Sobre movimento constante, repouso e pistas de equilíbrio

Com alguma frequência, de tanto buscar respostas que só me escapam, apelo para o movimento. Saio à procura de lugares, geográficos ou não, que me propiciem reflexões, aventuras, alternativas, distanciamentos, vertigens, poesias, incômodos ou doses cavalares de desconhecido, pra que eu possa olhar para as velhas questões a partir de novas perspectivas. Dessas experiências mais radicais de cabeça livre, peito aberto e pé na tábua nunca saí de mãos abanando.

Por outro lado, ultimamente venho sentindo com mais intensidade os efeitos do repouso representado pela meditação. Fundamental permitir que, a partir desse suave exercício de quietude, sejam naturalmente catapultados o excesso de bagagem, as carapuças que já não vestem bem e os sapatos apertados que, além de privar nossos pés do solo que nos constitui, só fazem multiplicar dores e calos. A consequência desse não-movimento é abertura de espaço interno para novos pensares, sentires, fazeres e fluíres.

Anúncios

Que Deus nos livre da mediocridade

“Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”
(Apocalipse 3:15,16)

Este versículo bíblico não saiu da minha cabeça a semana inteira. Minha interpretação é que a mediocridade parece ser mais abominável que o Mal em si, existindo ele. Posto dessa forma, muitos dos que sempre estiveram em paz com suas consciências podem estar condenados ao refluxo Divino e ser regurgitados para fora do Paraíso – o qual não sabemos onde se encontra, apesar de, frequentemente, dele facilmente nos perdermos. Interessante ler assim uma das fontes primárias de onde jorrou tantas de nossas regras sociais e morais…

Dia desses, o Alexandre, amigo querido e brilhante teólogo, explicou que a palavra por nós conhecida como “pecado”, no original hebraico das Sagradas Escrituras tem um sentido bastante mais amplo: seria algo que nos afasta do eixo de nossa plenitude. É um conceito judaico que remonta aos tempos antes de Cristo, considerando que o Novo Testamento já não foi escrito na língua dos hebreus, mas na dos gregos.

Partindo desse princípio, uma vez que nos encontremos afastados da tal plenitude, penso que inicia-se imediatamente a tentativa de resgate das metas fundamentais. Mas, para ocorrer o movimento em direção ao caminho supostamente perdido, é necessária a tomada de consciência que legitima e reconhece o desvio. Sendo assim, no desencontro máximo está a origem mesma do reencontro.

Em nenhum dos pólos, frio e quente, consigo identificar a metáfora do essencialmente bom ou essencialmente ruim. Mas diria que o frio remete à necessidade de calor, e o quente clama pelo refrescamento. Nesse sentido, nos dois lados há iminência de movimento.

A mornidão relaxa, acomoda, paralisa. É do conforto que vem a letargia, o não caminhar, a impossibilidade de errância. A mediocridade nos protege da marginalização e da genialidade – aliás, outro par que pressupõe o mútuo deslocamento, na minha opinião. Estar morno, dando um significado mais popular à sagrada exortação, quer dizer viver “à meia bomba”. Sem impotência nem priapismo.

Tendo em vista tal inércia diabólica, a ira dos céus seria uma redenção. Afinal, os mornos são lançados para fora, arrancados do estômago Supremo, rejeitados pelo Santo organismo, deslocados à força. Regurgitados, expulsos e, com isso, impulsionados, e devolvidos à essência do movimento em direção à plenitude.

Deus, por favor, vomite. E dê-nos a Graça de sermos eventualmente atormentados. Amém.