Eu, por mim mesma – Tomo sétimo (e último)

“De todos os santos”

Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.

Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.

Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.

Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.

Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.

Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.

Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.

Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.

Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.

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