas, não interpretei bem aquelas rugas do espelho. Custei a entender que algumas meninices não devem se perpetuar e a perceber o quão ridículas são certas euforias fora de época. Mas basta dessa aposta, se não ganho me jogando é porque vale mais me recolher. Já passa da hora de esquecer de tudo aquilo que não vi, mas que soube muito bem sonhar. Bem-aventurados os covardes pois, por ignorarem o céu, jamais se fodem esborrachados.

Preciso inverter os papéis, agora deixo de tanto narrar para aprender a atuar e pouco importa o fato de que provavelmente nunca haja quem me conte minha história. Preciso voltar pro meu lugar (ainda que sofra de vertigem), parar de me exaurir nessa de forjar casualidades e de inventar heróis que me salvem de mim.

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