Do habitat por vezes antinatural

Faz quase um ano que não escrevo aqui. O último texto publiquei duas semanas antes de voltar para o Brasil, logo após ter aceitado a proposta inesperada da minha ex-atual-supervisora, que me convidou para reassumir meu posto nove meses depois do meu pedido de demissão. Como o motivo da minha demissão fora simplesmente a vontade de viajar por aí por tempo indeterminado, as portas, que não fechei, de repente se arreganharam na hora certa.

Era mesmo a hora certa. Por mais que ame viajar, que seja viciada nos incômodos, alegrias e vertigens proporcionados pela condição de estrangeira, chega uma hora em que é necessário parar e permitir que as experiências se sedimentem. E, no fim das contas, acho que só quando se volta pro lugar de sempre, pro habitat natural, pra zona de conforto, é que se percebe o quanto tanta coisa mudou pra sempre, irremediavelmente.

Anúncios

homônimas

vivo um susto, vem a dúvida: que foi mesmo que mudou?

no espelho minhas rugas avançam a passos lentos. e eu mal aproveito essa oportuna falta de pressa.
as celulites estagnaram, ou talvez minha miopia não tenha parado de avançar. e eu ainda não aprendi a celebrar a parceria perfeita entre meu tecido adiposo e minhas retinas com defeito.

faço chamada pras marcas do meu corpo e confirmo, elas continuam lá, obedientes e aplicadas:

– Manchinha Da Virilha!, chamo.

– presente!, ela responde.

– Pinta Nas Costas?

– tô aqui!

– Dores?

silêncio até que vem a resposta em coro:

– somos várias. é melhor chamar pelo sobrenome.

Promessas para Santa Teresa

Subi. Depois… cadê a vontade de descer?

Fui de bonde até o Largo dos Guimarães, onde encontrei o Paulo. Almoçamos no Mineiro uma carne-seca com purê de abóbora, couve, arroz e feijão. No capricho, honrando a tradição do restaurante. Duas doses de cachaça pra acompanhar, pra comemorar.

De lá, partimos pra nova casa, onde conversamos. Com aquele vento gostoso que entra o dia inteiro pelos janelões, com aquela vista pro Rio de Janeiro que há muito eu não via tão mágico.

Mais um pouquinho e descemos até o vizinho Léo, pra prosear e tomar o cafezinho que ainda não podemos fazer por falta de cafeteira, por falta de fogão. A geladeira, o som, o sofá e a mesa da sala o Paulo já providenciou. Ele está feliz da vida de já poder ter alguém pra quem cozinhar. Ah, ele adora cozinhar… Faz uns quitutes árabes que, confesso, pesaram muito na minha decisão virar sua flatmate.

O papo animado na casa do Léo, som do pandeiro que o anfitrião aprendeu a tocar com a Dona Patroa, bela Clarice, percussionista das boas, que toca ali pertinho, onde Santa acaba e a Lapa começa.

Depois voltamos lá pra casa, o Léo junto, e tomamos cerveja nós três. Não fosse o compromisso de encontrar o pessoal do Caroço no Largo do Machado, eu nem tinha voltado pra dormir em Niterói.

Pensei no Luquinhas o tempo inteiro enquanto perambulava pelas ruas do meu novo bairro. Será que ele vai gostar de andar no bonde daqui? Ah, se depender de mim, ele vai crescer achando o Rio mágico.