Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

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