“Há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”

‎”Os fantasmas da minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender. (…) No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. – Mia Couto, para as Conferências de Estoril 2011.

Hoje, garimpando no Facebook, me deparei com este vídeo de um discurso do Mia Couto, nas Conferências de Estoril 2011, sobre segurança. Nele, o escritor moçambicano fala sobre o medo como construção social que cria fantasmas e inimigos onde não existem, ergue muros que inviabilizam o diálogo entre diferentes e rende trilhões de dólares à indústria de armamento.

Para exterminar os tantos fantasmas que aprendemos a temer desde crianças, Mia Couto aponta um caminho: o exercício de nos abrirmos para o diferente e a disposição de conhecer o outro.

As palavras do escritor me tocam muito, pois tenho podido experimentar a verdade que elas carregam. Há 7 meses estou viajando pelo mundo e, nesse tempo longe da minha zona de conforto, precisei contar com a ajuda de muita gente. Além de jamais ter me sentido ameaçada, gentileza e solidariedade nunca me faltaram.

Minha primeira viagem internacional foi aos 18 anos, para Israel. Na época, recebi muitas mensagens preocupadas. Mal sabiam os amigos que mesmo em Israel, naquele ano 2000, quando ainda havia esperança nas negociações entre israelenses e palestinos, antes da Nova Intifada, as pessoas eram menos agressivas que no Rio de Janeiro, onde também é comum desejar a morte do vizinho em nome da paz.

Recentemente estive na Caxemira e vivi sozinha, durante uma semana, em uma casa-barco. Numa região famosa pelos surtos de violência e onde predomina o islamismo, religião tão estigmatizada e que se tornou sinônimo de fundamentalismo, encontrei mais afetuosidade e disposição para o diálogo do que em muitos redutos ditos cristãos.

Nunca tivemos tanto acesso à informação; ainda assim, os estereótipos imperam e os fantasmas vagam soltos por aí, nos roubando o sono e impedindo utopias. Atormentados, deixamos de sentir e de pensar criticamente. Assustados, erguemos barreiras em vez de construirmos juntos um mundo mais justo. Cegos, estigmatizamos sociedades inteiras por conta dos erros cometidos por determinados grupos e nas restritas esferas de poder.

Claro, são poucos os que lucram com a manutenção do medo e tal percepção deveria nos revestir de coragem para dizer não a esse estado de coisas. Comecemos, pois, aprendendo a olhar nos olhos em vez de nos contentarmos em ver o mundo através de telas e janelas.

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Novos ditos de antigas andanças e paragens

Em 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo.

Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.

Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Na época, todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a comunidade internacional jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel — e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos-israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus. E experimentei muitos momentos de solidão, tempos depois, ao voltar pra casa, porque entre as pessoas mais queridas não havia quem conhecesse a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões.