28 dias de café – parte 6: “Da leveza de ter nada mais que asas”

Os sete meses de 2006 que antecederam a viagem de agosto à Europa eu passara digerindo um amor contrariado, tentando administrar medos e incertezas causados pela instabilidade na vida profissional, negociando com meu pai por tudo devido à minha absoluta falta de grana (a viagem foi bancada por ele, como presente de formatura) e vivendo um profundo isolamento.

Recém-formada, eu vi desandar um por um todos os planos profissionais que traçara para aquele ano e se não me angustiei mais foi porque as tantas portas fechadas serviram para reafirmar a minha decisão de partir. Interpretei-as como um sinal.

Com a viagem já marcada, acabei recebendo a proposta de um amigo para trabalhar no projeto de um documentário que seria gravado em Portugal, no Porto. Dediquei-me então à pesquisa e à pré-produção e, pouco mais de um mês antes de embarcar, estava bastante feliz com o trabalho, que realizava de casa – o que, portanto, não alterou meu isolamento, nem amenizou as cobranças do meu pai, já que eu só receberia pelo projeto depois de realizadas as gravações.

Apesar do período difícil, tempos depois eu lembraria com carinho daqueles dias. O isolamento e a falta de grana acabaram propiciando muitos momentos de meditação; as crises e desesperos em relação ao futuro aos poucos deram lugar a uma paz quase irresponsável. Ouvia meus amigos reclamarem de seus relacionamentos, do emprego, do salário, do chefe, e eu, por fim, ria por dentro, pensando que a privação de algumas conquistas pelo menos me poupava de muitos aborrecimentos.

Esse verdadeiro exercício de despojamento pré-viagem resultou numa entrega sincera: meu coração estava aberto para os lugares e pessoas que cruzariam o meu caminho. Vários amigos chegaram a acreditar que eu não voltaria, diziam que, no Brasil, não havia o que me prendesse, que eu nada tinha a perder – e , sensível como estava, cheguei e me sentir um pouco magoada com esses comentários, por considerá-los eufemismos para a minha condição de mulher sozinha vivendo um marasmo profissional.

Em todo caso, parti com leveza. No dia da viagem, no aeroporto Santos Dummond, durante a espera do meu vôo para São Paulo, registrei no meu caderninho:

Aqui começa minha viagem, apenas parte da travessia de sempre. Todos se preocupam porque posso não voltar. Eu simplesmente fico feliz por esta que agora se vai: uma mulher encontrada e, por isso mesmo, apta a se perder, se misturar com a alma das pessoas, coisas e lugares…”

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28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)

28 dias de café – parte 2: “Mais lembranças viajantes de tempos idos”

Eu revirara muitas lembranças nos dias que antecederam aquela segunda passagem por Bajaras. Pensei muito nos três ingleses que conheci em Israel. Dave, John e Rick, também voluntários no Kibbutz Ein Hahoresh, vieram a se tornar grandes amigos e companheiros na viagem de um mês pelo Egito, as únicas pessoas daqueles tempos mágicos com quem mantive contato. Reencontrei Dave e John anos depois, no verão europeu de 2006, em Londres.

Havia um outro reencontro programado para aquele início de dezembro, novamente em Londres, e os e-mails carinhosos trocados, a expectativa quase infantil por revê-los, tudo reforçava minhas idéias sobre a magia das viagens. Afinal, que elo seria forte o suficiente para resistir a tantos anos de absoluto afastamento, umas poucas conversas telefônicas e e-mails nem sempre detalhados sobre o cotidiano em outro hemisfério, do outro lado do oceano? Quantas amizades de infância já não se perderam por conta de bem mais sutis escolhas e opções de vida?

O que me unia ao Dave músico e agora professor, ao John produtor musical, ao Rick mestrando em Social Work? Justamente esses três ingleses que, em outros tempos, agigantavam meu sentimento de outsider e me olhavam como uma menina exótica de manias curiosas – idéia pra lá de manifestada nas inesgotáveis zoações Oriente Médio afora, pelos motivos mais babacas, como o meu jeito de não querer refrigerante, de exagerar na expressão facial, de ter prisão de ventre por conta dos banheiros deprimentes nos albergues do Cairo, de ter nojo de falafel com cabelo, de nunca comer com as mãos, de ser quieta demais de manhã e responder às tentantivas de contato nas primeiras horas do dia de maneira atravessada e mau humorada. E por falar inglês pensando em português, por ser enfática e colocar really, so e very antes de todos os adjetivos, abusar dos advérbios specificly, specially e exactly, por tentar dizer coisas em hebraico e repetir sempre a mesma frase, por fazer comparações o tempo inteiro com o Brasil, onde tudo era invariavelmente melhor, mais bonito, mais gostoso, mais divertido e mais barato.

Passados quase nove anos, era muito fácil entender que as experiências compartilhadas naquele ano 2000 foram um laço mais forte que qualquer idiossincrasia. E essa constatação acabava por lançar luz a outras questões, como os motivos da profunda tristeza que me acometia todas as vezes que eu voltava pra casa. Tava explicado: minha angústia não se devia ao fato de ter que retornar ao Brasil depois de fantásticas viagens em terras estranhas, mas sim por sempre ter precisado matar, ao regressar, uma parte incandescente da minha alma. E, sem ter com quem recordar e reviver, pois meus parceiros de viagem estiveram desde sempre distantes do meu cotidiano, eu terminava por sofrer com as incompartilháveis lembranças – aquelas que só quem viveu, sentiu. Houve tempos em que me perguntei: isso tudo aconteceu de verdade?

28 dias de café – parte 1: “No aeroporto de Madri, lembranças de outros tempos”

Dezembro de 2008. Era minha terceira viagem internacional, mas, no aeroporto de Bajaras, experimentei a inédita sensação de retornar a um lugar depois de tanto tempo.
 
Meu vôo para Tel Aviv, quase nove anos antes, havia sido igualmente via Madri. Permaneci no aeroporto conversando com Cézar, que preencheu aquelas seis horas de espera me contando suas aventuras em diferentes países. Ele, angolano residente em Genebra, trabalhava para a ONU. Parte das informações eu pude confirmar meses depois, já que Cézar me enviou alguns postais da cidade suíça em envelopes da Unitar (United Nations Institute for Training and Research).
 
O efeito daquelas horas de conversa, aguardando meu vôo para Israel, levou bastante tempo, talvez anos, para se dissipar. Naquele dia, Cezar falou das missões de paz e aguçou o meu interesse de uma maneira quase covarde, tocando no meu coração cheio de sonhos ao dizer que, como estudante de jornalismo, eu poderia fazer um estágio temporário na organização. E me encorajou a entrar em contato com ele quando eu tivesse um endereço certo em Israel, depois de estabelecida no Kibbutz onde trabalharia como voluntária nos próximos meses.
 
Acreditei com toda a força dos meus 18 anos de que aquilo seria de fato possível e essa idéia me perseguiu por meses a fio, manifestando-se nas cartas que eu enviava a Cézar – para as quais sempre obtive carinhosas e incentivadoras respostas -, nas chamadas internacionais para Genebra – que engordavam substancialmente minhas contas no Kibbutz -, nas conversas com outros voluntários, que me ouviam com um ar incrédulo.
 
Três meses após aquele dia em Bajaras, recebi uma ligação de Cézar dizendo que precisaria viajar para Israel, por conta de uma missão, e que gostaria de me encontrar. E de fato nos encontramos, jantamos em algum lugar que a minha memória apagou por completo, caminhamos na praia de Tel Aviv. Quis me informar melhor sobre as minhas concretas possibilidades de conseguir um estágio ou trabalho voluntário na ONU e tivemos uma conversa agradável, até aquele homem pelo menos 20 anos mais velho que eu resolver confessar que estava apaixonado por mim e que eu era o real motivo de sua visita ao país.
 
Mesmo depois dele me pedir para dormir em seu quarto de hotel, e depois que exigi, com toda a força da minha raiva e da minha decepção, que ele pagasse um quarto separado para mim, pois não teria condições de voltar no meio da noite, e mesmo depois de saber por uma amiga brasileira, também voluntária no meu kibbutz, que a esposa de Cézar ligara nervosa, implorando que eu tivesse muito cuidado com ele, apesar desse soco no meu estômago, e de jamais ter tido coragem de mencionar o fato com os outros voluntários todos que ouviram minhas estórias fabulosas de antes, apesar disso tudo, quando retornei ao Brasil, meses mais tarde, enviei insistentes cartas às Nações Unidas, e não deixei de enviá-las até que recebesse uma resposta, e quando recebi uma foi para ser informada de que não havia vaga para alguém com o meu perfil de jovem em início de vida universitária.
 
Tudo isso pensei em Bajaras, enquanto esperava a minha conexão para Londres, para reencontrar a grande amiga, a companheira de tantos momentos que, com um sentimento que eu bem conhecia, partiu para longe em busca de si própria. E pensei no quão transformada eu estava, nove anos depois da minha primeira viagem, não apenas porque já não sabia mais nutrir tanta esperança gratuita pelos seres humanos, mas também porque me pesava no coração o acúmulo de tantos adeuses. Para não mais ter que viver dolorosas despedidas, cheguei a desejar nunca mais amar com tanta força.

Aprendendo a embrulhar o presente

Tinha a intenção de relatar meus dias aqui na Europa em detalhes; viver o hoje de cada minuto, processar sensações e depois passá-las adiante com o meu embrulho colorido de palavras (embalagem conta muito, dá personalidade ao que tem dentro). Desisti da idéia porque percebi que precisava encontrar a embalagem adequada para o produto resultante da matéria-prima que ainda processo mal. Meus dizeres-invólucro servem mais para o que está posto há certo tempo do que para o que acaba de me ser apresentado. Nenhuma novidade. Sempre admiti isso.