28 dias de café – parte 4: “Das terras desencontradas”

Relendo um texto antigo do blog, de 2006, outros aspectos confirmavam a minha opinião de que o país que conheci não existia mais: 

“Nesse ano de 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo. Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a “comunidade internacional” jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus. Infelizmente não é possível definir com palavras a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões…”

Um episódio, na época, chegou a alimentar minha fé na humanidade. Era um dia qualquer de semana quando meu chefe interrompeu o trabalho dos voluntários na cozinha para tomar vinho e celebrar a retirada das tropas israelenses da fronteira do Líbano, depois de 30 anos de ocupação.

Engraçado pensar que nós fomos praticamente os últimos voluntários a viver na Israel daqueles dias. Pisei novamente em solo brasileiro no dia 8 de setembro de 2000, precisamente 20 dias antes da provocativa visita do chefe da direita Ariel Sharon à Explanada das Mesquitas, episódio que desencadeou a segunda Intifada e mandou pras cucuias as negociações pela paz.

Dave, John, Rick e eu chegamos a considerar a possibilidade de permanecer em Israel por um mês mais, pois Yasser Arafat àquela época anunciava, para o final de setembro, a declaração do Estado da Palestina, com ou sem o apoio da comunidade internacional. Mas esse nosso desejo de fazer história sucumbiu diante do cansaço que nos acometia e da vontade de voltar para nossas casas.

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