A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.

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Ele (6)

Nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias, entre as quais se destaca a intimidade com os números. Seu projeto de mestrado arrancou elogios de um renomado matemático búlgaro, o que me enche de orgulho, obviamente. Mas no dia a dia essa habilidade não me favorece. A mania de fazer comparações é, sem dúvida, a parte mais irritante. Uma vez, pedi sua opinião sobre um serviço de Internet móvel. Quando eu disse quanto custava por mês, ele, com aquela cara de quem recebe elogio de matemático búlgaro, me respondeu que a quantia equivalia à prestação de uma moto de 250 cilindradas. Tentei argumentar que eu não precisava de uma moto e sim de Internet – urgentemente! – mas nem assim ele me apoiou.

Outro dia, cansada, reclamei da minha viagem casa-trabalho-casa, que consome cerca de três horas do meu dia. Em vez de me consolar, me aninhar em seus braços e dizer que me ama apesar do meu rosto abatido e do meu mau-humor, ele, com ar de Rei da Bulgária, sugeriu que eu considerasse a possibilidade de morar na região dos lagos ou na região serrana, pois o tempo de deslocamento era o mesmo.

Mas o pior foi o dia em que vesti só pra ele o meu vestido novo. No lugar do elogio que eu tanto esperava, veio a pergunta: “quanto custou?”. Frustrada, e com vontade de torcer o pescoço do primeiro búlgaro que aparecesse na minha frente, ou até de um nepalês, desde que fosse matemático, me limitei a dizer que não havia sido caro. Ele insistiu para saber o preço; eu, por fim, respondi e ele concluiu: “realmente, o vestido não custou caro. As passagens de avião é que estão baratas”.

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Ele (4)

Gosto da linguagem corporal dele. Há elementos óbvios, o mais marcante é o peito sempre aberto, estufado, dando aquele ar de macho-alfa, cheio de atitude. Mas, o que amo mesmo são os detalhes… 

Ele tem um vício de postura, uma mania de se apoiar mais em uma perna que na outra. Gosto de reparar todas as vezes em que ele está assim porque a bunda, linda, ganha um contorno diferente. Quando ele está em pé, distraído, mexendo em peças, ajustando a câmera fotográfica, lavando a louça ou temperando o peixe, aproveito e fico uns bons minutos o observando de costas.

No mais, acho graça porque, com certa frequência, ele emenda dois movimentos: o de olhar no relógio de pulso e, em seguida, o de passar a mão na cabeça, começando pelas entradas. Como se o transcorrer das horas o lembrasse, a cada minuto, de que já não há mais muitos fios de cabelo a perder.

Ele (1)

Gosto dos detalhes. Sou apaixonada pela pinta que ele tem do lado direito do rosto, perto da boca. Vivo um dilema por causa daquela pinta: a maior parte do tempo, ela fica encoberta pela barba que amo. Minha relação com a barba é quase um casamento. Mas todas as vezes que a barba sai e encontro a pinta, tenho vontade de beijá-la. E eu me sinto infiel por isso.