Sobre Antonio Candido

Vou confessar uma coisa que normalmente não se diz, sobretudo quando uma grande figura morre: li quase nada do Antonio Candido. Sim, é uma lacuna, das tantas que tenho, e vou passar a minha existência material tentando preenchê-las. E tudo bem.

Mas tem uma frase dele, sobre o Darcy Ribeiro, que me persegue há muito tempo, desde os meus 17 anos, quando li O povo brasileiro. Na contracapa do livro, havia um trecho da crítica do Antonio Candido sobre a obra, publicada na Folha de São Paulo. Reproduzo aqui:

Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.”

“…enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma”. Essa frase me impactou muito na época. Ali, aos 17 anos, tracei uma meta: a de viver muitas vidas numa só. Lembro dessa meta/juramento com tanta frequência que vocês nem acreditariam. E sempre agradeço ao Antonio Candido por isso.

Uma viagem indiana à francesa

A viagem de cem passos foi presente de Natal da querida Clau. Nunca tinha ouvido falar no livro, desconhecia o autor e jamais leria se não tivesse parado nas minhas mãos em forma de mimo. Como acredito que os livros nos escolhem, nunca subestimo esse tipo de “encontro”. Desta vez, como em tantas outras, não me decepcionei: um romance gastronômico, ambientado em três diferentes países, agrada em cheio alguém que, como eu, se rende aos prazeres da mesa e aos encantos das viagens, de um modo geral — e que, particularmente, ama a Índia e, por que não dizer, também a França.

Só hoje, depois de ler, dei um google e descobri que a obra já virou filme. Entrou pra minha lista, claro.

Pessoa na alma, Pessoa na mala

“Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem ‘estado de alma’ nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim”

Alberto Caeiro

Preparando as malas para mais uma viagem. Na bagagem, poucos livros, porque a vida de caminhante exige desapegos. Que bom que a poesia de Fernando Pessoa me faz companhia…

Um pouco de Clarice no frio outono do hemisfério norte

Como diria Kafka, tem dias em que tudo que não é literatura me aborrece. Hoje, me deleito com a releitura de Clarice:

“─ Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança, só agora viva, do que nós dois já vivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? (…) Não tenhas medo agora, está a salvo porque pelo menos já aconteceu, a menos que vejas perigo em saber o que aconteceu.

É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e, a esse não acontecer nada, chamávamos de intervalo. Mas como era esse intervalo?
Era a enorme flor se abrindo, tudo inchado de si mesmo, minha visão toda grande e trêmula. O que eu olhava, logo se coagulava ao meu olhar e se tornava meu ─ mas não um coágulo permanente: se eu o apertasse nas mãos, como a um pedaço de sangue coagulado, a solidificação se liquefazia de novo em sangue por entre os dedos.
E só não era o tempo todo líquido porque, para eu poder colher as coisas com as mãos, as coisas tinham que se coagular como frutas. Nos intervalos que nós chamávamos de vazios e tranqüilos, e quando pensávamos que o amor parara…
(…)
Nesses intervalos nós pensávamos que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois”.

Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH

Hoje vou desejar o que aqui está

Hoje, pra ser diferente, vou desejar tudo o que aqui está. Quero desistir de inventar outras existências e trocar minhas sempre urgentes novidades por um baú de saudáveis velharias. Quero exibir minhas roupas puídas, desfilar com meus sapatos gastos e resgatar esquecidas overdoses de utopia.

Quero entender minhas saudades como sorte, porque afinal só chora ausências quem teve a felicidade de ser impactado por marcantes presenças.

Quero a minha cabeça encontrada com o corpo, os dois no mesmo espaço-tempo. Quero parar de sonhar com uma casa no campo e aprender a cheirar a fumaça de óleo diesel que o meu cotidiano me empurra nariz adentro e goela abaixo. Quero a vida como ela é, com todas as contradições, pra que a palavra revolução não perca o sentido.

Quero deixar de buscar um constante estado de alerta, pois minha lucidez depende daqueles momentos de felicidade bêbada e distorcida.

Quero agradecer por cada amor contrariado, por todos os nãos que me moveram em direção a outros sins e novos encontros. Mas também quero lutar por minhas paixões antes de me forçar a criar novos sonhos já salgados pelas lágrimas das esperanças perdidas.

Quero fazer cair a ditadura da emoção sempre contida, celebrar a liberdade da entrega e o vexame do amor descabido. Quero chorar sem medo de sentir na pele e na boca o gosto da minha alma em carne viva.

Quero tomar vinho com minhas amigas enquanto pintamos as unhas de vermelho. E que a dança me invada outra vez.

Quero deixar de procurar Deus em algum lugar misterioso, longe ou alto demais e reaprender uma fé criança. Quero rezar o “pão nosso de cada dia nos dai hoje”, porque pra depois de amanhã não há mesmo garantia de brioche.

Quero parar de pensar tanto na falta que me fazem os companheiros que migraram pra longe do meu caminho, esquecer um pouco essa tristeza dos amores separados e lembrar a dádiva de ser uma ilha cercada de vida por todos os lados.

Um conto, um resto de grito

Não é verdade que só fiz ter pressa de viver. Sei bem o quanto me custou tantas vezes parar no espaço e esperar meu tempo, quase sempre descompassado dos alheios. Hoje acho que mais valeria ter corrido sem pensar, esbaforida, porque talvez a exaustão me impedisse de perceber a inexistência de meus pares aonde quer que fosse – e quem sabe adiante encontrasse a companhia dos mais solitários que eu. 

Quisera aprender a me dopar de medo e a me proteger de emoções estéreis, mas meu peito, afeito a pulsações irresponsáveis, gritou paixões até o último caco. Agora, essa minha providencial rouquidão: para línguas que não cansam, bendito seja o silêncio das cordas vocais inflamadas.

Quando criança, fugi de casa antes do cinco, mas nem fui longe, só o suficiente para alargar um pouco o pequeno círculo em que me obrigavam a permanecer. Briguei desde o primário, mas meu senso de justiça me fez ter o cuidado de somente esmurrar os mais fortes. Choquei aos 11, fui processada aos 12, liderei aos 13, amei aos 14, quis morrer aos 15. Aprendi a ressuscitar aos 16, fui premiada aos 17, sumi no mundo aos 18, era profissional aos 19, admirada aos 20. Com 21 entendi que as grandes aventuras por vezes são a causa da morte por enfado. E chorei em todos os anos de vida… 

De repente senti necessidade de encolher até sumir e usufruir da liberdade de perambular invisível por aí, ostentando aquele velho espinho na carne que, ao provocar uma dor incômoda, me deu uma vaga noção do que é mortalidade – apenas vaga, porque a verdade é que sempre me falhou o instinto básico da autopreservação.

Disfarcei minha força ensaiando olhares cabisbaixos, mas hoje me fazem falta certos atrevimentos desaprendidos de propósito em prol do pertencimento a um mundo de assustados. Custa caro viver de gentilezas… Mas agora que sei também de paz e mansidão, talvez reaprenda a esbofetear, a ensurdecer a todos com esses ruídos que arranham minha carne já mil vezes estraçalhada – por esperanças vãs, desejos tortos, filosofias bêbadas e amores equivocados.

Com orgulho cego dessas tantas marcas, não interpretei bem aquelas rugas do espelho. Custei a entender que algumas meninices não devem se perpetuar e a perceber o quão ridículas são certas euforias fora de época. Mas basta dessa aposta, se não ganho me jogando é porque vale mais me recolher. Já passa da hora de esquecer de tudo aquilo que não vi, mas que soube muito bem sonhar. Bem-aventurados os covardes pois, por ignorarem o céu, jamais se fodem esborrachados.

Preciso inverter os papéis, agora deixo de tanto narrar para aprender a atuar e pouco importa o fato de que provavelmente nunca haja quem me conte minha história. Preciso voltar pro meu lugar (ainda que sofra de vertigem), parar de me exaurir nessa de forjar casualidades e de inventar heróis que me salvem de mim.

Quando o barro não se fez carne

Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de andrajo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.

If

by Rudyard Kipling

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build ‘em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on”;

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings – nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run –
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man my son!