Rascunho de um romance inacabado

Para a releitura das crônicas e memórias de viagem, escolheu a sala de estar, precisamente por ser o canto da casa mais aberto e neutro. Em seu quarto, precisava pedir licença, abrir caminho entre os sonhos ali gestados, paridos e abortados, entre as lembranças de amores pela metade e sofrimentos por inteiro. Na sala, ficava exposta a todas as interferências que sempre detestou, como o barulho do rádio na estação de notícias, da louça sendo lavada, do telefone que nunca atendia, das conversas de seu irmão em tom irritantemente entusiasmado, da curiosidade eterna de seu pai em relação ao que tanto ela escrevia, quando não no computador, em um caderninho de capa de couro e, por dentro, folhas de papel envelhecido – presente de Natal dado por sua irmã, que trouxera o agrado de Florença.

Hoje, ela precisava de todas essas interferências, talvez para evitar o barulho dos tambores de seus sentimentos enquanto relia as caras recordações.

O primeiro texto, escolhido aleatoriamente, era um começo pelo fim. Versava sobre o dia da partida…