Sobre instinto e vontade

crepusculo-dos-idolos-friedrich-nietzscheTodo e qualquer erro, de toda e qualquer espécie, é a conseqüência de uma degradação do instinto, da desagregação da vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo que é bom é instintivo. – E, conseqüentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés leves são o primeiro atributo da divindade).

Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos.

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Diálogos

−  Preciso me preservar. Me sinto cansada e cada vez mais descompreendo certas relações utilitaristas. Tive uma epifania, talvez tardia: eu, que já me fiz de guerreira, de santa e de pervertida, entendi, como a mais frágil das fêmeas, que a única forma de existência viável está em não desistir do amor. Viver intensamente, por discursos revolucionários ou experiências libertárias, por si, não basta.

− Também tenho razões para um certo cansaço e ando recusando essas tais relações. Sinto hoje essa necessidade de ser afetado pelo amor. Já me permiti viver, durante muito tempo, relações em que, no fim, tudo o que importava era a sedução. Mas não é possível firmar a existência em bases tão frágeis.

− Me lembra Don Juan…

− Isso. O Camus fala sobre o donjuanismo, sobre esse homem absurdo, esse sedutor vulgar que não acredita no sentido profundo das coisas, que se esvai à medida em que, aos poucos, esgota suas possibilidades e experiências. Percebi que já fiz esse jogo e que, se continuasse, morreria.

− Eu já acho que os sedutores não podem contrariar a própria natureza. A maioria das pessoas quer, em algum momento, e sob certo aspecto, se sentir seduzida. É importante que alguém desempenhe esse papel. Um sedutor que nega a sua natureza, aí sim, provoca incômodo. Conheci uma mulher lindíssima, daquelas que todos notam ao chegar. Quando distraída, e ela era muito distraída, toda a sua beleza era manifesta. Ser sedutora era seu estado natural. Mas bastava que ela se apercebesse de um olhar maravilhado, e era natural as pessoas se maravilharem diante dela, e imediatamente a linguagem de seu corpo, antes mágica e teatral, se retraía: ela encolhia os ombros, baixava a cabeça, media os gestos ou, ainda pior, se infantilizava. Dizia besteiras e, nas conversas, reforçava incapacidades e limitações. Tornava-se, então, uma caricatura. Pude observar essa transformação algumas vezes nos poucos anos que convivemos. Jamais presenciei olhares de reprovação quando ela foi simplesmente o que era: deslumbrante e sedutora. Nunca captei um sentimento de inveja sequer. No entanto, inúmeras vezes testemunhei o desapontamento de muitos que, tendo buscado-a movidos por um desejo de tocar o extraordinário, acabavam se esbarrando nesses ímpetos de inferioridade forçada, nessa necessidade absurda que ela sentia de ser como os demais. Ninguém suportava por muito tempo conviver com essa transformação da mulher sedutora em caricatura. Uma vez seu namorado, confirmando minhas impressões, confessou: “ela não percebe o quão irritante é para todo mundo ver uma Ferrari andando no acostamento a 20 quilômetros por hora”…

− Encontrei o livro do Camus. Vou ler alguns trechos:

“Don Juan domina […] a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de fato, não se trata da mesma coisa[…]

“Ele é um sedutor vulgar. Com uma pequena diferença, a de ser consciente. Por isso é que ele é absurdo. Um sedutor tornado lúcido não mudará por esse fato. Seduzir é o seu estado. Só nos romances é que se muda de estado e as pessoas se tornam melhores. […] Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo […] O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em “colecionar” mulheres. Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Colecionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.

“[…]Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto temos de nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e aqueles que são feitos para amar. […] Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta.

“[…] É outro amor que estremece Don Juan, e esse é libertador. Ele traz consigo todos os rostos do mundo e o seu frêmito vem de ele se saber mortal. Don Juan escolheu não ser nada…”

− Hoje rejeito essa opção por ser nada e também relativizo a liberdade que sempre busquei. Para chegar onde estou, lá atrás elegi minhas referências, meus modelos de homens livres. Mas hoje convivo com esses mesmos homens que  outrora foram meus ídolos e sei de suas vidas particulares. O resultado dessa convivência me fez perceber que eles, hoje, são livres de verdade somente para morrerem na solidão.

− Que bom que você chegou a essa conclusão antes dos 30. Por mais que você tenha vivido muitas coisas cedo demais e conquistado posições importantes tão jovem, ainda tem outros 30 anos pela frente – e talvez esse seja o grande ensinamento desses mestres na sua vida, pois por causa deles, e por observar suas trajetórias que agora te parecem equivocadas, você não lamentará o curso das coisas somente depois dos 70.

− Hoje acho que Nietzsche foi um erro.

− Em que sentido?

− Ele mapeou muito bem tudo isso aqui, entendeu todas as relações e como os fracos são esmagados. Ele achava que, por ter compreendido, dançava acima das tramas humanas, mas ele se enganou.

− Sim, se enganou. Ele não suportou tudo isso que tão bem compreendeu. Eu digo que jamais quereria que minha lucidez me levasse à loucura. Lendo “Assim falou Zaratustra”, um trecho me foi particularmente perturbador. Me impressionou a lucidez como ele apontava isso que você chama de fraquezas humanas, mas pensei que isso não basta – ou basta, sim, para enlouquecer. Depois de ler, e concordar com ele, minha pergunta era: “mas e daí?”. Que me importa catalogar fraquezas, desvios e corrupções humanas e depois, como recompensa por tamanha perspicácia, passar 10 anos vegetando? Curiosamente, só me senti curada desse sentimento perturbador depois da leitura do texto de um religioso.

− Ah, mas nesse sentido o cristianismo tem um papel fundamental. É uma religião em que o lugar de destaque é de um fraco e nele essa humanidade inteira de fracos pode se redimir.

− O religioso em questão não era um cristão, mas um judeu. Ah, não! Por favor, não abra outra garrafa de vinho. Estou com muito sono e, aliás, não quero mais voltar pra casa. Podemos dormir abraçados que nem daquela vez?

− Claro. Amanhã te faço um café que nem daquela vez.

− Só espero que não seja ralo que nem daquela vez…

Conversas de sábado à noite

Em homenagem ao papo nietzschiano…

“Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: – Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais numa vida a dois é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar…”

Nietzschianas II

“É longe da feira e da fama que se passa tudo que é grande; longe da feira e da fama que moraram, desde sempre, os inventores de novos valores.
Foge, meu amigo, para a tua solidão: vejo-te picado por moscas venenosas. Foge para onde sopra um ar rude e vigoroso!
Foge para a tua solidão! Perto demais viveste dos pequenos e dos miseráveis. Foge da sua invisível vingança! Outra coisa não são, contra ti, senão vingança.
Contra eles não mais levante o braço; inúmeros são eles e não nasceste para enxota-moscas.
Inúmeros são esses pequenos e miseráveis; e mais de um soberbo edifício já foi reduzido a ruínas pelas gotas de chuva e as ervas daninhas.
Não és uma pedra, mas já foste cavado por muitas gotas. Ainda acabarás rachado e partido por muitas gotas.
Vejo-te cansado por causa das moscas venenosas, vejo-te arranhado e sangrando em cem lugares; e a tua altivez não quer nem mesmo zangar-se.
Sangue, querem de ti, com toda a inocência, sangue cobiçam suas almas exangues – e por isso, com toda a inocência, te picam.
Mas tu, ser profundo, sofres também das pequenas feridas; e, antes ainda que tenhas sarado delas, o mesmo verme venenoso já rasteja sobre a tua mão.
Demasiado altivo, eu te julgo, para matar esses gulosos. Mas toma cuidado em que não se torne teu destino suportar-lhes toda a venenosa injustiça!
Zumbem a teu redor também com louvores. Mas esse louvar-te é uma importuna insistência; querem estar perto da tua pele e do teu sangue.
Adulam-te como a um deus ou a um diabo; gemem diante de ti como diante de um deus ou de um diabo. Que importa! Aduladores, são eles, e gemedores e nada mais.
Também, com frequência, fazem-se de amáveis contigo. Mas isso foi sempre a esperteza dos covardes! Sim, os covardes são espertos!
Pensam muito em ti, com suas almas estreitas – és sempre inquietante, para eles! Torna-se inquietante tudo aquilo em que muito se pensa.
Punem-te por todas as tuas virtudes. Perdoam-te, no fundo, apenas os teus erros. 
Porque és benevolente e justo, dizes: “Não são culpados de sua pequena existência”. Mas sua alma estreita pensa: “Toda a grande existência é culpa.”
Mesmo se és benevolente com eles, sentem-se desprezados por ti; e retribuem os teus benefícios com ocultos malefícios.
Tua silenciosa altivez repugna sempre ao seu gosto; rejubilam-se quando, alguma vez, és bastante modesto para mostrar-te vaidoso.
Aquilo que conhecemos num homem é, também, o que nele inflamamos. Guarda-te, portanto, dos pequenos!
Diante de ti, sentem-se pequenos e sua inferioridade arde e incandesce contra ti em invisível vingança. 
Não notaste com que frequência emudeciam, quando te aproximavas deles, e como a sua força os abandonava, qual a fumaça de um fogo se apaga?
Sim, meu amigo, és, para o teu próximo, a sua má consciência: porque ele é indigno de ti. Assim, odeia-te e de bom grado sugaria teu sangue.
O teu próximo são sempre as moscas venenosas; aquilo que há de grande em ti – é, justamente, o que deverá torná-lo venenoso e cada vez mais mosca.
Foge, meu amigo, para a tua solidão e para lá onde sopra um vento rude e vigoroso. Não nasceste para enxota-moscas.
Assim falou Zaratustra.”

Nietzschianas

“Todo e qualquer erro, de toda e qualquer espécie, é a conseqüência de uma degradação do instinto, da desagregaçãoda vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo que é bom é instintivo. – E, conseqüentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés leves são o primeiro atributo da divindade)”.

Nietzsche, em Crespúsculo dos Ídolos [ou como filosofar com o martelo]