Hoje vou desejar o que aqui está

Hoje, pra ser diferente, vou desejar tudo o que aqui está. Quero desistir de inventar outras existências e trocar minhas sempre urgentes novidades por um baú de saudáveis velharias. Quero exibir minhas roupas puídas, desfilar com meus sapatos gastos e resgatar esquecidas overdoses de utopia.

Quero entender minhas saudades como sorte, porque afinal só chora ausências quem teve a felicidade de ser impactado por marcantes presenças.

Quero a minha cabeça encontrada com o corpo, os dois no mesmo espaço-tempo. Quero parar de sonhar com uma casa no campo e aprender a cheirar a fumaça de óleo diesel que o meu cotidiano me empurra nariz adentro e goela abaixo. Quero a vida como ela é, com todas as contradições, pra que a palavra revolução não perca o sentido.

Quero deixar de buscar um constante estado de alerta, pois minha lucidez depende daqueles momentos de felicidade bêbada e distorcida.

Quero agradecer por cada amor contrariado, por todos os nãos que me moveram em direção a outros sins e novos encontros. Mas também quero lutar por minhas paixões antes de me forçar a criar novos sonhos já salgados pelas lágrimas das esperanças perdidas.

Quero fazer cair a ditadura da emoção sempre contida, celebrar a liberdade da entrega e o vexame do amor descabido. Quero chorar sem medo de sentir na pele e na boca o gosto da minha alma em carne viva.

Quero tomar vinho com minhas amigas enquanto pintamos as unhas de vermelho. E que a dança me invada outra vez.

Quero deixar de procurar Deus em algum lugar misterioso, longe ou alto demais e reaprender uma fé criança. Quero rezar o “pão nosso de cada dia nos dai hoje”, porque pra depois de amanhã não há mesmo garantia de brioche.

Quero parar de pensar tanto na falta que me fazem os companheiros que migraram pra longe do meu caminho, esquecer um pouco essa tristeza dos amores separados e lembrar a dádiva de ser uma ilha cercada de vida por todos os lados.

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