Sobre saudades, arte, doçura e tempestades

No sábado, quando voltei pra casa, soube que Sérgio Britto e Joãosinho Trinta haviam morrido.

Engraçado que pensei no Joãosinho Trinta enquanto escrevia o post anterior. Ele, que foi o autor da máxima “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo”. Pensei que talvez a teoria dele explique a diferença de visão dos moçambicanos com quem conversei sobre a revolução. De um lado, os intelectuais, ex-revolucionários entusiastas. De outro, o povo que assistiu a tudo bestializado e avalia o que é bom ou mau governo a partir do acesso à comida. “Quem tem fome tem pressa”…

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Entrevistei o Sérgio Britto em 2002. Na época, ele encenava, ao lado da Cleide Yaconis, Uma longa jornada de um dia noite adentro, do Eugene O’Neill, o dramaturgo estadunidense fonte de inspiração para Nelson Rodrigues (tive o prazer de assistir à peça, logo depois da entrevista, e permanece como uma das mais marcantes da minha vida).

Em uma hora de conversa, ele não apenas falou do espetáculo em cartaz, mas também sobre o seu programa, o Arte com Sérgio Britto. Lembro que o comentário sobre o público telespectador foi contundente. Segundo ele, pessoas pobres, com o nível educacional baixo, o cumprimentavam na rua e elogiavam o programa. “Esses se emocionam de verdade com o que digo. O que mata no Brasil é essa burguesia burra e massificada”.

Tenho ressalvas em relação à tal mania de luxo dos desfavorecidos (apesar de que não vejo glamour na pobreza. Talvez me falte um mestrado e um doutorado para virar intelectual; talvez eu seja classe média demais e, por isso, afeita ao meio-termo). Mas confesso que acho interessante essa ideia de que é pobre quem se emociona de verdade com arte…

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Já era noite aqui quando recebi a notícia de que a cantora caboverdiana Cesária Évora completou a festa de sábado no céu. Deixo aqui a minha homenagem e aproveito para compartilhar esta linda interpretação de É doce morrer no mar.

Ao urubu que pousou em minha janela

Há três dias um urubu pousou no parapeito da minha janela do trabalho. A janela estava fechada, eu não corria o risco de me ver, de repente, dividindo a sala com ele. Ainda assim, foi assustador observá-lo do outro lado do vidro, sobretudo no momento em que ele, brincando com a própria imagem refletida (e assim demonstrando que o universal mito de Narciso é extensivo ao mundo animal), abriu as asas e olhou fixamente para os próprios olhos, sem saber que eles encontravam os meus do outro lado. Ou talvez soubesse.Fiquei me perguntando se aquilo era um sinal. Concreta e racionalmente, não era. Mas insisti em acreditar que sim, que havia ali uma mensagem a ser interpretada. Inicialmente, só consegui pensar em uma única possibilidade: mau agouro. Não me condeno por essa visão negativa pois, se de fato somos o que comemos, eu tinha diante de mim um amontoado de carniça que veio voando se instalar ao lado da minha mesa de trabalho.

Como o bicho não dava sinais de que sairia dali tão cedo, confortável que estava no meu parapeito, e eu não podia simplesmente abandonar o posto, tentei pensar em algo que me acalmasse. Talvez o visitante estivesse em missão de paz, apesar de enlutado. De repente, entendi claramente o objetivo principal de sua presença: me fazer entender que tudo que devora coisas mortas, podres e carcomidas contribui de uma maneira muito contundente para a beleza da vida.

A constatação me fez sorrir. O urubu, que nada deixava escapar, resolveu me testar abrindo novamente suas enormes asas negras. Desta vez, não me apavorei. Entendi o gesto como um generoso convite para voar em suas asas. No entanto, para tornar a viagem possível, eu deveria abandonar meu excesso de peso e ele, se tornar mais forte. Assim, fizemos um pacto: eu lançaria ao meu amigo faminto o que de morto e podre houvesse em mim para que ele, gentilmente, a tudo devorasse.

O urubu então se empanturrou com um cardápio variado:  carnicentas mágoas, mal-cheirosos medos, putrefatas dores, podres preconceitos, estragados egoísmos e tantos ressentimentos em decomposição. Quanto mais eu alimentava o urubu, mais forte ele ficava e eu, mais leve. Assim, voávamos mais alto. Por fim, quando não restava em mim o que servisse de alimento para meu amigo, com receio de que perdêssemos altitude, comecei a desejar que outras mortes sustentassem nosso voo.

Então, desejei a morte de tudo que mata o sonho, entristece a existência, envenena a liberdade do espírito e impede o voo do pensamento. Roguei pela morte de tudo que impede a paz, o conhecimento, a arte, a beleza, a esperança, a fé na vida. Morte de tudo que destrói o afeto, morte da falta de cuidado e de respeito às diferenças, do que nos afasta da percepção da face divina do Outro. Desejei também a morte de tudo que nos desvia de nossa plenitude, do que nos faz embrenhar pelos descaminhos do conformismo e da mesmice. Morte!, gritei, aos sistemas injustos que matam pela falta de pão, de beleza e de oportunidade; que castigam a natureza e ofendem a dignidade humana.

Até que me dei conta de que não tivera tempo para despedidas e luto, nem me preparara para o mistério que agora se anunciava. O que havia restado de mim e do mundo que eu conheci um dia se, desde sempre, um e outro éramos feitos também daquilo que foi devorado pelo urubu? De repente, o desconhecido me pareceu infinitamente mais insuportável que a podridão, pois, de certa forma, havia me acostumado a ela.

E então, o sábio urubu, com jeito de profeta, me aconselhou: “filha, viva o novo e deixe que das coisas mortas cuidem os urubus”.

De susto, de bala ou de culpa

No fim da aula, a professora pede para eu esperar. É perigoso andar pela rua às dez da noite. Vamos para o mesmo lado, uma acompanha a outra, se é que isso serve de alguma coisa. Não deve mesmo servir. Não serve. Mas deixa pra lá. Quase chegando no ponto de ônibus, barulho de tiros. Muitos tiros. Continuamos andando, então o barulho ficou muito próximo. A minha única reação foi me esconder atrás da professora. Isso mesmo. Eu quis evitar uma bala perdida lançando mão de um escudo humano: a minha professora de Ética. Cena patética, eu fugindo dos tiros. Rimei ética com patética, sem querer. Sem querer, mas rimei. Minha ética deve ser patética. É, já sei. Por que uma bala daquela não me acertou? Eu já morri de vergonha. Imagina se uma bala me acerta? Coitada da professora, que seria obrigada a lamentar.

Carrego uma culpa. Certa vez um professor foi assaltado porque parou para me dar carona. Levaram carro importado, relógio caríssimo e uma boa grana. De mim, nada. Três alunas perderam suas bolsas. Comigo nada. Eu não perdi nada. Ganhei a certeza de que professor que anda comigo tem que, antes, andar com galho de arruda. E pé de coelho. E água benta. E figa. Duma figa.

A culpa duma figa já não basta. Agora a professora-escudo. Eu nunca basto. Desconcertada, tentei concertar. Teve jeito? Teve jeito. Só de piorar. Fiz que não ouvi nada, o medo passou. Ficou a culpa. Se antes me protegi, fui tentar proteger: “Espero ônibus com você”. Mudei de assunto, violência não é nada. Nada? Que nada. Já morri, de mosca morta. E nem precisei ser baleada.

Acho que mereço ser reprovada em Ética. Se eu fosse a professora, era o que eu faria. Faria? Nada. Hoje eu perdôo de graça. Não que eu costume cobrar para perdoar. Eu sempre cobro de graça: posturas que não tive. Mas hoje a misericórdia está em promoção. Porque eu nem consigo parar de rir. De rir por não existir, porque acho mesmo que morri. Morri de vergonha e, agora, morro de rir. Vocês não viram o que eu me vi.