28 dias de café – parte 11

A coisa com o Rick não demorou a desandar. Numa das tantas sextas-feiras em que eu havia dormido cedo pensando na praia do dia seguinte, ele, por volta das três da manhã, bateu desesperadamente na porta do meu quarto, completamente bêbado, chamando meu nome. Alguém o tirou de lá antes que eu abrisse, mas cheguei a acordar e, irritada, custei a pegar no sono outra vez. Na manhã seguinte, enquanto preparava um sanduíche na cozinha, notei a claridade que vinha da sala de TV e fui até lá desligar o aparelho, dando de cara com o Rick desmaiado no sofá, imundo de terra e com as calças abertas. No final da tarde, quando voltei, mal consegui ouvir os pedidos de desculpas. Era muita novidade pra mim, que, inevitavelmente, fazia comparações com o ex-namorado brasileiro, esse quieto até demais.

Tudo parecia contribuir para o meu constante estado de estranhamento, de vulnerabilidade, de solidão, de sentimento de incompreensão. Diferente da maioria dos voluntários, que chegavam em grupos de seus países, durante um bom tempo eu era a única brasileira ali, e viver isso pela primeira vez, naquele ano 2000, não foi fácil. Hoje, acho graça.

Lembrando agora, me parece assustador que, naquele clima de liberdade e descobertas, eu combinasse um ar blasé, um certo puritanismo e uma boa dose de histeria. Meu Deus, eu chorava por tudo! Pelo pé cortado, pelo namoradinho bêbado, pela sujeira das áreas comuns (apesar da limpeza diária do voluntário de plantão), pelo sofá da sala de TV repleto de cinzas de cigarro e marcas de sapato, pela dor de cabeça de precisar falar meu inglês primitivo o tempo inteiro, por nem sempre entender os outros, pela saudade de feijão, de café brasileiro e de ouvir Chico Buarque, por não encontrar soro fisiológico em canto algum daquele país e viver com a vista irritada por causa dos produtos fortes para lentes de contato, porque eu não tinha uma pequena fortuna para pagar no ingresso do show do Caetano Veloso em Jerusalém, pelo gosto daquela água salobra, pela dor de coluna devido ao trabalho pesado no hospital dos velhinhos e pelas privadas sujas de excrementos senis que eu precisava limpar, e que depois foram substituídas na minha lista de tarefas pelos ralos podres da cozinha contígua ao salão de jantar.

O que mais me intrigava é que eu parecia ser a única grande incomodada ali. Os demais voluntários, fossem escandinavos ou sul-coreanos, ingleses ou sul-africanos, até reclamavam de algumas coisas chatas de qualquer trabalho, mas de um modo geral pareciam felizes por viver a experiência. O trabalho mais corno possível, em Pachmas (a fábrica de metal, plástico e fibra industrial), rendia pixações nas paredes – “Pachmas is the hell”, “Maybe Pachmas tomorrow”, “Freedom” – mas, de tão mal-humoradas, acabavam provocando muitos risos e virando piada interna.

Até que, dois meses depois, quando eu já estava me surpreendendo com minha capacidade de adaptação, uma paulista, a Fernanda, chegou a Ein Hahoresh. Como havia um quarto vago na minha casinha, Sarah achou por bem que ela ficasse lá. E logo nos primeiros dias a Fernanda já estava reclamando tanto, mas tanto, que eu só sabia ficar feliz por ter finalmente encontrado alguém que me entendesse.

28 dias de café – parte 10: “Quando a gente vive é mais fácil teorizar”

Naqueles meses de primavera e verão que passei no Kibutz, com freqüência eu deixava de sair na sexta-feira à noite para acordar cedo no sábado, pegar minha bicicleta, ir à praia e voltar somente no fim da tarde. Lembrando agora, o aspecto mais interessante desse hábito é que ele causava estranheza nos que recebiam notícias minhas no Brasil. A idéia de muitos era que  Israel não passava de um grande deserto. De um modo geral, as pessoas não tinham em mente, por exemplo, a imagem da praia de Tel Aviv, cujo calçadão foi inspirado no de Copacabana.

Essa constatação, essa visão restrita dava uma dimensão do efeito da cobertura jornalística. A avidez por notícias de guerras e atentados, a massificação de imagens fechadas nas tragédias fazia evaporar outras referências muito mais antigas. Assim, pessoas sempre tão “informadas” sobre Israel permaneciam ignorantes em relação a aspectos básicos da geografia desse país minúsculo espremido entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho que, numa das passagens bíblicas mais conhecidas do mundo cristão, o Deus do antigo testamento abriu para o povo hebreu passar.

28 dias de café – parte 9

Antes da viagem ao Egito, ainda na época de Ein Hahoresh, Rick e eu tivemos um breve envolvimento, que durou pouco menos de dois meses. Dado o contexto de convivência intensa no Kibutz, essa contagem dos dias era um pouco distorcida. Considerando as nossas diferenças culturais e de temperamento, eu diria que foi um tempo recorde.

No Brasil, por causa da viagem, pouco antes de partir eu terminara um namoro que durou a minha adolescência praticamente inteira, dos meus 14 aos 18 anos. Era uma referência muito forte de um namoro adolescente intenso, com um cara apaixonado, ciumento, cinco anos mais velho, machista e conservador que, como se não bastasse, recentemente iniciara a carreira militar. Tentar, dois meses depois, um relacionamento com um inglês de 19 anos, imaturo, que sequer havia começado a universidade, frio (do meu ponto de vista), sarcástico, beberrão e meio rabugento não devia ser mesmo uma investida das mais promissoras.

Como me interessei por ele? Sem rodeios e vãs filosofias: o Rick era lindo e tinha também um charme de cafajeste absolutamente incompatível com sua idade.

Lembro de quando nos beijamos pela primeira vez. Naquele 10 de junho de 2000 , um sábado, fizemos um churrasco (de hambúrguer, obviamente) na área dos voluntários. No fim daquela tarde, Rick e eu saímos para um passeio de bicicleta que nos rendeu boas risadas. Já noite, paramos para descansar e deitamos na quadra do colégio do kibutz, sob as estrelas. Aliás, sempre quis obter uma explicação lógica para um fenômeno que eu não me cansava de observar: o céu do Oriente Médio (não apenas o de Israel, mas também do Egito), sempre limpo nos verões invariavelmente secos, vivia riscado de estrelas cadentes. E a primeira estrela cadente da minha vida eu vi naquela noite, no chão da quadra, abraçada com o Rick. Fizemos um pedido secreto, ele me beijou em seguida e me disse que o seu acabara de se realizar.

E foi assim, desse jeito clichê, romântico e adolescente que as coisas aconteceram. Nem por isso começamos bem. Quando voltávamos para a área dos voluntários, já tarde da noite, encontramos o John agachado, no lugar onde acontecera o churrasco, cuidando do cachorrinho quase morto que bebeu de uma tigela contendo vodka (quando acabavam os copos limpos, os voluntários apelavam para as tigelas de cereais). Ao ver a cena bizarra, fomos falar com ele e, naquele breu, não enxerguei no chão uma das telas que havia servido de grelha e rasguei o meu pé esquerdo.

Eu urrava de dor, o sangue gotejava e foi preciso acordar a Sarah para que ela chamasse uma das enfermeiras do hospital de Ein Hahoresh. O incidente me rendeu uns dias de afastamento do trabalho, uma cicatriz que me acompanha até hoje e uma superstição de que aquele era um sinal de mau agouro…

28 dias de café – parte 8: “Tempos do kibutz e mudanças pra vida inteira”

O Kibutz Ein Hahoresh foi fundado no início da década de 1930 por um grupo de judeus da Europa oriental, poloneses em sua maioria. Não saberia precisar exatamente quantas pessoas moravam lá em 2000, mas diria que o número de membros – os kibutznikim – passava dos mil. Lá havia acomodação para 30 voluntários, que eram alojados em diversas casinhas de madeira pra lá de modestas, de três quartos simples ou um duplo. Como acontecia em outros kibutzim, essas casas ficavam numa área reservada, onde ficavam também os nossos espaços comuns: o refeitório-cozinha dos voluntários, uma precária sala de jogos (com uma velha mesa de ping pong) e uma sala de TV (inacreditavelmente, nunca houve brigas por causa dos canais).

Rotineiramente, os voluntários se encontravam já no café da manhã, quando todos, com exceção dos que cumpriam escala na fábrica (porque esses faziam a primeira refeição no local de trabalho), se sentavam juntos nas duas grandes mesas destinadas aos voluntários no salão de jantar central do kibutz. No almoço, a mesma coisa, o mesmo encontro, as mesmas pessoas. No jantar, o espaço de convivência passava a ser o nosso refeitório na área dos voluntários.

Os horários de chegada e saída do trabalho variavam um pouco. Alguns faziam horas extra (para cada seis horas acumuladas, ganhávamos um dia de folga), mas via de regra, às 15 horas, nas tardes de verão, nos encontrávamos também na piscina do kibutz. Dependendo do dia da semana, ou por causa de alguma celebração, jantávamos todos no salão central. De tempos em tempos, a exibição de algum filme no cinema de Ein Hahoresh se transformava em mais um motivo de encontro e integração também com os kibutznikim. Às quartas-feiras, um ônibus gratuito levava os voluntários para a Vertigo, uma disco em Haifa, cidade ao norte de Israel, distante 40 quilômetros. Nas noites de quintas, íamos para o pub de Givat Haim, o kibutz vizinho, produtor de laranjas e sucos – e, por isso, alvo de eventuais saques de voluntários de Ein Hahoresh no caminho bêbado de volta pra casa. Sarah, há anos responsável por liderar o grupo dos jovens do mundo inteiro que decidiam viver a experiência comunitária, não raras vezes nos dava broncas homéricas por encontrar vestígios indiscretos do delito, como cascas de laranja espalhadas por todo o nosso refeitório e mesmo em outros cantos da área dos voluntários.

28 dias de café – parte 4: “Das terras desencontradas”

Relendo um texto antigo do blog, de 2006, outros aspectos confirmavam a minha opinião de que o país que conheci não existia mais: 

“Nesse ano de 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo. Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a “comunidade internacional” jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus. Infelizmente não é possível definir com palavras a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões…”

Um episódio, na época, chegou a alimentar minha fé na humanidade. Era um dia qualquer de semana quando meu chefe interrompeu o trabalho dos voluntários na cozinha para tomar vinho e celebrar a retirada das tropas israelenses da fronteira do Líbano, depois de 30 anos de ocupação.

Engraçado pensar que nós fomos praticamente os últimos voluntários a viver na Israel daqueles dias. Pisei novamente em solo brasileiro no dia 8 de setembro de 2000, precisamente 20 dias antes da provocativa visita do chefe da direita Ariel Sharon à Explanada das Mesquitas, episódio que desencadeou a segunda Intifada e mandou pras cucuias as negociações pela paz.

Dave, John, Rick e eu chegamos a considerar a possibilidade de permanecer em Israel por um mês mais, pois Yasser Arafat àquela época anunciava, para o final de setembro, a declaração do Estado da Palestina, com ou sem o apoio da comunidade internacional. Mas esse nosso desejo de fazer história sucumbiu diante do cansaço que nos acometia e da vontade de voltar para nossas casas.

28 dias de café – parte 3: “Sobre retornos e tormentos”

Talvez não exista sensação mais perturbadora que retornar aos lugares onde, em um determinado e irrepetível tempo, se viveu uma extrema felicidade, compartilhada com pessoas que só estavam ali, no mesmo momento, por uma fatal generosidade do universo. A experiência do Kibutz permaneceu na minha lembrança como uma das fases mais especiais da minha vida, e esse sentimento só se reafirmou com os anos, mas sempre me pareceu assustadora a idéia de retornar. A mim me bastou voltar a Ein Haroresh 45 dias depois de me desligar do kibutz e partir em viagem, visitando diferentes lugares, sempre rumo ao sul, até cruzar a fronteira de Taba e entrar no Egito, onde mochilei durante um mês, tendo como companheiros inseparáveis Dave, John e Rick.

Retornamos a Ein Hahoresh porque nossos vôos para casa partiriam do aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, e necessitaríamos de teto por um ou dois dias. Eu também precisava buscar a enorme mala que deixei, já que levara comigo, na viagem com os ingleses, menos de 20 por cento do que trouxera do Brasil – e a consciência de ter muito além do necessário, e de que ter demais pesa, literalmente, na alma viajante, se tornou um dos meus grandes ensinamentos.

No regresso ao kibutz, um choque: apenas dois, dos cerca de 25 voluntários, eram meus “contemporâneos”. Todos haviam partido e o lugar, em tão pouco tempo, se transformara num grande cemitério de lembranças. No refeitório dos voluntários, jaziam inscrições, objetos e mechas de cabelos deixadas pelos que eu jamais reencontraria. Essa foi a minha tomada de consciência, sob outra perspectiva, da partida desde sempre intrínseca à própria experiência.

No Kibutz, aprendíamos a conviver com pessoas de todos os cantos do mundo, com idades entre 18 e 35 anos, e posso dizer que, salvo alguns curiosos incidentes, essa convivência era bem pacífica. Mais que isso: amizades improváveis se formavam e amores ali gestados por vezes se ramificavam para os países de origem dos amantes. Assim aconteceu com a dinamarquesa Bodil e o sul-africano Andrew, com a sueca Linda e o colombiano Harvey, com o inglês Dauren e a brasileira Rosane (que depois se tornaram marido e mulher).

Como o tempo de permanência variava de três a seis meses, às vezes mais, às vezes pouco menos, e como em Ein Hahoresh havia acomodação para 30 voluntários, nosso cotidiano também era feito de ver gente chegar e partir a todo o momento. Isso provocava certa distorção na passagem dos dias e, hoje, quando paro pra pensar nos três meses vividos em Ein Haroresh, mal acredito que não foram muitos mais.

No meu último encontro com o John, em Amsterdam, já em janeiro de 2009, não deixei de pensar na ironia que consistia o fato de que um país de onde não paravam de chegar notícias de atrocidades tivesse sido um solo tão agregador e fundamental para a nossa amizade.

 Mas a verdade é que conhecemos uma Israel diferente, não somente aos nossos olhos. O cenário, apesar de sempre delicado, era outro. Não apenas porque fazíamos parte de um programa essencialmente judaico e, por conseguinte, as notícias a que tínhamos acesso eram invariavelmente pró Israel. Pequenos detalhes vivos na minha lembrança me indicam que não existia essa atmosfera de ódio, pelo menos não confessadamente, não como imagino que exista para as novas gerações.

Sim, havia sinais incontestes de que aquele era um país em guerra, como o serviço militar obrigatório para rapazes e moças dos 18 aos 21 anos – idade em que deveriam estar na universidade aprendendo coisas importantes como respeitar diferenças, amar a literatura, o cinema, criar projetos revolucionários, se embriagar com bebidas baratas, mas nunca vivendo sob uma atmosfera de morte.

 As armas que esses tantos jovens recebiam do governo eram mantidas por eles, durante o “expediente” ou não, o que tornava comum o convívio, nos transportes públicos, com lindos meninos sorridentes e fardados, e também com meninas super maquiadas e com cortes de cabelos modernosos, sempre transportando um fuzil atravessado nas costas.

Outro detalhe bem característico era a revista na entrada de locais como shoppings, em que todos deviam abrir as bolsas. Ainda assim, naquele país, em dias de folga do Kibutz, era possível viajar pegando carona e contar como certa a solidariedade dos motoristas, que me pareciam bem menos paranóicos do que qualquer carioca. Esse era um costume, uma prática disseminada em um lugar onde transportes públicos não funcionam no shabbat, ou seja, do pôr-do-sol de sexta ao pôr-do-sol de sábado.

28 dias de café – parte 2: “Mais lembranças viajantes de tempos idos”

Eu revirara muitas lembranças nos dias que antecederam aquela segunda passagem por Bajaras. Pensei muito nos três ingleses que conheci em Israel. Dave, John e Rick, também voluntários no Kibbutz Ein Hahoresh, vieram a se tornar grandes amigos e companheiros na viagem de um mês pelo Egito, as únicas pessoas daqueles tempos mágicos com quem mantive contato. Reencontrei Dave e John anos depois, no verão europeu de 2006, em Londres.

Havia um outro reencontro programado para aquele início de dezembro, novamente em Londres, e os e-mails carinhosos trocados, a expectativa quase infantil por revê-los, tudo reforçava minhas idéias sobre a magia das viagens. Afinal, que elo seria forte o suficiente para resistir a tantos anos de absoluto afastamento, umas poucas conversas telefônicas e e-mails nem sempre detalhados sobre o cotidiano em outro hemisfério, do outro lado do oceano? Quantas amizades de infância já não se perderam por conta de bem mais sutis escolhas e opções de vida?

O que me unia ao Dave músico e agora professor, ao John produtor musical, ao Rick mestrando em Social Work? Justamente esses três ingleses que, em outros tempos, agigantavam meu sentimento de outsider e me olhavam como uma menina exótica de manias curiosas – idéia pra lá de manifestada nas inesgotáveis zoações Oriente Médio afora, pelos motivos mais babacas, como o meu jeito de não querer refrigerante, de exagerar na expressão facial, de ter prisão de ventre por conta dos banheiros deprimentes nos albergues do Cairo, de ter nojo de falafel com cabelo, de nunca comer com as mãos, de ser quieta demais de manhã e responder às tentantivas de contato nas primeiras horas do dia de maneira atravessada e mau humorada. E por falar inglês pensando em português, por ser enfática e colocar really, so e very antes de todos os adjetivos, abusar dos advérbios specificly, specially e exactly, por tentar dizer coisas em hebraico e repetir sempre a mesma frase, por fazer comparações o tempo inteiro com o Brasil, onde tudo era invariavelmente melhor, mais bonito, mais gostoso, mais divertido e mais barato.

Passados quase nove anos, era muito fácil entender que as experiências compartilhadas naquele ano 2000 foram um laço mais forte que qualquer idiossincrasia. E essa constatação acabava por lançar luz a outras questões, como os motivos da profunda tristeza que me acometia todas as vezes que eu voltava pra casa. Tava explicado: minha angústia não se devia ao fato de ter que retornar ao Brasil depois de fantásticas viagens em terras estranhas, mas sim por sempre ter precisado matar, ao regressar, uma parte incandescente da minha alma. E, sem ter com quem recordar e reviver, pois meus parceiros de viagem estiveram desde sempre distantes do meu cotidiano, eu terminava por sofrer com as incompartilháveis lembranças – aquelas que só quem viveu, sentiu. Houve tempos em que me perguntei: isso tudo aconteceu de verdade?

28 dias de café – parte 1: “No aeroporto de Madri, lembranças de outros tempos”

Dezembro de 2008. Era minha terceira viagem internacional, mas, no aeroporto de Bajaras, experimentei a inédita sensação de retornar a um lugar depois de tanto tempo.
 
Meu vôo para Tel Aviv, quase nove anos antes, havia sido igualmente via Madri. Permaneci no aeroporto conversando com Cézar, que preencheu aquelas seis horas de espera me contando suas aventuras em diferentes países. Ele, angolano residente em Genebra, trabalhava para a ONU. Parte das informações eu pude confirmar meses depois, já que Cézar me enviou alguns postais da cidade suíça em envelopes da Unitar (United Nations Institute for Training and Research).
 
O efeito daquelas horas de conversa, aguardando meu vôo para Israel, levou bastante tempo, talvez anos, para se dissipar. Naquele dia, Cezar falou das missões de paz e aguçou o meu interesse de uma maneira quase covarde, tocando no meu coração cheio de sonhos ao dizer que, como estudante de jornalismo, eu poderia fazer um estágio temporário na organização. E me encorajou a entrar em contato com ele quando eu tivesse um endereço certo em Israel, depois de estabelecida no Kibbutz onde trabalharia como voluntária nos próximos meses.
 
Acreditei com toda a força dos meus 18 anos de que aquilo seria de fato possível e essa idéia me perseguiu por meses a fio, manifestando-se nas cartas que eu enviava a Cézar – para as quais sempre obtive carinhosas e incentivadoras respostas -, nas chamadas internacionais para Genebra – que engordavam substancialmente minhas contas no Kibbutz -, nas conversas com outros voluntários, que me ouviam com um ar incrédulo.
 
Três meses após aquele dia em Bajaras, recebi uma ligação de Cézar dizendo que precisaria viajar para Israel, por conta de uma missão, e que gostaria de me encontrar. E de fato nos encontramos, jantamos em algum lugar que a minha memória apagou por completo, caminhamos na praia de Tel Aviv. Quis me informar melhor sobre as minhas concretas possibilidades de conseguir um estágio ou trabalho voluntário na ONU e tivemos uma conversa agradável, até aquele homem pelo menos 20 anos mais velho que eu resolver confessar que estava apaixonado por mim e que eu era o real motivo de sua visita ao país.
 
Mesmo depois dele me pedir para dormir em seu quarto de hotel, e depois que exigi, com toda a força da minha raiva e da minha decepção, que ele pagasse um quarto separado para mim, pois não teria condições de voltar no meio da noite, e mesmo depois de saber por uma amiga brasileira, também voluntária no meu kibbutz, que a esposa de Cézar ligara nervosa, implorando que eu tivesse muito cuidado com ele, apesar desse soco no meu estômago, e de jamais ter tido coragem de mencionar o fato com os outros voluntários todos que ouviram minhas estórias fabulosas de antes, apesar disso tudo, quando retornei ao Brasil, meses mais tarde, enviei insistentes cartas às Nações Unidas, e não deixei de enviá-las até que recebesse uma resposta, e quando recebi uma foi para ser informada de que não havia vaga para alguém com o meu perfil de jovem em início de vida universitária.
 
Tudo isso pensei em Bajaras, enquanto esperava a minha conexão para Londres, para reencontrar a grande amiga, a companheira de tantos momentos que, com um sentimento que eu bem conhecia, partiu para longe em busca de si própria. E pensei no quão transformada eu estava, nove anos depois da minha primeira viagem, não apenas porque já não sabia mais nutrir tanta esperança gratuita pelos seres humanos, mas também porque me pesava no coração o acúmulo de tantos adeuses. Para não mais ter que viver dolorosas despedidas, cheguei a desejar nunca mais amar com tanta força.

Novos ditos de antigas andanças e paragens

Em 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo.

Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.

Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Na época, todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a comunidade internacional jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel — e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos-israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus. E experimentei muitos momentos de solidão, tempos depois, ao voltar pra casa, porque entre as pessoas mais queridas não havia quem conhecesse a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões.