Dos dribles que me dou

Antigamente eu era nação rubro-negra de verdade. Lembro que em 1995, ano de centenário, de Romário no mengão, de Renato Gaúcho tirando o nosso título com gol tricolor de barriga, nessa época eu chorava com derrota do meu time. Lembro da escola, da musiquinha que ficavam cantando pra mim: “Vaaaaaaai Flamengo / Sou tricolor e nunca vi gol do Romário / Vaaaaaaai Flamengo / Sou campeão no ano do seu centenário”.

Era o mengão perder e todo mundo me sacanear, e sacanear também o professor de ciências, que, antes da partida do tal gol de barriga, apostou o cavanhaque com os alunos tricolores e apareceu numa segunda-feira de cara lisa.

Minha paixão da época, um menino que morava perto da minha casa, era tricolor doente, assim como os seus melhores amigos, e eu ficava duplamente inconsolável quando ele saía pra comemorar vitória em cima do Flamengo e passava na minha frente, no carro abarrotado de homem, buzinando, com aquela bandeirona enorme nas cores do time da minha família inteira – de parte de pai (a italianada toda é verde, vermelho e branco, claro) e de mãe.

Aliás, engraçado isto: todo mundo tricolor e eu criança já gostava de torcer pelo flamengo (ninguém ligava muito pra futebol, bem verdade). Lembro de 1992, eu com dez pra onze anos, dando voltas no pátio do prédio com o meu irmão, também rubro negro sabe-se lá o motivo, gritando: pentacampeããão!!!.

Ainda em 1995, depois de tanto suspirar pelo menino tricolor, comecei a namorar um flamenguista meia-bomba e, com isso, passei assim, sem graça, esquecida do futebol, cinco anos com ele. Fui relembrar emoção de jogo aos quase 19 anos, em 2000, quando, no kibbutz, em Israel, assisti o Flamengo X Vasco da final do campeonato estadual, transmitido pelo canal árabe. Senti aperto no peito por estar tão longe, por não ter aproveitado o Maracanã enquanto eu podia, e me prometi que pisaria naquelas arquibancadas assim que regressasse ao Brasil. Mas que nada… só vi o mengão no fim de 2001, quando dois suecos que estavam hospedados na minha casa (eles tinham sido voluntários no mesmo kibbutz que eu) me imploraram pra assistir o primeiro jogo da final da Copa Mercosul e eu, com dois suecos mais três ingleses que surgiram de última hora, parti pro Maracanã, corri atrás de cambista pra conseguir ingresso por uma pequena fortuna e presenciei o chocho zero a zero do Flamengo X San Lorenzo.

Ontem, confesso, eu não tava nem aí pro jogo. Mas foi ligar a TV e me veio um monte de recordação bacana, pensei na minha promessa nunca cumprida de aproveitar o Maracanã e me lembrei da história daquele condenado à morte, narrada n’O Idiota pelo príncipe Míchkin:

… ele dizia que naquele momento não havia nada mais difícil para ele do que um pensamento contínuo: “E se eu não morrer! E se eu fizer a vida retornar – que eternidade! E tudo isso seria meu! E então eu transformaria cada minuto em todo um século, nada perderia, calcularia cada minuto para que nada perdesse gratuitamente!”. Ele dizia que esse pensamento acabou se transformando em tamanha raiva dentro dele que teve vontade de que o fuzilassem o mais rápido possível.
(…)
(―) ora, mudaram a sentença dele, logo, deram-lhe essa “vida infinita”. Então, o que depois ele fez dessa riqueza?
(…)
(―) perdeu muitos e muitos minutos…

O Maraca que me aguarde. E viva o Flamengo!

Anúncios

E o canário fez que nem holandês voador…

O dia amanheceu lindo naquele já distante primeiro domingo do inverno (tanta bola – rolada, parada e nas costas – desde então…). Manhã azul pra reforçar a fama do céu de junho e sol quente pra abençoar o Rio de Janeiro. Um dia, canarinho, você se encanta também. Por enquanto eu fico de cá te embalando com palavras…

Foi no domingo bonito feito assim que fiquei dividida. Já havia torcido contra os hermanos e bom que ganhei um empate diplomático. Mas, antes mesmo do começo de Portugal e Holanda, meu coração já doía. Dureza não apoiar o Felipão, ainda mais porque assisti o jogo na praia de Ipanema – aliás, temos fotos juntos lá, sabia? Falta agora eu te levar no Arpoador, onde as pessoas aplaudem o pôr-do-sol. Era lá que eu estava pouco antes do início da partida…

Precisei ser discreta pra ninguém perceber minha torcida, alaranjada feito o sol que se pusera havia pouco. Mas Felipão venceu, a despeito de minhas pragas pouco convincentes. Mal sabia eu que aquela seria uma vitória providencial, melhor dos consolos para as derrotas que se seguiriam. Não só a do Brasil – fique claro! – pois, creia-me, chorei com os hermanos.

Acho engraçado tudo agora. O tal do grito de doelpunt contra o Brasil deixou de acontecer não só devido a despedida da seleção holandesa. No fim das contas, nos disseram (ou nos dissemos?) au revoir. O curioso é que, enquanto nos entristecíamos por aqui, você aproveitava as férias na França.

Hum… Canarinho laranja, não me diga que você se transformou num galo!?!?

Ao canário laranja

A tua primeira visita ao Brasil da mamãe – e da tia que agora narra a história – durou apenas 30 dias. Aqui te conheci quando você contava três meses de vida. Amor logo de cara, apesar do teu berreiro no nosso encontro. Com toda razão, aliás: mais de dez horas para cruzar o Atlântico, conexão em São Paulo, chegada ao Rio, finalmente. Os outros passageiros cumprimentaram tua mãe depois da aterrissagem em solo tupiniquim. Elogiaram tua calma, teu silêncio, tua paciência madura na viagem gigante demais para um bebê. Sabendo disso, apoiei quando o choro veio, tardio e guerreiro.

Dia seguinte, conheci teu sorriso pra mim. Cheguei a me emocionar, viu? Mas depois descobri o vira-latinha que você era, de riso fácil, pra qualquer um, pra quem quisesse. Pequeno desse jeito e já entendendo tudo de democracia, já sabendo compartilhar o teu melhor.

Você não engatinhava ainda e o teu vovô dos trópicos, também misturado, nascido de ventre italiano fecundado por índio brasileiro, torcedor mais verde-amarelo que azzurro, já caprichava na lavagem cerebral. Era o tempo inteiro: “Gol! Gol! Basil! Basil!”. E num é que deu certo? Dia desses, mais de um ano depois, época de Copa do Mundo e briga pelo hexa, vi pela webcam: a gente fala “Gol! Gol! Basil! Basil!” e você levanta os bracinhos e cai na gargalhada. Teu pai, coitado, se esgoela no “Doelpunt! Doelpunt! Holland! Holland!” e você nem se mexe.

Hoje tem Holanda x Argentina. Deixa eu te contar duma vez: há uma rixa entre brasileiros e os hermanos argentinos. Tua tia aqui tem dessas coisas não, queria mais era ver essa América Latina unida, na luta pra estancar o sangue que jorra das veias abertas e compartilhando também vitórias nessas festanças que o mundo inteiro assiste. Mas, minha miniatura de conquistador, por você, hoje, eu sou laranja. De pintar o rosto e tudo, tirar foto e guardar pra posteridade. Pra assim tentar retribuir, agradecer de alguma forma pela felicidade de te ver virando a casaca com tanta empolgação.

Mas se tiver um Brasil x Holanda, meu amor, eu vou levantar os braços no mesmo instante que você, e assim estaremos juntos. Só espero que não silenciemos juntos após um indesejável grito de “doelpunt”…