Um pesadelo brasileiro

trump

Fonte: Netflix.com

Suspendi minha conta do Facebook por uma semana. Nesse intervalo, assisti ao documentário da Netflix sobre o Trump e pensei que uma espiada mais atenta ao que aconteceu na casa do vizinho teria preparado melhor nosso espírito.

Foi instrutivo e estarrecedor conhecer os meandros da campanha que, dia desses mesmo, levou um bufão absurdo a se tornar o homem mais poderoso do mundo. A frieza dos responsáveis pelas estratégias de marketing e a maneira como se gabam delas são demonstrações claras de que algumas tentativas de diálogo só podem resultar infrutíferas quando o ser humano deixa de se afetar pelo que deveria ser o mais básico.

Pra quem não assistiu a série de 4 episódios, cuidado, alerta de spoiler: até a ideia da construção do muro na fronteira com o México foi bolada pelos marqueteiros e apresentada depois ao Trump, porque sabiam que seria um sucesso na campanha. Simples assim: olhar a volta e oferecer o espetáculo na medida.

A gente no Facebook vive falando pra gente mesmo. A gente gosta dos nossos valores humanos — amorosos, empáticos e solidários que somos –, e acha que isso basta pra convencer o outro. Nem sempre funciona.

Mas penso que a gente se orgulha (de uma forma meio cega até) porque em algum momento, antes de virar discurso, esses valores eram beleza, abraço, papo de bar, cachaça, literatura, olhos nos olhos, viagem perrengue pra acampamento Sem Terra com os melhores amigos, festa de rock pra libertar, show no Circo Voador, festival de cinema, performance no CCBB, rodinha de violão com Chico Buarque, colchão no chão do apartamento servindo de sofá da galera, fumaça, e a gente jovem sendo jovem achando que ia revolucionar porque tinha a vida inteira pela frente e isso bastava.

A gente vive um tempo em que alegria vira quase ofensa e sente culpa, às vezes, pelas pequenas epifanias que, apesar do cinza dos dias, sempre arrancam uns sorrisos escondidos. Mas vira e mexe me pergunto se não seria esta a hora de sair mesmo espalhando beleza e vontade de viver por aí, ainda que, de início, tudo não passasse de uma grande mentira, contada porque a gente precisa de um alívio pra não enlouquecer.

De repente rolaria um efeito tipo Fake News e aquela montagem tosca da realidade, aquela felicidade improvável, aquele lugar esquecido onde tudo volta a ser sonho, de repente tudo isso mobilizaria a tal ponto nossos afetos que viver em uma sociedade justa e solidária passaria a ser a maior meta, o maior mito.

E talvez então, de novo, a gente se sentisse jovem, com uma vida inteira pela frente, inevitavelmente. E isso bastaria.

Anúncios